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MICRONOVELA

Refúgio Proibido Um refúgio. Dois corações. Mil segredos.

Todos os seus caminhos vão dar a Belém

O ex-campeão dos 110 metros barreiras já faz exercícios de aquecimento para a maratona presidencial. Na próxima Quinta-feira,Cavaco Silva, oficializa a sua candidatura. O que mudou no mais amado e odiado político da democracia?

16 de outubro de 2005 às 00:00

Quando trabalhava no Palácio de São Bento, almoçava apenas na companhia de um jornal. Fugia dos ‘cocktails’ e festas sociais a sete pés e as mãos tremiam-lhe numa simples aparição pública. A timidez era confundida com arrogância no Parlamento, onde era acusado de não olhar os adversários nos olhos. Nos púlpitos, estava longe de ser orador brilhante, tendo de recorrer a aulas de dicção com a actriz Glória de Matos. Aos jornalistas respondia torto ou frases em tons professorais como: “Nunca me engano e raramente tenho dúvidas.”

Enganava-se algumas vezes na indumentária adequada quando acedia ir a debates televisivos. No pequeno ecrã, os portugueses viam um homem crispado, tenso, arrogante até. O humor britânico estava confinado às quatro paredes. Só a família, amigos e assessores o viam rir-se às gargalhadas com a série ‘Sim, Senhor Primeiro Ministro’. Hoje, assiste com curiosidade aos ‘Homens do Presidente’. Providencial? Os tempos mudam, as vontades também.

“A passagem dos anos aprofundou-lhe o entendimento que tem do País, do regime e do mundo”, defende a jornalista Maria João Avillez. “As viagens que fez, os livros que escreveu, as conferências que proferiu cá dentro e lá fora, as pessoas que foi conhecendo e com quem se cruzou e aprendeu, abriram-lhe o espírito, afinaram o pensamento e apuraram o critério. Tal como sucede com os bons vinhos, adivinho que ele também tenha amadurecido bem dentro da garrafa de onde em breve terá de saltar.”

Durante os dez anos em que esteve arredado da arena política, Cavaco Silva geriu a sua imagem com um ‘timing’ quase perfeito. Apareceu pouco e só em ocasiões escolhidas a dedo. Escreveu ainda menos, mas os seus artigos nos jornais vinham afinados com uma pontaria de um ‘cowboy’ no Oeste. Com títulos como ‘O Monstro’ ou ‘A Factura’, o ex-primeiro-ministro servia de voz da consciência de um país desgovernado. “Cavaco Silva não vinha com conversa de ‘chacha’, como outros políticos. Era firme, mas contundente. Isso deu-lhe uma aura de messianismo, de sabedoria e segurança. Do homem com uma ideia para mudar Portugal”, afirma a publicitária Vera Nobre da Costa. Essa imagem de seriedade e austeridade já não causava arrepios na espinha. Pelo contrário. “Os portugueses também mudaram. Fartaram-se da leviandade e suspiram pelos tempos de prosperidade do final dos anos 80.”

ESTE CAVACO SILVA, VERSÃO 2005, é um ‘upgrade’ do hirto e desajeitado professor de finanças. Nas entrevistas, já arrisca umas piadas e fala dos netos com orgulho de avô babado. E vê-se a olho nu que levou um ‘banho de loja’. “Ele está a ter bastante cuidado com a sua imagem pessoal. Revela-se mais calmo, humanizado e veste-se melhor do que há quinze anos. Os fatos azuis--escuros e cinzentos, por cima de camisas brancas, são um trunfo seguro para quem quer passar uma imagem sóbria, de homem sério”, assegura Miguel Almeida Fernandes, presidente da Unimagem, agência de Comunicação que foi consultora de Pina Moura e Meneres Pimentel. Mas o especialista deixa um alerta: “O professor tem de ter cuidado para não se repetirem episódios como os da saliva acumulada nos cantos da boca, durante os debates televisivos.” É que uma imagem no pequeno ecrã ainda vale mil palavras.

O arquétipo de homem perfeito, que nunca falhava, causou-lhe muitos dissabores durante a carreira política. “As pequenas gafes foram ampliadas e ridicularizadas na comunicação social”, recorda o homem-forte da agência de publicidade ‘Young & Rubicam’, Albano Homem de Melo. Na época, muito se leu sobre as peúgas brancas do professor ou do pedaço de bolo que comeu de boca aberta diante das câmaras de televisão. Cavaco sempre teve problemas em passar a sua imagem nos ‘media’. Numa entrevista em 2002, à ‘Domingo Magazine’, ele confessava: “Os meus assessores diziam-me que o doutor Mário Soares passava muito tempo a cativar jornalistas. E eu não tenho paciência para isso.” E acrescenta: “Não posso dizer que fiz amigos jornalistas. Posso é dizer que muitos não tinham simpatia por mim.”

O líder social-democrata preferia ter a vida pessoal envolta num manto de secretismo, mesmo que isso o tornasse menos popular. “Quando deixou de ser um executivo, pôde finalmente abrir uma frincha, sem nunca escancarar as portas. Nunca o vimos, ou veremos, a mostrar fotografias da infância ou juventude.” Albano Homem de Melo não tem dúvidas de que o político de 66 anos se revelou um talento natural para gerir a sua imagem e usa um chavão publicitário para afinar a tese: “Cavaco é o produto perfeito para este mercado. Nem sempre foi assim, basta lembrar que já perdeu umas eleições presidenciais.” A opinião é partilhada pelo especialista em marketing político, António Marques Mendes: “Ele adoptou um estilo mais complacente, pedagógico, sendo vigoroso apenas quando a situação assim o exige.” Em suma, abandonou a armadura de ferro que lhe travava os movimentos em combate.

O CONSULADO TRAPALHÃO de Santana Lopes foi talvez o maior aliado do homem mais aguardado depois do rei D. Sebastião. Cavaco Silva pôde distanciar-se do Partido Social-Democrata, sem mácula, e proferir um discurso de Estado, que caiu no goto dos portugueses. “Capitaliza, pela positiva, o fruto da auréola de salvador de tempos idos”, advoga António Marques Mendes.

Em vez de nevoeiros metafóricos, Vera Nobre da Costa prefere discursos mais terra-a-terra: “Ideologicamente, hoje ele não é um social-democrata. É uma figura abrangente. E até tem tido posições quase à esquerda.” A Presidente da multinacional McCann Erikson recorda as posições dele durante a guerra do Iraque, distantes das de Durão Barroso, e as críticas contidas ao Governo de José Sócrates, que contrastam com a agressividade contra Santana: “Uma coisa é certa: o professor está menos colado ao PSD do que Mário Soares ao PS.”

Miguel Almeida Fernandes vai mais longe: acredita que o discurso de Cavaco Silva é o seu maior trunfo para as próximas eleições. “Em 1995, contra Jorge Sampaio, ele falava apenas como mero candidato social-democrata, e por isso perdeu. Agora, apela ao coração de todos os portugueses. E assim deverá ganhar.” Quanto aos outros trunfos do professor, a jornalista Maria João Avillez enumera-os de uma só penada: “A noção de serviço, rigor, cultura de responsabilidade, cultura do mérito, excelente conhecimento do País e, ‘last but not least’, o seu conhecido amor à pátria.” Defeitos? “Aquilo que os outros chamam de intransigência.”

Quem não se espanta com esta viragem ideológica é o politólogo André Freire. Ele recorda que Cavaco Silva sempre foi em termos de políticas sociais um primeiro-ministro de centro--direita – afastando-se do liberalismo à moda de Margaret Thatcher ou Ronald Reagan. “Ele não tem nem teve horror em assumir um papel positivo para o Estado na sociedade e economia. Já no capítulo dos costumes, da moral e culto da autoridade, situa-se mais à direita”, defende o professor de sociologia do ISCTE. E acrescenta: “Não há grandes indicações de mudanças neste domínio.”

SE FOSSEM CONSULTORES de imagem ou assessores de Cavaco Silva nas próximas presidenciais de Janeiro de 2006, Vera Nobre da Costa, Albano Homem de Melo e Miguel Almeida Fernandes não iriam ficar com muitos cabelos brancos. Almeida Fernandes centraria o discurso do ex-líder do PSD em duas ou três mensagens-chave, fáceis de assimilar por qualquer cidadão: “Demasiadas ideias geram ruído, veja-se o caso de Carrilho nas autárquicas.” Para o presidente da Unimagem, o grande ‘handicap’ de Aníbal Cavaco Silva continua a ser a imagem de ‘senhor, doutor, professor’, que causa anticorpos em alguns eleitores. Mas há mais espinhos a importuná-lo: “Os sorrisos que vemos na televisão não são de simpatia, mas de receio. Ele revela ainda os tiques de timidez que tenta ultrapassar a todo o custo mas não consegue.” Este consultor de imagem, ex-assessor de Mário Soares, em 1985, não imagina Cavaco Silva a abraçar uma feirante durante a campanha eleitoral, pelo menos com o à vontade de Paulo Portas ou Soares. E se fosse ele quem coordenasse a campanha presidencial, nem o forçaria se o candidato não se sentisse bem nesse papel: “É uma característica dele, não vale a pena escamoteá-la.”

O marketing político não pode mudar a imagem do político, “mas apenas dar--lhe uns retoques na maneira de vestir, falar e na postura nos tempos de antena”, corrobora Vera Nobre da Costa. E neste campo, Cavaco está bem, obrigado, diz a publicitária. “Desastroso seria se ele abordasse uma estratégia de imagem semelhante à de José Sócrates, a quem lhe assenta bem uma simples t--shirt debaixo de um ‘blazer’. Ele não é um político Armani, definitivamente.”

TODOS CONCORDAM COM O ‘TIMING’ de apresentação oficial da candidatura. “O dia 20 de Outubro é o momento certo para ele avançar”, defende Albano Homem de Melo. “Cavaco mostrou assim um posicionamento de homem de Estado ao deixar passar as eleições autárquicas.” O publicitário frisa que a caminhada presidencial tem a lógica de uma exigente prova de atletismo: “Quando se parte numa boa posição, como acontece com Cavaco, o principal desafio é gerir o excesso de expectativas.” Por outras palavras, o arranque será importante mas não se pode revelar o clímax. “Ele tem de demonstrar uma vontade férrea de ganhar, porque ainda muita água vai passar debaixo da ponte.” Sob o risco de chegar a Janeiro com uma mão cheia de nada.

A pressão não deve impressionar o futuro candidato. Pelo menos a acreditar nas suas palavras, proferidas após a rodagem do Citroën até ao congresso da Figueira do Foz, em 1985, que o sagraria líder laranja: “A política sem risco é uma chatice”. Tal como o falecido Mota Pinto, também Cavaco Silva tem sempre a chave do carro na algibeira. Porque se a política não der, vai fazer outra coisa.

NA VIVENDA GAIVOTA AZUL

Desde os tempos em que governava o País, Cavaco Silva vive em Lisboa num primeiro andar de um prédio de 45 anos, na Travessa do Possolo. A mulher, Maria Cavaco Silva, há muito que se queixa da dificuldade em estacionar nas ruas estreitas e pejada de carros do bairro de Campo de Ourique. A casa não tem garagem. Nas férias, o casal já não viaja até Montechoro, para descansar na mítica vivenda Mariani. Venderam-na há uns bons anos, tendo comprado a Vivenda Gaivota Azul, em Albufeira, perto da praia da Coelha e da Praia do Evaristo. É lá que o primeiro-ministro dos X, XI e XII Governos Constitucionais tem guardados os tacos de golfe para poder brilhar nos ‘greens’ de Vilamoura. O político anda a aprender a jogar golfe.

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