Sevilha é a cidade sensual de Cármen, a cigarreira, e D. Juan, o conquistador. A cidade dramática do flamenco, da tourada e dos bons ‘vivants’. Na quarta-feira acolhe a final da Taça UEFA
Em Sevilha, a tradição anda muito perto do que sempre foi. Feita de alegria, religiosidade, flamenco, touros, cavalos e convívio. E, claro, do Guadalquivir, Bairro de Santa Cruz, Praça de Espanha, da Catedral e Giralda, da Praça da Maestranza e dos Alcáceres Reais. É uma cidade de movimentos lentos mas intensos, teatrais. Um palco onde os protagonistas, os habitantes, teimam em perpetuar uma alma muito própria — a andaluza. Povo autêntico, cioso dos seus hábitos e cultura é caloroso sem procurar agradar. Cede devagarinho ao ritmo uniformizador da globalização, pelo que a música é cantada em castelhano; nas montras, um belo traje de flamenco é mais cobiçado que qualquer ‘Prada’ ou ‘Dior’; e as tapas, saboreadas lentamente, mantêm-se como o sustento de eleição.
Em Sevilha, pressa é palavra desconhecida: todos vivem num compasso morno. Diria que de espera, para explodir em dias de ‘fiesta’. Não adianta procurar saber porquê. Descobrir uma cidade é conhecer o seu estilo de vida, respeitar o seu ritmo e, discretamente, deixarmo-nos enredar no seu quotidiano. Começar Sevilha por Triana, um bairro histórico, mas operário, onde nasceu o flamenco e o número de turistas ainda não desfigura o ambiente castiço, parece por esse motivo, uma boa opção.
Percorremos a colorida Calle Bétis, experimentando as esplanadas à beira-rio, enquanto ensaiamos a arte de “tapear” – vocábulo indispensável na Andaluzia que se refere à habilidade de ir parando de tasca em tasca a saborear pratinhos de petiscos, acompanhados por uma cerveja, tinto ou o típico ‘manzanilla’, vinho fino e seco. É nesta zona que se concentra grande parte da animação nocturna de Sevilha e alguns dos melhores bares de tapas. As movimentadas Pages Del Corro e San Jacinto são os melhores locais para comprar cerâmica artesanal e artigos de pele; e observar o riso fácil e ruidoso de quem acabou um dia de trabalho.
QUE NOS TOMEM POR LOUCOS
A caminho da Catedral, encontramos a Praça de Espanha, um dos símbolos da Sevilha actual. Majestosa, foi projectada para a Exposição Ibero-Americana de 1929 por Anibal Gonzáles. “Façamos uma obra tão grande que quando a vejam nos tomem por loucos!”. Foi esta a ordem eclesiástica que deu origem à Catedral de Sevilha, a terceira maior do mundo, apenas suplantada pela Basílica de S. Pedro, em Roma, e Saint Paul de Londres.
Às portas do bairro de Marcarena. Pode ser especulação mas Hemingway deve ter passado por este local, numa quinta-feira, o dia do mercado mais antigo e popular de Sevilha (Calle Féria). As personagens que por aqui deambulam e as ‘bodegas’ (tavernas) um pouco decrépitas lembram-nos os seus contos. Estamos no coração popular e palpitante de Sevilha, um misto de Graça e Alfama, onde as vozes ecoam alto entre conversas e cantorias.
Capital da tauromaquia, Sevilha encarna o espírito da ‘fiesta’ no bairro carismático que é o Arenal, cenário das conquistas de D. Juan e da trágica história de Cármen, a cigana, morta à facada por José, o seu amante ciumento (o fado afinal é subtil). É aí que se encontra uma das maiores arenas do mundo, a Plaza de Toros de La Real Maestranza (a mais antiga do país a seguir à de Ronda). E é também aí que a noite se alonga por entre tapas de peixe frito e vários copos do tinto mais solicitado, o ‘rioja’.
Mas como é ainda dia vamos até à Campaña, ou seja, à baixa. Através da Avenida Reys Católicos e San Eloy eis-nos na Plaza La Campaña. E somos surpreendidos por velhas ‘boutiques’, que vendem artigos associados à ‘Feria de Abril’: trajes e sapatos de Flamenco, chapéus magníficos, mantilhas, travessas, leques...
Por fim, o descanço sentada numa explanada da Leviés. Mas, atenção! Está voltada de costas uma mulher cigana. Sacode os cabelos negros, canta e esboça alguns movimentos de flamenco. O sinal está dado, a ‘fiesta’ vai começar!
Como ir
Apesar de Sevilha dispor de aeroporto é muito mais económico fazer a viagem de automóvel, apanhando a Auto-
-estrada do Algarve até Huelva e daí a N 49 para Sevilha. A partir de Lisboa, cumprindo os limites de velocidade, a viagem tem a duração de cerca de cinco horas.
Informações úteis
Indicativo: 0034 e depois só tem que marcar os dígitos normais.
Moeda: euro. Os bancos estão abertos normalmente entre as 9h00 e as 14h00 aos dias de semana e aos sábados entre as 9h00 e as 13h00. O comércio pratica outros horários: 9h30-14h00 e 17h00-20h00
Diferença horária: mais uma hora do que em Portugal
Segurança: As precauções de segurança normais: não deixe valores dentro dos automóveis (frequentemente assaltados) e não circular com muitos bens. À noite, em locais menos movimentados, apanhe um táxi (as tarifas são semelhantes às praticadas em Portugal, mas pergunte os preços médios de cada “corrida” antes de entrar). As mulheres ciganas, que se aproximem na tentativa de ler a sina, regateiam por somas bastante avultadas. Afaste-se, é melhor nem olhar.
Moradas e telefones úteis: Consulado de Portugal – Av. del Cid, 954231150, Centro de Informação de Sevilha – Naves del Barranco c/Arjona, 28, 902194897, Turismo de Sevilha - Avda de la Constituición, 954221404. Posto de Turismo – Paseo de las Delicias, 9, 954501001, Correios – Avda de la Constituición, 954219585, Teletáxis – 954622222, Polícia Local – 092, Urgências - 061
Transportes
Para aproveitar as vistas, circule a pé no centro da cidade. Para distâncias mais longas pode apanhar os transportes urbanos. Peça um mapa no posto de turismo com todos os circuitos, pois de outro modo a circulação parecer-lhe-á confusa. O bilhete individual para uma viagem custa 90 cêntimos, o passe de um dia três euros, e o de três dias sete euros. As estações principais estão situadas no Prado de San Sebastián e Plaza de Armas. Se preferir um passeio de coche (uma hora, 30 euros), deve dirigir-se junto à Catedral, Plaza de Espanha, Torre del Oro, Plaza del Triunfo e Plaza Virgen de los Reyes.
Onde e o que comer
A gastronomia sevilhana é tão diversificada quanto saborosa. Dos pratos mais populares constam o gaspacho (sopa fria à base de tomate e pimento), o peixe frito, ovos à flamenca, espinafres com grão, escabeche de peixe com azeite, ovas, os presuntos da região e outros enchidos, cozido andaluz (caçarola de carne com verduras) e o rabo de boi estufado. Na doçaria destacam-se as gemas de San Leandro, que podem ser compradas nos conventos da cidade (experimente na Plaza San Ildefonso) e as rabanadas. Os vinhos da zona são o Jerez, manzanilla e montilla.
As refeições em Sevilha são tomadas mais tarde que em Portugal: tem início com o ritual das tapas às 12h00, ao qual se segue o almoço pelas 14h00 e à noite tudo se repete às 20h00, pelo que os restaurantes estão vazios antes das 22h.
Pode ir petiscar tapas em qualquer das esplanadas da Santa Maria la Blanca e da Leviés, no Bairro de Santa Cruz, pelo ambiente. No Las Terezas (Ximénez de Enciso, 1) e Giralda (Mateo Gago), no mesmo bairro, pela tradição. Nos bares de Triana, ao longo do rio pelas vistas e qualidade do peixe frito. No Siglo XVIII (Plaza de San Ana, Triana) pelo espírito cigano. Na Flor de Toranzo (Gamazo, 7) para desfrutar do ambiente do Arenal.
Para almoçar ou jantar recomendam-se os tradicionais Puerta Grande (Atonia Diaz, Arenal) pela sopa de tomate e rabo de boi, o Modesto (Cano e Coto, 5, Santa Cruz) pelo marisco e a Casa Robles pelos vinhos e tudo o resto (Alvarez Quintero, 58, Centro). No Poncio (Victoria, 8, Triana), a dourada ao sal é sempre fresca e no Patio San Eloy (Castelar 1, Centro) os petiscos tentadores: salmão fumado, anchovas e presunto pata negra.
Onde ficar
A oferta é considerável, embora em épocas mais festivas seja preferível marcar o alojamento com bastante antecedência. O Hotel Los Seises (Segovias, 6 Santa Cruz, 954229495), a Casa Imperial (Imperial, 29, Santa Cruz, 954500330) e o AC de Sevilha (Av. Manuel Siurot, 25, 954230505) são os mais ‘trendy’; Las Casa de La Juderia (Plaza Santa Maria de La Blanca, 954415150) e o Hotel Doña Maria (Don Remondo, 19, Santa Cruz, 954224990) os mais charmosos. Se procura ambientes de luxo então o Hotel Alfonso XIII (San Fernando, 2, Centro, 95491 7000) é o mais indicado.
Espectáculos de Flamenco
As raízes desta música e dança estão perdidas entre a cultura hindu, árabe, judia, grega e castelhana. Mas, sem dúvida, que foram os ciganos que melhor a absorveram e preservaram. Para ver e ouvir na Casa de La Memoria (Ximénez de Enciso, 28), Los Gallos (Plaza de Santa Cruz, 11), Puerta de Tria (Castilla, 137) e Casa Anselma (Pages del Corro, 49).
Para mais informações
Turismo Espanhol, Av. Sidónio Pais, 28, 3º Dt., 1050-215 Lisboa, Tel.: 213 541 992; www.spain.info
Na Internet: www.elgiraldillo.es (toda a vida cultural da cidade e reservas para espectáculos), www.sevilla.org, www.andalunet.com e www.turismosevilla.org
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