São pessoas como nós que, em determinado momento, escaparam à segurança do quotidiano. Tudo pelo outro, sem olhar à própria vida. As histórias que se seguem falam de uma peixeira, um electricista, um agricultor, um maqueiro e de um trio de empregados de restauração que, quando a vida os convocou, responderam com determinação. Perante as chamas, um camião desgovernado, a ameaça das armas ou a fúria do mar.
Os grandes Homens são capazes de pequenos gestos. José carregou a urna do desconhecido que tentou salvar das chamas. Não conseguiu. Carregou a urna do camionista António como se fosse da sua família mas não sabia sequer qual era a sua cor favorita, o clube pelo qual torcia, a forma como ria quando se entusiasmava. Tinha-o conhecido, a 17 de Novembro, na cabina em chamas de um camião cisterna. Tinha tentado salvá-lo, em vão. Por isso, a homenagem fúnebre. Esse pequeno gesto que comoveu a família da vítima. Pela segunda vez na mesma semana.
Quando se aproxima, o traje não desvenda a grandeza de José Pereira. Os grandes Homens conseguem passar despercebidos entre a multidão porque vestem ganga clara e casaco castanho de malha. 'Que miserável país aquele que não tem heróis', escreveu o dramaturgo alemão Bertolt Brecht. Quanto a isso, podemos dormir descansados. José, Zé Fernando para os amigos, é um dos nossos.
Passaram dois longos meses desde então. A custo, voltou a ter noites sem sonhos com cheiro de fumo, sem gritos a suplicar ajuda, sem aquela vida a pedir para não morrer. Durante muitas madrugadas, tantas, as imagens do incêndio sucediam-se na cabeça do electricista da Póvoa de Santa Iria. 'Nunca vou esquecer a imagem do corpo queimado daquele homem a pedir para não o abandonar, para não o deixar morrer'. Zé, 36 anos, ia trabalhar, como em todos os dias. Pelo mesmo caminho, de todos os dias. Passava na localidade de Casal do Freixo quando soube que alguma coisa se passava, ao contrário de todos os dias. No meio da confusão que se gerou, lembra-se de alguém gritar que um homem ia morrer. O homem era camionista de uma cisterna que transportava combustível para helicópteros e que se despistou, antes de chocar contra um reboque. Era António. Só depois, bem depois, José ficou a saber o nome dele.
'Fui a correr ver o que se passava. Pus-lhe as mãos para o tirar dali, arrastei-o para fora das chamas, já estava muito queimado, os pés e as mãos encarquilhados. Tirei-lhe a roupa, cobri-o com o meu pulôver e disse que não o abandonava'. José cumpriu. A emoção carrega as recordações daquela manhã e dos dias que se seguiram.
'Fui ao funeral e pedi para segurar uma asa da urna porque era minha obrigação, fiz parte do final da vida daquele homem, só queria ter chegado mais cedo. Mesmo desta forma trágica, houve uma ligação entre as nossas vidas'. A família do camionista que não resistiu às queimaduras disse a José para não se penitenciar.
'Agradeceram-me por eu ter prolongado a vida dele por mais três dias, que assim deu tempo para ele se preparar e partir em paz'. José não encontrou logo a sua paz. Mas este sentido de missão que tantas vezes o leva para o meio da ‘guerra’ não é novidade na vida do electricista. Também da estrada, de outras estradas, resgatou outras vidas que pediam socorro, como António pediu, e que mais ninguém atendia. 'Tenho orgulho em mim, não desta atitude mas da minha maneira de ser. Se visse outra vez combustível a arder com uma pessoa lá dentro voltava a fazê-lo'. José só prefere rejeitar, embora agradeça, o ‘título’ que o País lhe atribuiu quando soube da coragem deste homem comum.
'Os heróis são os da banda desenhada, são heróis desde que nascem até que morrem. Nós passamos pela vida real, fazemos um ou outro acto heróico, mas também um ou outro acto de cobardia, somos serem humanos'. Seres humanos extraordinários, acrescentamos nós. Os filhos de José concordam connosco. Mostraram-no no abraço, tão crescido para os seus sete anos, e tão cheio de admiração e orgulho, com que o receberam em casa nesse dia. Para os gémeos Rodrigo e Alexandre o pai Zé já era o pai herói. Mas agora é o pai que salvou um senhor das chamas, o pai tão corajoso.
Há precisamente uma semana, uma família em Marrocos teve a mesma vontade dos gémeos de Zé Fernando. A de abraçar com força um filho destemido que, souberam através do telefone, tinha salvo um homem que uma onda gigante atirara ao mar. O filho tão querido que há muito não vêem. Jamil tem 32 anos, os últimos oito passados em Portugal, o país que 'tão bem' o acolheu e onde se sente 'feliz'. Arrumava as mesas do restaurante ‘A Máscara’, na Foz do Porto, depois de servidos os almoços daquele domingo chuvoso, com os colegas Marco e Alder, quando se apercebeu que algo de errado se passava 'lá em baixo'. Havia gritos e confusão nas rochas. 'Mas ninguém fazia nada. Senti que tinha que ser eu a ir salvar o senhor, ele gritava tanto'. Foi ele o primeiro a entrar na água. Marco e Alder seguiram atrás. Jamil não tinha perdido tempo a observar. 'Não pensei em nada, levei o telemóvel e a carteira comigo para dentro de água, a única coisa que pensei é que não podia atrasar-me'. Jamil sabia que a vida de José Costa estava a prazo.
Por isso, a vontade de ajudar do marroquino foi bem mais resistente que a agressividade da maré fria de Janeiro que se colava à roupa e o empurrava.
'O mar estava forte, a água congelada e o senhor só gritava ‘Ajude-me, eu tenho família’. Como a minha família está longe, em Marrocos, eu sei bem o que é pensar neles e não os poder ver, por isso agarrei-me a essa ideia, de que tinha que devolver o senhor à família dele'. A energia foi suficiente, embora tenha havido momentos de maior ondulação.
'Foi Alá que nos salvou a todos do mar, estou mesmo muito feliz por ter corrido tudo bem', diz, num português tímido que se esforça por ser correcto.
Alder não atribui a nenhuma divindade o êxito do salvamento. Tem 24 anos e não é crente. 'Só gosto de ajudar os outros'. É curta a explicação. Foi por isso que saltou para 'o meio das ondas' onde os camaradas tentavam agarrar José Costa, de 58 anos – projectado do paredão para longe da costa enquanto passeava o cão – encharcados de mar e sem sombra de medo nos gestos.
'Aproveitávamos de cada vez que a onda recolhia para o puxar mais para nós'. Marco agarrou-se aos cinco anos de 'mau tempo e mar alto' que a Marinha a que pertenceu lhe ensinou, para se manter à tona, mas o desafio foi árduo. 'Lembro-me de a certa altura pensar ‘está tudo perdido, não nos vamos conseguir safar’. Mas consegui segurar-me a uma rocha e vir para cima. É muito bom pensar que salvámos a vida daquele senhor, mas acho que não sou herói, simplesmente uma pessoa que ajudou outra'. Alder concorda com o amigo. A ligação entre os três colegas cresceu para lá das mesas do restaurante onde se conheceram e hoje chamam-lhe amizade. Uma união que a façanha no mar fortaleceu e que tem mais uma história para contar. Das boas.
'Sou uma pessoa normal'. Quem assim se caracteriza é Hélder Santos e não podemos surpreender-nos mais com a simplicidade com que o diz. 'Fiz aquilo que todos deviam fazer, nada mais'. É absolutamente desarmante a calma deste homem, de 54 anos, que há pouco mais de quinze dias saltou para cima de um camião furtado, torceu a direcção para que o pesado não investisse contra uma esplanada e um café, no Mercado de Santo Amaro, em Lagos, e assim evitou a morte quase certa de dezenas de pessoas. Evitou uma tragédia. 'Sou uma pessoa normal', repete, e voltamos a surpreender-nos como da primeira vez.
'Reparei que aquele camião já tinha passado por ali a atravessar a rotunda, havia algo de estranho no movimento, mas pensei que ficasse por ali. Por isso, quando vi que voltava a aparecer pensei logo ‘alguém tem que parar o camião’, então fui eu'. Da heróica missão recorda agora pouco.
'Lembro-me de acordar com o pé debaixo da roda, de ver muita gente à minha volta, de chegar ao Hospital de Lagos, o meu hospital'. Hélder é lá maqueiro há três anos. Mas não se lembra de sentir medo. A perna continua inchada, o gesso a travar-lhe os movimentos. As dores que sente não lhe permitem esquecer aquela tarde que o País tão cedo também não esquecerá. 'Mas procuro até não me lembrar, sabe? Foram momentos muito tristes'. É desta forma que nos volta a desarmar. Porque o maqueiro de Lagos pode não ter capa de super-herói mas provou ter a coragem, ao encetar um voo em direcção à janela daquele camião desgovernado. 'Foram momentos tristes porque uma senhora morreu ao meu lado e não pude evitar. O facto de ter salvo muita gente deixou-me feliz, mas tão triste ao mesmo tempo por não ter conseguido salvar todos'.
A voz só se entusiasma quando recorda a meninice em Angola, que deixou em 1976 por causa da guerra. Foi lá, 'aos 7, 8 anos' que pela primeira vez lhe elogiaram a coragem e que aprendeu a não temer os camiões. 'Tinha uma brincadeira em que me pendurava na parte de trás dos pesados e quando ganhavam velocidade mandava-me cá para baixo'.
Sandra Rodrigues também reviveu memórias de infância, as dela bem amargas, quando a meio de um peditório de porta em porta para os Bombeiros de Estarreja, onde é voluntária há sete anos, ouviu gritos e choro alto.
'Uma senhora estava a pedir socorro e isso preocupou-me, fui ver o que se passava atrás do prédio e deparei-me com um homem a tentar torcer-lhe o pescoço enquanto lhe apontava uma arma ao peito. 'Quando era pequena assisti aos maus tratos do meu pai e naquele instante revivi tudo, talvez por isso me tenha enchido de coragem e agi'. Agir foi gritar pela polícia, agarrar pelas costas o homem que agredia Evangelina Piedade e mandá-lo ao chão. 'Só quando deixei de ver a faca apontada a mim é que o agarrei por trás, porque com um murro aguentava-me eu bem'. Sandra, peixeira numa rede de supermercados, tem figura franzina. Mas isso não a demoveu. 'Quando a polícia chegou, estava exausta. Os guardas agarraram o homem, que era o ex-marido da senhora, e eu agarrei-me a ela'. Foi em Dezembro último – o medo maior já passou. 'Ele disse que sabia quem eu era e que não ia ficar assim'. Mas fazia tudo outra vez, disso tem a certeza. 'Fui um anjo-da-guarda que apareceu e que a libertou daquele mal, mas sou humana, até sou muito reservada e pacífica, só que quando é preciso estou lá'.
Jorge Godinho também estava ‘lá’, quando arriscou a vida em Janeiro de 2005, ajudando a capturar o triplo homicida Américo Piçarreira, na altura o homem mais procurado no País. Foi há três anos mas o orgulho mantém-se. 'Pois que ninguém o apanhava e fui eu que o apanhei, assim não fez mal a mais ninguém'. Piçarreira, antes de ser capturado, tratou de espalhar o pânico na localidade de Vila de Rei, em Abrantes.
'O malandro queria-me assaltar mas pensei que fosse um ladrãozeco porque cheirava muito mal e dizia que queria comer. Foi assim que me conseguiu fugir a primeira vez mas eu fui atrás dele, agarrei-o e levei-o até à ponte, perto da minha casa, onde o sacana me espetou uma navalha no peito'. Só aí é que ponderou estar na presença de Piçarreira, o temido homicida.
'Mas isso não me parou, voltei a correr atrás dele até o apanhar'. No próximo dia 19, Jorge vai voltar a reviver tudo em tribunal. Será a última vez que vai estar frente a frente com o homem que não desistiu de apanhar. Se tudo correr como ambiciona, terá direito a uma indemnização pela ferida de navalha que não mais sarou. Os heróis também ficam com as marcas.
'UMA CAPACIDADE ABNEGADA E TOTAL': Catarina Mexia, psicóloga
Como se explicam os actos de heroísmo?
O ser humano tem naturalmente uma tendência para contrariar o sofrimento, não somos feitos para infligir o sofrimento nos outros. Antes pelo contrário – pretendemos que não sofram.
Mas também temos medo...
Sim, mas quando se está perante uma situação destas, a adrenalina que se gera é tão intensa que supera o medo. E as pessoas que têm coragem para estes actos de heroísmo têm uma capacidade acrescida de se porem no lugar do outro, são heróis por isso mesmo.
Por isso nem todas as pessoas são capazes de actos tão corajosos?
Porque é uma capacidade tão abnegada e total que não há muita gente capaz de fazer isto. Todos nós podemos salvar alguém, mas só alguns conseguem fazê-lo quando é a sua vida que está em risco.
Estas pessoas dizem que não pensaram, que agiram por impulso...
Acham isso mas numa fracção de segundo avaliaram o risco e é essa característica que faz a diferença entre os heróis e as pessoas comuns. Porque para os heróis a vida do outro é mais importante naquele momento do que a sua.
CAMIÃO EM CHAMAS
José Pereira, 36 anos, socorreu António Baptista de um incêndio na A1 provocado pelo choque da cisterna, que António conduzia, com um reboque. Sem o conhecer, correu para ele e arrastou-o para fora das chamas do camião. António viria a falecer 3 dias depois.
JUSTICEIROS DO POVO
Em Aradas, Aveiro, em Junho de 2007, 4 mulheres evitaram a fuga do autor de um roubo por esticão numa caixa multibanco. Em Porto de Mós, 15 correram atrás de outro.
MULHER CORAGEM
Em Dezembro de 2008, ‘Marta’ arrancou o capuz do cabecilha do Gang do Multibanco quando foi vítima de carjacking, no Seixal. Deu ao Ministério Público a prova que faltava.
ASSALTANTES APANHADOS
Pedro Coelho correu atrás de um ladrão de casas em Rio Meão, Santa Maria da Feira, e foi auxiliado por outros populares na caça ao homem. O assaltante levou uma “paulada”.
AGARROU O LADRÃO
Em Fevereiro de 2008, Isabel Martins, funcionária de uma perfumaria em Quarteira, agarrou um ladrão que tentava sair da loja com perfumes escondidos num saco térmico.
MAUS TRATOS ATRÁS DO PRÉDIO
Sandra Rodrigues, 30 anos, salvou Evangelina Piedade de ser morta pelo ex-marido. Quando ouviu os gritos da mulher, a bombeira de Estarreja não hesitou e agarrou o agressor pelas costas até a polícia chegar.
TRAGÉDIA EVITADA EM LAGOS
Hélder Santos, 54 anos, evitou uma tragédia em Lagos. Saltou para o volante de um camião conduzido por um jovem desequilibrado e impediu que fosse contra uma esplanada onde estavam dezenas de pessoas.
AGRICULTOR APANHA TRIPLO HOMICIDA
Jorge Godinho, 56 anos, fez o impensável. Em 2005 o agricultor correu atrás do triplo homicida Américo Piçarreira, procurado pela polícia há mais de um mês e ajudou a capturá-lo depois de o homem ter invadido a sua propriedade. Levou uma navalhada.
ONDA GIGANTE NA FOZ
Alder, 24, Marco, 31, e Jamil, 32, atiraram-se para o mar, na Foz do Porto, para de lá tirar José Costa, empurrado por uma onda enquanto passeava o cão Dik. No início pensava-se que o cão tinha morrido mas chegou a casa antes que o dono.
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