Preparem-se para chorar – de pena – no meio das gargalhadas.
Sim, eu regresso muitas vezes a Camilo e aos seus livros mais geniais. Passei o verão a reler, a espaços – muito a espaços, como incentivo ao sono, o que é errado – as ‘Novelas do Minho’, de que há várias e boas edições no mercado. A primeira das novelas, "Gracejos que Matam", é de truz, uma ironia pegada sobre a burguesia local do Ave; "O Comendador" é uma história de vingança sobre o destino em redor da vida de Belchior Barnabé; em "O Cego de Landim", Camilo faz um pequeno tratado sobre a história natural da maldade humana; "Maria Moisés" é quase um romance, tal a extensão de drama; "A Viúva do Enforcado" é telenovela pura, cheia de altercações; mas "O Filho Natural" é difícil de ultrapassar na nossa literatura: o começo parece uma ópera trágica sobre o desaparecimento dos fidalgos minhotos entre solares arruinados e a chegada da modernidade que vem inquietar as senhoras das terras de Basto, onde há poetas, políticos, pais confiáveis e filhas abandonadas – que brilho, senhoras e senhores. Ouve-se o riso de Camilo em cada página, divertindo-se a descrever as senhoras de carnes gulosas e amplas de Celorico e Cabeceiras, desejosas de poesia e aventura numa província de malandros.
Já não vos falo de ‘A Brasileira de Prazins’, romance dos romances, nem de ‘O Retrato de Ricardina’, ‘Onde Está a Felicidade?’, da comédia de ‘Eusébio Macário’, e a lista continuaria – até ‘Coração, Cabeça e Estômago’ (que acaba de ser publicado pela Imprensa Nacional sob os cuidados de Cristina Sobral e Ariadne Nunes), a partir do texto da "segunda edição melhorada" pelo próprio autor, em 1864 (a primeira é de 1862). Camilo é um tratante de primeira ordem: diz que melhora esta edição porque "encontrei algumas páginas que merecem ser intercaladas" para melhor esclarecer os leitores acerca da personagem e narrador, Silvestre da Silva. Mas o essencial é isto: ‘Coração, Cabeça e Estômago’ serve para Camilo dar piparotes no país inteiro – na Lisboa que conhece, e lhe provoca erisipela; no Porto conciliador e que gosta de expor na sua mesa de cirurgião da sua burguesia ou das castas que ascendem na escadaria social; e na província, onde os odores da natureza traem frequentemente o olfato do escritor, que é severo e cheio de pilhérias (basta ler os começos de ‘Eusébio Macário’ e de ‘A Brasileira de Prazins’ para perceber que Camilo não tem salvação nas sacristias). Silvestre da Silva atravessa tudo isso e o quadrilátero nefasto e romântico que estabelece com Tomásia, Paula e Marcolina. Que história, leitores! Preparem-se para chorar – de pena – no meio das gargalhadas.
Restaurante
Passear em Évora
Caminhar pela cidade é viajar para vários passados; mas almoçar no Fialho é reconstituir uma alma – e, para sermos simples e diretos, o estômago. O cação de coentrada é o meu prato de eleição, seguido das ‘presas’ com migas de espargos, do ensopado ou da pescadinha à Bulhão Pato. Garrafeira muito boa. Serviço à antiga, claro.
Livro
Em busca da beleza
Um livro de poemas suplicando a companhia da pintura; o resultado é maravilhoso. Pela beleza do livro em si, e com versos altíssimos: "E todos tinham uma língua igual/ ciosamente amada por noites de luar,/ por dias claros/ [...] por ela se espelhavam na memória, pois a memória era também de todos."
Disco
O encanto de Purcell
A música de Henry Purcell (1659-1695) é um eco de grande pompa ou larga melancolia e obras como ‘Fairy Queen’ (baseada em Shakespeare) ou ‘Dido e Eneias’ (para não falar de ‘More Love or More Disdain’) merecem ser ouvidas uma vez na vida. Este disco de 13 canções é uma celebração dessa melancolia brava, vibrante e austera. FUGIR DE: ESPANHA
Só para vos explicar que amo profundamente Espanha e que tenho saudades especialmente da ‘minha Espanha’ – brava e corajosa, vaidosa, até arrogante, senhora de si, palradora, perfumada, valente, cheia de boa comida, de humor e de grande literatura, ou pintura, ou apenas conversas. Desgosta-me esta Espanha cheia de espanhóis que odeiam Espanha. Provavelmente sinto-me mais espanhol do que essa gente pateta que quer plastificar Espanha. Sim, gosto da ‘España vieja’, bandoleira e castiça. Varram esta gente moderninha para que vos possamos visitar de novo.
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