A vida do ex-guarda-redes do Benfica, empurrado pela depressão para debaixo de um comboio, através do olhar de um amigo.
Em casa disse à mulher, Teresa, que ia treinar, apesar de ser dia de folga do plantel do Hannover. Explicou-lhe que tinha agendado duas sessões com o treinador de guarda-redes, uma de manhã, outra na parte da tarde. Por isso iria chegar tarde, nunca antes das seis e meia. Queria voltar a fazer parte dos convocados da selecção da Alemanha, a tempo de estar presente no Mundial 2010, no Verão seguinte. Pegou no carro e saiu.
Durante todo o dia manteve o telemóvel desligado, para grande preocupação de Teresa, que da parte da tarde tinha ido ao médico com Leila, a filha adoptiva do casal. Quando chegou a casa e não viu o marido, Teresa telefonou a Colt, o treinador de guarda-redes. Perguntou-lhe a que horas o treino tinha acabado. Fez-se silêncio. Após a pausa, Colt respondeu-lhe que não tinha havido treino. Pânico. Teresa ligou imediatamente a Jorg Neblung, agente do marido e grande amigo do casal. Neblung disse-lhe para ver se havia alguma carta em casa. Ela correu ao quarto e viu uma folha escrita.
"Querida Terri, lamento muito que...", assim começava a despedida de Robert Enke, que nesse dia, 10 de Novembro de 2009, marcara encontro com a morte, ao lançar-se para debaixo do comboio-expresso que todos os dias, às 18h15, passava por Eilvese, arredores de Hannover, sem parar. Naquele dia, parou. Fez ontem três anos.
"O livro que escrevi não é a biografia de um jogador de futebol. É a biografia de um ser humano", diz à Domingo Ronald Reng, autor de ‘Robert Enke – Uma Vida Curta Demais’ (ed. Lua de Papel). Um livro premiado internacionalmente, que toca e comove. A edição portuguesa, lançada nesta semana, nasceu da vontade de Teresa em dar a conhecer aos portugueses a face oculta de Robert e a forma como Portugal foi importante na vida do jogador.
Enke jogou no Benfica entre 1999 e 2002, antes de representar o Barcelona, Tenerife, Fenerbahçe e Hannover. Ficou apaixonado por Lisboa, era à capital portuguesa que quase sempre regressava de férias. E era em Lisboa que queria viver depois de abandonar o futebol.
PONTOS COMUNS
Este não era, naturalmente, o livro que o jornalista desportivo Ronald Reng tinha em mente quando Enke lhe sugeriu que escrevesse a sua biografia. Conhecerem-se em Lisboa, em 2001, quando Reng viajou da Alemanha para fazer uma entrevista ao então guarda-redes do Benfica. Um ano mais tarde, ambos voltaram a encontrar--se em Barcelona, para onde Enke tinha entretanto sido transferido. "Foi aí que nos tornámos amigos. Eu cheguei primeiro. Tinha decidido ir para ali viver, por oportunidade de trabalho. Éramos dois alemães fora do país, a viver na mesma cidade. Outro ponto em comum: também fui guarda-redes, mas apenas em equipas amadoras", conta Reng.
Em Barcelona, ficaram muito próximos. Contudo, sempre existiu uma linha bem definida na relação. "Ele era um futebolista, eu um jornalista. Havia coisas que ele não me contava", diz Ronald Reng. Como por exemplo, a doença que minava, como um cancro que rói o corpo, a mente de Enke: a depressão. Reng notava-lhe atitudes estranhas. Mas sem pontos de referência com a patologia, julgava apenas que o amigo lidava mal com a pressão e acusava o stresse. Por isso, o livro que o jornalista tinha na cabeça era uma biografia, a ser feita ao longo da carreira do guarda-redes, sobre os seus altos e baixos, os medos e as alegrias. "Ele estava mais empenhado do que eu na feitura do livro. Fez um diário, mas nunca mo mostrou. Só após a sua morte me foi disponibilizado por Teresa."
As anotações revelam – diz Reng – uma mente perturbada. "A ideia dele era usar a biografia escrita por mim para, depois de acabada a carreira de jogador, revelar que sofria de depressões associadas à profissão e ao posto de guarda-redes." Ronald Reng acrescenta que foi também por isso que decidiu escrever o livro, feito a partir da perspectiva de um ser humano que sofre de depressão, um mal comum nos dias de hoje. "Também para passar a mensagem de que a depressão é uma enfermidade, não uma debilidade. Tem tratamento, mas muitas vezes acaba da pior maneira. E isso é o que mais choca na vida de Enke: ele fez tudo o que lhe foi possível para se curar. Mas não foi suficiente".
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