page view
Imagem promocional da micronovela
MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

Por amor à causa

Pelo partido, esquecem a família, levam porrada nas manifs, colam cartazes até altas horas da noite. São militantes à moda antiga. E talvez os guardiões da democracia.

06 de fevereiro de 2005 às 00:00

Das janelas da sede de campanha do PSD, num dos prédios mais luxuosos da Avenida da República, em Lisboa, avista-se o sorriso confiante de Paulo Portas, as promessas de José Sócrates e a prioridade de Francisco Louçã, o emprego. Os três líderes partidários parecem saudar os militantes sociais-democratas, cerca de 20, que recentemente se mudaram para as novas instalações, de corredores labirínticos e paredes cor-de-laranja. É ali que vão trabalhar até 20 de Fevereiro, data das eleições legislativas. João Taveira, 49 anos, director de campanha do PSD, não se mostra impressionado com os cartazes da concorrência. "Vamos pendurar uma mega tela desde o 8.º andar até lá abaixo. Nunca se viu nada assim", assegura.

O militante número 976 do PSD sabe o que diz. Participou nas primeiras eleições legislativas em 1976 e desde então, só falhou uma – a segunda maioria de Cavaco Silva, de 1991. "É sempre emocionante. É como ser-se pai…por muitos filhos que se tenha, a chegada de mais uma criança é sempre um ‘happening’."

A escassos dias do arranque da campanha, agendada para hoje, 5 de Fevereiro, na sede dos sociais-democratas fazem-se os últimos preparativos. O cheiro a tinta denuncia as recentes obras da cozinha. Para remodelar a pequena divisão, João Taveira arregaçou as mangas e trocou o fato de bom corte por uma roupa desportiva. Com latas de tinta preta e laranja, três ou quatro mesas e algumas cadeiras, transformou o desenxabido espaço no primeiro bar/café da sede de campanha do PSD. E quando é preciso, até salta para trás do balcão e serve cafés. "Não sou de ficar à espera que apareça alguém. Avanço e faço."

Essa determinação fez com que aos 19 anos se tivesse tornado num dos mais jovens candidatos a deputado por Lisboa – e só por pouco sobreviveu à experiência. Em Portugal viviam-se tempos agitados, com o célebre comício da Fonte Luminosa, na Alameda D. Afonso Henriques, a 19 de Julho de 1975, ou o episódio do 25 de Novembro, em que a tendência comunista seria derrotada. Ao sair à rua com os emblemas do partido laranja cosidos no casaco de cabedal, João Taveira arriscava a vida. Era frequentemente agredido onde quer que fosse. "A seguir à Revolução, havia pouco conhecimento político. Nas sessões de esclarecimento explicávamos às pessoas quais eram as intenções do nosso partido."

TAREIA À SÉRIA

Na maior parte das vezes, o jovem militante entrava pela porta e saía pela janela. Na Covilhã, chegou mesmo a levar um tiro numa perna. Em Beja, foi sovado por uma multidão enraivecida. "Estávamos a terminar uma secção quando nos avisaram que o edifício estava cercado. Ainda tirámos os oradores pelo telhado, mas já não conseguimos escapar." À porta, mais de 600 pessoas, munidas de pés de cabra e cabos de enxada, acusava-os de 'fascistas' e exigia 'justiça popular'. Por momentos, chegou a pensar que aquele seria o último dia da sua curta vida.

Ao fim de duas horas de tareia à séria, os 20 militantes do PSD foram socorridos por um pequeno contingente militar. "Os cinco soldados vinham recolher os mortos e os feridos. Como ainda estávamos vivos, deram-nos ordem de prisão", ironiza. Ao dirigir-se para o carro de patrulha, acompanhado pelos colegas, alguns com ferimentos graves, reparou numa série de bandeiras sociais-democratas dispostas no chão pelos populares. Incapaz de pisar o emblema do partido, João Taveira decidiu saltar por cima delas. O atrevimento saiu-lhe caro. Enquanto pulava, alguém puxou de uma faca e atingiu-o numa perna. Ainda hoje guarda a cicatriz dos tempos de militância.

Confortavelmente sentado no gabinete, com vista privilegiada para a Avenida da República, 30 anos separam o actual director de campanha do PSD, do jovem João Taveira, estudante de Direito, acérrimo defensor da causa de Sá Carneiro. Nos períodos eleitorais, lá ia ele para a rua, à noite, colar cartazes. Para que a oposição não os rasgasse, subia com agilidade às árvores, e pendurava-os o mais alto que conseguia. Hoje, esses conceitos de campanha estão completamente ultrapassados e foram substituídos pelas agências de comunicação. No PSD, os militantes também já não vivem o período eleitoral com a mesma intensidade. "O espírito de militância está muito diluído nas novas gerações", admite. São mais os que julgam que a política pode ser o veículo para chegar a qualquer lado. Aos jovens nascidos no pós-25 de Abril, João Taveira gosta de lhes ensinar que a política tem de ser vivida com paixão e exercida com dedicação. "Se voltasse atrás fazia tudo igual. As campanhas eram feitas na base de uma enorme generosidade dos militantes", conta. Nem quando o pai lhe retirou todo o apoio financeiro, convencido que isso seria suficiente para o levar a abandonar a política, deixou de militar. "Fui trabalhar para uma bomba de gasolina. Às 8 da manhã começava a encher depósitos."

MILITANTE À MODA ANTIGA

A essa hora, já Manuela Tavares, bem agasalhada, se encontra a distribuir os comunicados do Bloco Esquerda (BE) na entrada dos barcos em Cacilhas. Aos 54 anos, a candidata pela lista do distrito de Setúbal, encabeçada por Fernando Rosas, ainda faz questão de ir para a rua distribuir propaganda pelas suas mãos – um hábito que lhe ficou dos primeiros anos de militância na União de Mulheres Alternativa e Resposta, criada em 1976, e mais tarde na UDP.

"No Bloco ainda existem militantes à moda antiga. Alguns jovens até julgam que conseguem colar os ‘outdoors’. Só que isso não é assim tão fácil", assegura.

Nem o frio cortante que se faz sentir, em Cacilhas ou nos barcos do Barreiro, a coíbe de esboçar um sorriso na altura de estender a mão com um panfleto a todos os passageiros que por ali caminham, em ritmo acelerado. "Bom dia, é do Bloco. Quer um?", repete até à exaustão, sem perder a esperança de trocar um olhar cúmplice com os que aceitam o papel. E se hoje há quem pare e queira conhecer melhor a actividade política do BE, quando o partido se lançou, em 1999, era mais difícil pedir aos eleitores um minuto de atenção. "Não nos conheciam e desconfiavam. Nessa altura também tínhamos menos dinheiro, e isso ressentia-se nas campanhas eleitorais".

Ganharam notoriedade, mas sem o esforço financeiro dos militantes não conseguiam espalhar tantos 'outdoors' pelas principais avenidas da cidade. A campanha de Setúbal, por exemplo, depende da venda de 5 mil rifas. O prémio de sonho é um périplo por Itália, com passagem obrigatória por Veneza, Roma e Florença, mas a crise económica obrigou os simpatizantes do BE a apertar o cinto. "Não estamos a conseguir vendê-las ao ritmo que se pretendia. A lotaria do Carnaval é já para a semana…por isso, cabe aos candidatos darem mais qualquer coisinha."

A falta de dinheiro nunca serviu de pretexto para Manuela, militante número 845 do BE, cruzar os braços. Após o 25 de Abril, e com o apoio das mulheres do bairro onde morava, no Pragal, ocupou um antigo palacete, já em fase de degradação, e transformou-o numa creche. "Durante o Verão, andámos a pintar as paredes e a torná-la num espaço acolhedor. Foi uma alegria muito grande o primeiro dia de aulas", diz.

Há mais de 20 anos que a vida pessoal desta professora da Escola Secundária Fernão Mendes Pinto, em Almada, se cruza com as lutas políticas. Enquanto estudante de Economia, assistiu à entrada da polícia de choque na universidade e só por um triz é que não se aleijou com gravidade. Valeu-lhe a ajuda de uma senhora, que por acaso ali passava. "Viu-me ali, grávida, no meio da rua, sem saber para onde ir. Puxou-me para o passeio e salvou-me a vida." Nunca mais se esqueceu daquele episódio. A partir desse dia disponibilizou-se para o combate – e teve o apoio do marido, técnico bancário e militante da UDP. Os dois levavam a filha, ainda pequena, para todo o lado. Faziam pinturas murais, em Almada, iam juntos para as reuniões do partido e nunca faltavam a um comício. "Ao longo dos anos, as coisas começaram a arrefecer", confirma.

Hoje, Manuela já se queixa da falta de vitalidade para passar as noites na sede do BE, instalada no segundo piso de um pequeno edifício na Avenida Almirante Reis, a planear as acções de campanha. Falta-lhe estaleca para ir colar cartazes para a rua, e só por carolice é que decidiu interromper por dois meses o doutoramento e colaborar na eleição do cabeça de lista por Setúbal. "Tantos anos de militância, não podia ficar no meu cantinho."

O CARTAZ DO PS

António Sebastião Antunes milita há tanto tempo como Manuela Tavares, do BE, ou João Taveira, do PSD, mas a sua vontade é abandonar de vez a política e mudar-se para a pequena terreola onde nasceu, Martim Branco, no interior da Beira Baixa. "Costumo dizer que não estou velho, mas já nasci em 1932." À frente da junta de freguesia de Agualva-Cacém desde 1992, estava decidido a recusar o convite do Partido Socialista (PS) para voltar a candidatar-se nas próximas eleições autárquicas, previstas para Outubro. Quando chegou o momento certo para o fazer, reconsiderou. "Se ganhar, como espero, vou ficar aqui até me sentir bem. Se perder, vou viver para a casita que o meu falecido pai me deixou."

Da aldeia saiu directamente para a tropa, sem saber ler nem escrever. Os pais, lavradores, precisavam da força dele para os ajudar a cultivar a terra – e do dinheiro que Sebastião Antunes trazia para casa depois de uma semana passada na apanha da azeitona ou na construção civil. Às vezes, nem chegava a 25 tostões. Só em Lisboa, depois de ter estudado até ao 2º ano do ciclo, conseguiu guardar todas as moedas que ganhava como empregado na antiga Companhia das Águas, hoje EPAL. Dali só saiu 37 anos depois. Após uns anos na rua, a consertar rupturas e a substituir canalizações velhas, foi promovido a motorista da administração. "Era mais limpo. Estava fora da trincheira", conta. Foi o suficiente para a sua vida mudar de vez. Ao volante de pele do luxuoso automóvel foi-se apercebendo da situação política que se vivia em Portugal. Fingindo-se desinteressado, ia a ouvir tudo, tim tim por tim tim.

O 25 de Abril não o apanhou desprevenido. Há muito que se cochichava no carro que o governo de Marcelo Caetano, mais tarde ou mais cedo, ia ser deposto. Só quando chegou a Cascais, à casa do administrador, é que entendeu as implicações sociais da Revolução dos Cravos. "Disse-me logo para deixar de guiar de boné. Foi então que percebi que alguma coisa tinha mudado."

Para o militante número 2180 do PS, Portugal mudou para melhor. Depois de ler com atenção todos os programas políticos dos três partidos, PS, PCP e PSD, optou pelo socialismo – por lhe parecer a doutrina mais equilibrada. "O rico menos rico e o pobre menos pobre", resume. A 3 de Maio de 1974 ele e mais três colegas inauguraram o primeiro núcleo do PS na EPAL: foi só juntar duas mesas e tapá-las com um pano vermelho. Naquelas instalações rudimentares delineavam-se as estratégias para combater o poderio dos comunistas na Empresa das Águas Livres. "Eles tinham centenas de militantes. As pessoas estavam convencidas que o PCP ia chegar ao poder e, por isso, agachavam-se. " Sebastião Antunes nunca teve medo deles. Nem quando o acusavam de fascista. "São como aqueles cães… ladram, ladram, mas não fazem nada."

No 'Verão Quente' de 1975, com medo que a sede do PS fosse alvo de atentados ou de assaltos, o militante passava três noites por semana, sozinho, a vigiar o prédio no Largo do Rato. Nesse mesmo ano, e durante o 1.º Congresso da Internacional Socialista realizado em Lisboa – que contou com a presença do chanceler alemão Willy Brandt – disponibilizou-se logo para passar a noite no terceiro piso do Hotel Ritz, em Lisboa, com mais três colegas, a guardar a porta do quarto do político germânico.

A dedicação à causa socialista prejudicou a vida familiar. As noites eram passadas na companhia dos colegas socialistas, a fazer bandeiras e a colar cartazes na rua. Em casa de Sebastião Antunes, o filho estranhava a sua ausência. "Chegou a perguntar à mãe se eu ainda morava lá." Foi o preço que o presidente da junta pagou pela defesa da democracia em Portugal. "A partir do momento que me inscrevi no PS, nunca mais despi a camisola do partido. Percorri todos os órgãos do partido, excepto o Secretariado Nacional."

Apesar de já não ter saúde para andar na rua a agitar bandeiras ou a gritar palavras de ordem, no dia 20 de Fevereiro, logo pela manhã, Sebastião Antunes coloca-se estrategicamente junto ao portão de ferro da Junta de Freguesia. Por ali passa muita gente a caminho das mesas de votos. "Mal me vêem, lembram-se logo do PS. Eu sou o melhor cartaz do partido", admite, sem falsas modéstias.

DE VASSOURA NA MÃO

Para os militantes que nasceram antes do 25 de Abril, e tiveram o privilégio de participar nas primeiras eleições livres – um acto eleitoral com uma taxa de participação de 91,7 por cento – dificilmente a política os voltará a marcar com a mesma intensidade. Apesar de Manuela Tavares descrever o Bloco de Esquerda como "um partido à moda antiga, onde os militantes entram com o trabalho e com algum dinheiro", é a primeira a reconhecer que o espírito já não é o mesmo. "As campanhas são feitas pelos media. Já ninguém faz o que nós fazíamos", corrobora Sebastião Antunes. O militante histórico do PSD, João Taveira, aponta o dedo à classe política. "Em alguns momentos deu uma imagem pouco credível e desmotivou as pessoas." Os portugueses deixaram de participar nos comícios – a televisão tornou-se no melhor veículo de propaganda política. "É o sinal dos tempos", acrescenta António Miguel Antunes, 32 anos, militante do CDS/PP.

Do 25 de Abril, não guarda quaisquer recordações – tinha apenas dois anos no dia da Revolução dos Cravos. Em casa, não havia o hábito de discutir política à hora do jantar, entre duas colheradas de sopa. Mal começou a frequentar a escola primária, tornou-se num espectador assíduo do ‘Telejornal’. Com os olhos postos no televisor deu-se conta que os países mais desenvolvidos tinham governos conservadores ou democrata-cristãos, como acontecia na Grã-Bretanha de Margaret Tatcher, ou na Alemanha, liderada por Helmut Khol. As imagens que chegavam ao Ocidente da instabilidade financeira que se vivia nos antigos países de Leste – lojas com prateleiras vazias, filas intermináveis para comprar bens essenciais – só lhe vieram dar razão: miséria e socialismo andam de mãos dadas. "Além disso, acredito no valor da família e no direito à vida, " acrescenta o militante número 446 do CDS/PP.

Depois da derrota de Freitas do Amaral nas eleições presidenciais de 1986, António Miguel, com apenas 13 anos, cansou-se de sofrer em silêncio e decidiu juntar a sua voz ao coro de protestos da Juventude Centrista (JC). Não sem antes cometer um erro crasso. "Fui bater à porta dos sociais-democratas. Mas não correu nada bem. Fiquei com a impressão que era um partido indefinido, com poucas causas."

Sentado num dos gabinetes do velhinho edifício do CDS/PP, no Largo Adelino Amaro da Costa, em Lisboa, António Miguel – de casaco vestido para se proteger do frio que lá dentro se faz sentir – recorda-se vivamente dos anos em que saía a correr da escola para a concelhia do partido, em Sintra. Numa dessas tardes, foi surpreendido pela mãe enquanto varria o chão. "Lá em casa, o menino não faz nada e vem para aqui trabalhar. Deixe estar que vou arranjar-lhe uma vassoura", disse-lhe, quando o apanhou em flagrante.

Quando decidiu, pela primeira vez, colaborar numa campanha eleitoral, pendurou-se numa das janelas do carro de som e durante todo o percurso nunca parou de agitar freneticamente as bandeiras do CDS/PP, ou de distribuir panfletos. Gostou da experiência e voltou a repeti-la nos anos seguintes. Sem dar por isso, tornou-se especialista em acções eleitorais e foi convidado a integrar o gabinete de campanha dos democratas-cristãos. Com a chegada de Paulo Portas à liderança do partido, em 1998, António Miguel tornou-se no braço direito do novo líder. "Tenho aprendido muito com ele", assume, sem complexos. Mas também tem ajudado o partido sempre que é preciso. "Não há muito tempo, precisávamos de encher o depósito do carro de Paulo Portas. Tive de ser eu a dar-lhe 50 euros."

Além da ajuda financeira, durante as campanhas que fizeram juntos cabia-lhe a ele acordar o líder e certificar-se que chegava a horas aos compromissos. "No período de eleições, os dias começam cedo. Ele não tinha esse hábito…tive de o disciplinar."

Este ano, Paulo Portas vai ter de percorrer o País de lés-a-lés sem António Miguel. Com o nascimento do segundo filho previsto para o dia 24 de Fevereiro, o militante – adjunto do presidente nacional da Cruz Vermelha – vai ficar por Lisboa.

"Já chega de misturar a minha vida pessoal com a do partido. Posso-lhe dizer que quando me casei, encurtei a lua--de-mel só para estar presente no Congresso do partido, em 2000."

O OUTRO LADO DA HISTÓRIA

A família de João Inglês Mourão, 24 anos, cruza-se com a própria história do Partido Comunista. O pintor José Dias Coelho, assassinado pela PIDE em 1961 – e a quem cantor Zeca Afonso dedicou o tema 'A Morte Saiu à Rua' – era irmão da sua avó.

O avô, Carlos Aboim Inglês, membro do Partido Comunista desde 1946, e falecido a 12 de Fevereiro de 2002, empenhou-se desde muito jovem na luta contra a ditadura e pela conquista de um regime democrático. Com a idade do neto, passou à clandestinidade. "Ele e a minha avó estiveram presos e foram torturados. A minha mãe, com apenas 4 anos, passou uma semana na cadeia." Talvez por o considerarem novo demais para ficar a conhecer o outro lado da história, a família fechou-se em copas. Foi nos livros que João encontrou as respostas às questões colocadas aos avós. "Só de vez em quando é que essas histórias fluíam."

Não foi para os impressionar que, aos 15 anos, se inscreveu como militante do PCP. Entusiasmado, foi a correr dar a boa-nova ao avô, de quem era muito próximo. A primeira coisa que Carlos Aboim Inglês fez foi dar-lhe os parabéns. Depois, perguntou-lhe: "Já leste o programa e os estatutos do PCP? E dos outros partidos?". Para não o desapontar, João respondeu que sim – mas não foi capaz de o enfrentar nos olhos. "Menti-lhe. Não tinha lido os do PCP. " Nesse dia, foi para casa estudar a lição. Decorou-a tão bem que só consegue falar em nome do partido. "Não estou nesta luta sozinho. Somos muitos…", realça, convicto dos seus ideais. Em pequeno, andava pela rua, com mais camaradas, a distribuir panfletos. Hoje, o partido conta com os seus conhecimentos na área da sonoplastia. Durante as campanhas eleitorais, João mete-se ao volante da carrinha do partido, uma Fiat Ducato, e percorre o País com o equipamento de som. As eleições para o Parlamento Europeu, o ano passado, foram uma prova de fogo. "Estava responsável pela instalação do som em todas as iniciativas do partido. Às vezes eram seis por dia…" Os nervos não o atraiçoaram e a prova foi superada. Quando era preciso, pegava em cartazes e ia colá-los pela Praça de Espanha ou na Cidade Universitária.

Na sede do partido, em Lisboa, João movimenta-se como se estivesse em casa. Foi ali que cresceu – a mãe é funcionária do PCP – a ouvir as histórias dos militantes mais velhos, para quem Abril ainda é revolução. "Francisco Miguel foi um dos camaradas que mais me marcou. Analfabeto, chegou a deputado da Assembleia da República. Enquanto esteve preso, queimava o próprio braço com o cigarro para mostrar que não falava. Histórias dessas já não há…"

Os partidos políticos podem gastar até 7.374.096 euros na campanha eleitoral para as legislativas de 20 de Fevereiro, mais do dobro do que puderam despender nas anteriores eleições, em 2002. A nova lei dos partidos políticos e das campanhas eleitorais, alargou o limite de despesas com as campanhas e das subvenções estatais para mais do dobro.

Por cada candidato apresentado, os partidos podem gastar 60 salários mínimos nacionais. Nas legislativas de 2002 o limite era de 3.196.000 euros, o que correspondia a 28 salários mínimos nacionais por candidato. No entanto, o limite de 7.374.096 euros aplica-se aos partidos e coligações que concorram aos 22 círculos eleitorais e apresentem o número máximo de candidatos permitido por lei, 230 efectivos e 98 suplentes.

Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?

Envie para geral@cmjornal.pt

o que achou desta notícia?

concordam consigo

Logo CM

Newsletter - Bom Dia

As suas notícias acompanhadas ao detalhe.

Mais Lidas

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8