Mais de três dezenas de pessoas ficaram em silêncio durante três dias num retiro tibetano, na Serra de Monchique. São pessoas comuns, que procuram fazer o bem, através da meditação, partilhando os ganhos pessoais. A Domingo acompanhou esta viagem aos ensinamentos de Buda
Lígia apagou o cigarro num frasco, beijou, como despedida, Maritza, Soraia, Mila e Manelinha, e desapareceu no meio do arvoredo. Dali para a frente passaram por 70 horas de silêncio; 41 de meditação budista.
Naquele instante passa das 13 horas; mais de três dezenas de pessoas caminham para o templo. À medida que vão entrando, as tábuas do chão, pisadas por pés descalços, rangem. Estes são os poucos sons partilhados até ao terceiro dia a contar de agora. Espera-se silêncio e que ninguém olhe nos olhos dos outros; é uma maneira, sem distracções, de tomarem contacto com o que se passa dentro de si próprios. Assim poderão passar a ver as coisas como elas são, sem julgamentos. Vindos, a maioria, do Porto, vão-se chegando para junto do altar – uma mesa com a imagem de Buda ao centro – e alcançam as carpetes. Pousam os colchões, as almofadas e sentam-se. O cheiro do incenso progride no espaço com capacidade para 300 pessoas. A paisagem das imensas janelas laterais, de madeira, transforma-se em luz à medida que os corpos se baixam. Desaparece a vista sobre a serra despida pelos fogos de Verão e onde sobressaem as estradas que se cruzam como caminhos para um mesmo lugar. Vê-se o mar algarvio.
A estrada para o Centro Karuna (que quer dizer compaixão, em tibetano) é inóspita para carros – é preciso esquecer os 5,8 km até Monchique. Dorme--se nas camaratas após a 'segregação' entre homens e mulheres.
'No meio de um grande turbilhão na minha vida – como acontece – houve alguém que me indicou este caminho. Perguntou-me: ‘queres ter, ou queres ser?’ E eu escolhi ser' – diz Lígia.
'Vamos meditar não só para o nosso bem: que seja benéfico para os outros também', inicia Bal Krishna, no tom de voz monocórdico que se ouvirá nos intervalos de cada sessão de meditação. Bal está sentado com as pernas cruzadas, cobertas por um manto; no colo, a mão direita sustenta a esquerda e os polegares tocam-se; a barba branca e a cabeça limpa de cabelos não lhe escondem um sorriso de dádiva. Ele vai partilhar a sua experiência.
'Se queremos aprender a meditar, temos que escolher um objecto pelo qual não temos apego nem rejeição, mas de utilidade' – explica Bal. 'Escolhemos a respiração, que está intimamente ligado às sensações, através do corpo, às emoções, através da energia, e aos pensamentos, através da mente. A respiração é uma ‘ferramenta’ que está sempre connosco' – acrescenta.
Todos estão de frente para ele e sentados na mesma posição. À medida que vão cerrando os olhos desaparecem as imagens das três thankas (gravuras) tibetanas penduradas na parede do fundo, de costas para Bal, e ao lado do altar. Está representado o Buda da Medicina, o Padmasambhava e Chenresig, o Buda da Compaixão.
Para os iniciados – que deverão ser metade dos participantes – é difícil começar a meditar, como confirma Maritza Gaudêncio, 27 anos. 'A meditação em si custou-me porque senti que não conseguia estar durante muito tempo concentrada na respiração e as dores de costas também não ajudaram. Mas esta experiência mostrou-me que há um longo caminho a percorrer. Noto serenidade quando medito e me concentro nos ensinamentos que adquiri neste retiro' – acrescenta a estudante de Engenharia do Ambiente, no Porto.
Às vezes sente-se vontade de não estar ali sentado. Inicialmente pode-se resistir à concentração na respiração.
Inspirar, expirar, inspirar... A concentração vai fazer parar os pensamentos. 'Se a mente continuar a fazer filmes, então é porque estou a fazer o que sempre fiz' – diz Bal. Quando a mente se concentra na respiração, simultaneamente, vem a acalmia. 'O nosso trabalho é observar a respiração sem tentar alterá-la, não é fazer nada com ela.'
Bal explica que a meditação faz parte dos ensinamentos budistas. Olhando para Buda como um estado e não como pessoa – e, para mais, qualquer pessoa pode atingir esse estado – nesse sentido não é uma religião. Por outro, usar a imagem de Buda para aprender a meditar faz parte da religião.
'Sinto que [com a meditação] desenvolvo compaixão por todos os seres, ganho paz de espírito e calma, que me ajuda na vida quotidiana', descreve Nídia Santos, 33 anos. 'Além de me permitir maior autoconhecimento e perceber que não há limites para o cérebro (só temos que saber usar as nossas capacidades na melhor direcção)'.
Para estas gentes do ponto mais alto da serra de Monchique – em Karuna – o dia começa no breu. Às 04h00 da manhã, nem o frio assentou, e já se ouvem as batidas metálicas num instrumento com som semelhante ao gongo: alvorada. Meia hora depois e todos se dirigem para o templo, enrolados em mantas de dormir. Duas horas de meditação até ao pequeno-almoço: fatias de pão caseiro com manteiga, doce, queijo; café ou leite; cereais. Dá ainda tempo para tomar banho nos duches, que ficam no meio da quinta, onde entra uma brisa agradável que percorre o corpo.
Quando não há meditação, algumas 35 pessoas vagueiam nos campos verdejantes. Não se pode fumar, mas há quem corte a regra afastando-se de Karuna. Escondidos, fumam. Vê-se também quem ‘comunique’ escrevendo na sua mão para alguém ler. E há também quem procure o lago, no baixio do monte e onde se ouvem coaxares, ou a relva onde intermitentemente bate o sol.
A mulher de Bal, Ana Ferraz, prepara as refeições vegetarianas – ajudada por várias pessoas, uma delas Rui, um engenheiro agrónomo. O almoço serve--se às 11h, antecedido por três horas de meditação. No segundo dia, serviram feijão frade, arroz de cenoura e brócolos, com salada de tomate e alface. Noutros havia seitan, sopa de legumes. Sempre havia fruta. No final, todos lavavam a louça e ajudavam a limpar o refeitório.
'Se o estômago estiver cheio a meditação é pesada', diz Bal Krishna. Até às 17h00, hora a que se janta apenas uma sopa, sentam-se e meditam. É difícil dominar o pensamento porque está sempre a funcionar. Mas a dada altura, passa-se da observação da respiração à concentração. Ouvem-se movimentos das pessoas – a tosse e a mudança de postura; há quem se levante também e saia do templo. Mas quem medita não tem necessidade sequer de reagir ao exterior. O corpo permanece rígido. Sente-se calor no pescoço dorido. Mas não dói. Os pés mal colocados sobre as coxas adormecem – mas não incomodam. 'O que estou a ver agora, dentro de mim, vai ser diferente mais tarde', diz Bal. As sensações, os sentidos, os estados emocionais:'tudo éimpermanente'.O desafio é permanecer com a mente consciente e atenta, mesmo depois de sair de um estado de meditação.
Às 21h30 todos se deitam; apagam-se as luzes dos painéis solares. 'Somos quase todos amigos e algures cúmplices das intenções que alimentaram este encontro', resume Bruno Teixeira, de 30 anos, instrutor de ioga e orientador do projecto ‘PazPazes’, Porto. 'Todos queremos estar bem e ser felizes.'
COMO SE PÔS FIM À MEDITAÇÃO
O retiro terminou a um domingo. Às 10h00 já se podia falar; o silêncio foi quebrado. O dia ia culminar na praia de Ferragudo, concelho de Lagoa, devolvendo ao mar berbigões e sapateiras. Em poucas palavras, Bal Krishna disse: 'que haja a intenção de eles viverem um pouco mais.' De mãos cheias, algumas 35 pessoas cumpriam o desígnio lançando ao mar o marisco. Quase todos mergulharam logo a seguir nas águas geladas (até quem não tinha fato de banho mergulhou mesmo em roupa interior ou nus). Comentava-se que havia 'uma certa euforia no ar'. E a verdade é que, entre eles, aproveitavam para se conhecer, para contar a experiência de tantas horas de meditação – e ouve alguém que disse que a experiência lhes serviu para, 'de uma vez por todas, assumirem aquilo que são'. Entre as pessoas descobriu-se que havia um actor, uma bailarina clássica, estudantes universitários, uma psicóloga... muitos praticantes de ioga. Nesse dia, o almoço foi bem mais ruidoso que o som dos talheres.
A MINHA EXPERIÊNCIA NO RETIRO DE MONCHIQUE
Voltei a lembrar-me de uma frase marcante: 'não se pode entrar duas vezes no mesmo rio' – do filósofo grego Heráclito. Quando se volta a mergulhar, as águas já não são as mesmas – nem nós somos! Senti-me ‘indie’ (como quem diz, estrangeiro) em Karuna. Foi o meu segundo contacto budista. Em 2001 conheci Dalai Lama em Lisboa. Agora a experiência foi inédita. No segundo dia ‘sentado’ em Monchique, às 19h, estanquei os pensamentos e mergulhei no meu interior. Concentrei-me na respiração e entrei em meditação, que só posso explicar como sendo um estado consciente de olhar para dentro de mim e reconhecer sensações. Naquele instante, apalpei o meu medo e a minha ansiedade; foi como pôr a mão num saco escuro, fechado, e começar a tentar identificar os objectos lá contidos, com curiosidade. Mas qual a razão deste medo e ansiedade? Curioso, na segunda vez que meditei já não encontrei as mesmas sensações. Tudo muda, até mesmo as sensações são 'impermanentes'. É talvez mais um passo para a felicidade.
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