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"Vou mandar este vídeo à minha namorada": imagens de tortura partilhadas por agentes das esquadras do Rato e Bairro Alto

Imagens dos crimes eram partilhadas pelo efetivo. Colegas pediam aos suspeitos para enviarem os ficheiros.

10 de março de 2026 às 01:30

"Um açoriano a falar com um argelino, eles entendem-se bem", "fez um 'aiduken' [referencia a golpe de energia nos jogos Street Fighter] ao argelino ou foi impressão minha?",  "dá-lhe bué, faz um vídeo a meter-lhe o esfregão com merd* na boca", "ele desmaiou, estávamos os quatro a lhe enquadrar com o estica [bastão extensível] ou "Ahahahaha foi pena não ter morrido esse panel****!"

Estas são apenas algumas da mensagens trocadas entre agentes da PSP colocados nas esquadras do Rato e do Bairro Alto depois de vídeos e fotos de espancamentos e violações terem sido partilhados em grupos de conversa como o Whatsapp. A investigação, que já levou à detenção e prisão preventiva de nove agentes, demonstra uma cultura de violência e prepotência partilhada por demasiados polícias. Nem todos participaram ativamente nos crimes, mas demasiados viram e calaram, muitos riram, alguns pediram mais vídeos dos espancamentos. Podem ainda vir a ser constituídos arguidos e alvo de processos disciplinares internos.

De acordo com o Ministério Público, há pelo menos dois grupos de polícias já identificados - um com sete elementos, outro com 69 - onde os agentes partilhavam vídeos e fotos dos colegas a espancar detidos algemados. Num dos casos, depois de se filmarem enquanto cortavam as rastas a um cabo-verdiano no interior da esquadra do Bairro Alto um deles prometeu: "Vou mandar este vídeo à minha namorada". Dezenas destes vídeos foram encontrados nos telemóveis dos suspeitos.

Um dos detidos já tinha sido investigado

O agente Tiago Silva já tinha sido investigado e constituído arguido no primeiro processo, que levou à detenção, em julho de 2025, de Guilherme Leme e Óscar Borges, mas ficou em liberdade. Foi detido agora e também colocado em prisão preventiva na cadeia de Évora. Tal como os colegas presos, é apontado como coautor de crimes que vão desde tortura até violação, passando por abusos de poder, roubo, falsificação de documentos e posse de armas proibidas.

Inocente crucificada na esquadra por discussão em esplanada    

Um dos casos que ilustra a violência gratuita deste grupo de polícias ocorreu a 9 de maio de 2024, na esplanada de um cervejaria rua de Santa Marta. Uma mulher envolveu-se numa discussão por causa da conta e a PSP foi chamada. Quando Óscar Borges chegou, apesar de a conta estar paga, a mulher foi metida no carro patrulha sem saber porque motivo e levada para a esquadra do Rato, onde estava Guilherme Leme. "Foi algemada a um banco, de braços abertos, como se estivesse pendurada num crucifixo." Acabou no hospital, mas sempre vigiada pelos polícias, novamente agredida e ameaçada para ficar calada. Nunca foi indiciada por qualquer crime. 

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