Amanhecer afeta a força anímica, as emoções e os impulsos. Os nórdicos que o digam.
A Comissão Europeia quer acabar com a mudança da hora duas vezes por ano e, por isso, até abril de 2019, cada estado-membro tem de escolher se quer aplicar permanentemente a hora de verão ou a de inverno. Isto significa que, a partir do segundo semestre do próximo ano, deixará de haver uma adaptação à hora solar, o que vai tornar o inverno mais escuro e difícil para os portugueses.
No inverno, o sol poderá nascer somente perto das 9h00 - os efeitos disso no corpo e no humor não tardarão. Para já, o corpo não estará tão predisposto a acordar pelas 7h00/7h30 da manhã e, por outro, a deslocação para os empregos e para as escolas será feita ainda com as estrelas a brilhar no céu. Ou seja, às 07h00/07h30, o organismo ainda não está naturalmente a querer acordar e muito menos preparado para conduzir ou aprender. Em contrapartida, no verão, o pôr do sol só acontecerá pelas 22h00, o que retardará naturalmente a ida para a cama.
Portugal até já conheceu essa realidade. Entre 1992 e 1996 foi adotada a hora central europeia, por decisão do então primeiro-ministro Cavaco Silva. Na época, os impactos negativos não se fizeram esperar: aumento de acidentes rodoviários, do consumo de ansiolíticos e mais dificuldades de aprendizagem nas escolas.
O presidente da Associação dos Médicos de Saúde Pública, Mário Jorge, desvaloriza a questão, considerando que ‘ganhar’ ou ‘perder’ apenas uma hora não causa, de uma maneira geral, grande transtorno. "Temos, porém, de notar que esta alteração coincide com a mudança de estação e, essa sim, afeta as pessoas com tendência para a depressão: sentem-se mais angustiadas quando chega o outono", afirmou. Precisamos, portanto, de arranjar ferramentas contra a escuridão. Ou talvez aprender com os nórdicos, habituados a um longo inverno, com dias em que a luminosidade do sol apenas se faz notar durante cinco a seis horas. Em certas regiões da Finlândia ou da Islândia, nem isso.
Sini Saarinen nasceu na Finlândia há 26 anos. No norte da sua terra natal, "há pelo menos 80 dias sem luz solar", mas ela teve a bênção de ser do sul do país, onde no inverno os dias recebem "umas quatro horas de luz". Uma luz acinzentada, note-se, sem vestígios do dourado do sol.
Por isso, não é de estranhar que tudo agora pareça muito diferente para Sini, que chegou há poucos dias a Portugal para fazer um estágio. Já fala um português com açúcar, aprendido nos anteriores seis meses, período em que viveu no Brasil.
"A luz do sol afeta completamente o nosso humor e o nosso corpo. Sinto-me com muito mais energia, é mais fácil acordar de manhã e, acima de tudo, sinto-me naturalmente mais feliz quando acordo", confessa Sini.
Quem sabe, até mais saudável: "No inverno, na Finlândia, temos de tomar suplementos de vitamina D, precisamente por causa da falta de sol. Essa vitamina é muito importante para o funcionamento do nosso corpo. Há pessoas que usam também lâmpadas que emitem uma luz mais próxima da luz natural", para colmatar a falta. Na interação social, Sini também nota diferenças acentuadas: "As pessoas aqui têm mais amigos. Não só a luz como também a temperatura influenciam as relações humanas e também as manifestações culturais", defende. Por isso, não lhe custa admitir: "Tudo isso teve um grande peso na minha decisão de instalar-me primeiro no Brasil e agora em Portugal."
Experiência parecida tem Katriina Pirnes, de 43 anos, que há 20 reside em Portugal. Veio para trabalhar no Pavilhão da Finlândia, durante a Expo 98, e por cá ficou.
Também ela nota diferenças - e muitas - entre os dois países. "Até porque a Finlândia não significa só escuridão. Também há uma parte do ano em que não anoitece completamente e, por isso, agora, quando lá volto, custa-me a adormecer nas noites claras. Só com cortinas muito grossas!", garante.
Mas, acima de tudo, são os dias de inverno que fazem a diferença. "Convivemos à mesma, claro, mas não às mesmas horas. Marcamos mais almoços do que jantares e, na época mais fria e com menos luz, todo o convívio é feito dentro de casa. As atividades desportivas, culturais e sociais têm de ser igualmente adaptadas às condições climatéricas e acontecem nos horários em que há luz."
Mas Katriina salienta também um facto curioso: "Apesar disso, fomos eleitos o país mais feliz do Mundo! Não creio que a falta de luz torne as pessoas mais infelizes ou deprimidas - até porque os povos do norte estão muito habituados a essas condições - mas creio que nós somos, isso sim, mais introvertidos."
Luz, suicídio e depressão
Vários estudos têm vindo a provar que tanto a depressão como o suicídio, sendo obviamente problemas multifatoriais, podem não estar relacionados da mesma forma com a falta de luminosidade natural.
"A depressão é uma doença clínica complexa e multifatorial. Quase sempre há uma vulnerabilidade genética para a desenvolver. Porém, uma série de fatores pode influenciar e desencadear um quadro depressivo em pessoas de qualquer idade e esses fatores são principalmente razões psicológicas e sociais. Os fatores ambientais, como a questão da exposição à luz solar, apesar de terem peso, são menos importantes na equação que leva ao desenvolvimento da doença. Não é à toa que alguns dos países do norte da Europa têm o maior índice de felicidade do Mundo, apesar de terem o menor índice de horas de luz natural", afirmou à ‘Domingo’ o psiquiatra austríaco Nestor Kapusta.
No entanto, avisa o especialista, "as taxas de depressão podem não estar diretamente relacionadas com o número de suicídios registado nestes países". Aqui, então, entra na equação a variável da exposição à luz solar, mas não exatamente da forma que imaginamos.
Kapusta tem um longo currículo dedicado ao tema. Um dos seus artigos mais citados foi publicado em setembro de 2002 na revista científica ‘Epidemiology’, da Sociedade Internacional de Epidemiologia Ambiental. Na época, com o apoio da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), o psiquiatra desenvolveu a sua pesquisa em 27 países, sendo 25 deles do hemisfério norte e dois do sul.
A conclusão a que chegou é, no mínimo, curiosa e inesperada: "Há maior incidência de suicídios nos meses de verão em ambos os hemisférios (em junho no norte e em dezembro no sul)", garante. E isto porque, "com o aumento da duração do dia, causado por maior exposição à luz do sol, as pessoas ficam excitadas, agressivas e impulsivas e isso, da mesma forma que faz aumentar o número dos crimes violentos e as agressões, também pode fazer disparar comportamentos suicidas", explica o investigador e professor da Universidade Médica de Viena.
Na Áustria, Kapusta chegou a uma conclusão similar: a duração da luz solar diária e os índices de suicídio estão positivamente relacionados, pelo menos nos casos que analisou entre 1970 e 2000.
O psiquiatra e investigador não atribuiu o aumento dos suicídios diretamente à baixa produção de melatonina, a hormona do sono e inércia, mas sim à serotonina, a hormona que comanda os nossos estados de vigília e cuja produção aumenta com a luz do sol.
"O aumento da incidência dos raios solares leva o corpo a estar mais ativo e reativo a todos os estímulos" - mas não necessariamente no bom sentido. "Tornamo-nos mais excitados, agressivos e impulsivos. E isso pode ser um gatilho para potenciais suicídios", acrescenta. E isto apesar das mudanças de estação serem um processo lento e gradual.
"Os efeitos a curto prazo da incidência da luz na neurobiologia humana ainda estão pouco estudados, mas pensa-se que possa ocorrer o seguinte: a mudança no horário do amanhecer, com consequente aumento da luminosidade, demora cerca de uma semana a ser assimilado e regulado pelos recetores de serotonina do cérebro. O efeito é semelhante ao dos medicamentos antidepressivos. Numa primeira fase têm efeito na motivação e só na segunda fase atuam realmente sobre o humor. Ora isto leva os indivíduos depressivos e debilitados emocionalmente a tornarem-se mais agitados e impulsivos durante o período de transição das estações e, como tal, com maior propensão para o suicídio", descreve.
Mas Kapusta faz também questão de referir que a luz solar não pode ser olhada de forma isolada neste problema delicado: "Os dias mais ou menos longos associam-se igualmente a mudanças significativas na temperatura, nos hábitos de interação social, na taxa de emprego, na coesão social, no calendário – feriados, férias – e até na disponibilidade de médicos para atender as situações mais urgentes, etc."
Um outro estudo, desenvolvido pela equipa do professor Andrew Oswald e que reuniu investigadores da Universidade de Warwick, em Inglaterra, e do Hamilton College de Nova Iorque e da Universidade de São Francisco (EUA), veio corroborar esta conclusão.
Ao estudo, os investigadores sociais chamaram "Contrastes obscuros: o paradoxo dos altos índices de suicídio em lugares felizes", pois verificaram, precisamente, que o número de suicidas é maior nos países com maior índice de bem-estar (ou seja, entendendo por ‘felicidade’ um conjunto de aspetos de natureza material, como dinheiro, habitação, comida, roupa, carro e lazer, além de uma vida saudável e com autonomia para cuidar de si próprio).
E avançaram com uma explicação igualmente curiosa: "A felicidade alheia e as comparações com os outros" seriam um fator de risco para as pessoas de baixa autoestima se sentirem ainda mais em baixo. "As pessoas descontentes podem sentir-se particularmente cansadas da vida em lugares felizes", afirma o estudo publicado em 2011. Ou seja, num aparente "mundo perfeito" é mais difícil lidar com os problemas e com a infelicidade.
Tais conclusões questionam precisamente outros estudos sobre o tema e que, até há pouco tempo, atribuíam o índice de suicídios nos países nórdicos às características particulares do próprio país, como as escassas horas de luz solar e as temperaturas baixas no inverno, sem o dissociar da depressão.
Por isso, o melhor é habituarmo- -nos à nova hora e também à ideia de que, com mais ou menos luz, o que é preciso é encontrar o caminho da felicidade.
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