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Edite Estrela: “Eles são insuportáveis”

Uma semana depois das eleições europeias, Edite Estrela queixava-se ao amigo Armando Vara dos eurodeputados socialistas eleitos.

13 de novembro de 2010 às 00:30

"Eles são insuportáveis. São todos insuportáveis." O desabafo de Edite Estrela, deputada europeia eleita pelo PS, foi feito ao telefone, numa conversa com Armando Vara. Está anexa ao processo ‘Face Oculta’ e mostra a desunião da delegação socialista, dias depois das eleições para o Parlamento Europeu. Edite Estrela diz mesmo que só o "Capoulas e o Açoriano [Luís Paulo Alves]" se safam. Os restantes são adjectivados de forma depreciativa – "completamente tresloucados" – e Edite Estrela acredita mesmo que irão criar problemas sérios ao partido.

"Ele [Vital Moreira] é muito amigo da Ana Gomes e ela é completamente descabelada", diz Edite Estrela, continuando a explicar que a escolha de Correia de Campos, ex-ministro da Saúde, para os lugares cimeiros da lista também não lhe agradou. "É um vaidosão", refere.

Elisa Ferreira também não escapa às críticas de Edite Estrela. "A Elisa é uma fingida", diz, e Armando Vara concorda: "Essa é a pior."

A conversa, de 13 minutos, foi gravada no dia 15 de Junho do ano passado (uma semana depois das eleições europeias) e mostra ainda que Edite Estrela gosta de ouvir as "opiniões ajuizadas" de Armando Vara.

Edite e Armando Vara falam ainda das eleições que se realizavam na semana seguinte e que tinham como objectivo eleger o presidente do grupo socialista. Edite contou ao então administrador do banco que deveria ser eleita – como efectivamente foi –, mas apenas porque Capoulas dos Santos se tinha imposto. "Eles têm maioria. Andam os quatro a congeminar", revelou a Vara, dando-lhe conta de que os "outros" pretendiam a escolha de Vital Moreira. "Não pode ser, não é do partido", acrescenta Edite.

A sua eleição não seria, portanto, pacífica. "Elegem-me, mas fazem-me depois a vida negra", vaticina, e Vara aconselha-a a ter calma. "Se isso for sem chatices não era mau", conclui.

"COLÓQUIOS E UMA CAUSA"

Vara dá conselhos a Edite. Diz para aquela não se incomodar demasiado com o trabalho partidário. "Se quer uma sugestão, concentre--se num tema ou outro. (....) a fazer uns colóquios (...), deixe os outros fazer as despesas", diz Vara, realçando que Edite Estrela tem "estatuto e idade" para reclamar uma vida mais recatada. "Também sinto que há coisas que já não sou capaz de fazer", acrescenta Vara, garantindo que Edite poderá fazer "mandato fantástico".

"NÃO SE IMPORTA DE PERDER"

São várias as escutas que mostram como os notáveis do PS (entre eles Vara, Lopes Barreira e Edite Estrela) estavam descontentes com a situação do partido na altura das eleições europeias, em 2009. Edite Estrela é peremptória em considerar que Vital Moreira foi "um mau candidato" – "enganámo-nos na escolha do fulano" – e que Sócrates devia ter feito uma remodelação governamental.

A deputada europeia parece desanimada com o futuro do partido. Diz mesmo a Vara que acredita que o primeiro-ministro nem se importava de perder as eleições. "Ele anda horrível (...), não se pode dizer nada", refere.

Armando Vara também não poupa críticas ao Governo. Depois de, noutras conversas também interceptadas no processo, se referir depreciativamente em relação a Ana Paula Vitorino, diz a Edite que a Justiça "está como está" por causa do ministro Alberto Costa. Também Edite Estrela considera que, às vezes, é preciso mudar o ministro para a política funcionar. E é dado como exemplo de um caso positivo a "mudança" na Saúde, com a saída de Correia de Campos, embora Edite realce imediatamente que não fez sentido a sua inclusão na lista europeia.

Noutras conversas também anexas ao processo ‘Face Oculta’, alguns governantes são alvo de fortes críticas. E um denominador comum resulta da maioria das conversas que envolvem notáveis do PS. Armando Vara é efectivamente visto como alguém muito próximo de José Sócrates, cuja opinião deverá ser tida em conta.

DEPUTADA FINGIDA FOI ESCOLHA DE SÓCRATES

Elisa Ferreira, actual deputada europeia, foi ministra do Ambiente quando Sócrates era secretário de Estado. A sua inclusão nas listas europeias em lugar elegível causou polémica, tanto mais que, na mesma altura, Elisa Ferreira já era pré-candidata à Câmara Municipal do Porto. Nas conversas gravadas pela Polícia Judiciária, Edite Estrela diz que a deputada é "fingida" e Vara concorda. Elisa também é tida como próxima de Vital e Ana Gomes, o que para Edite Estrela era sinal de menoridade.

DESCABELADA E CAPAZ DE PROVOCAR PESADELOS

Ana Gomes já vai no segundo mandato no Parlamento Europeu. Destacou-se na defesa do dossiê ‘Voos da CIA’ e, no PS, o seu estilo frontal granjeou-lhe muitos inimigos. Edite chama-lhe "descabelada" e Vara diz que "ela está sempre a falar mal de Portugal". Concordam que a sua inclusão nas listas é um problema para o PS e Edite diz mesmo que chegou a ter "pesadelos em inglês", devido às frequentes intervenções daquela a propósito da CIA. Edite mostra-se desgastada.

MAU CANDIDATO QUE LEVOU PS À DERROTA

Vital Moreira, independente, liderou a lista socialista para a Europa, que foi fortemente castigada no acto eleitoral. Edite Estrela considera inclusive que aquele foi um mau candidato e a proximidade de Ana Gomes é vista como um problema para o partido. Nas conversas interceptadas no ‘Face Oculta’, a derrota de Vital é vista como sendo uma derrota pessoal. As escolhas de José Sócrates são criticadas, sendo o primeiro-ministro visto como alguém que já aceitou a derrota e não queria ir a jogo.

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