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Príncipe André

Caso Epstein: Ex-príncipe André é o primeiro membro da realeza preso em mais de 400 anos

André Mountbatten-Windsor foi detido no dia em que fazia 66 anos. Arrisca prisão perpétua.

André Mountbatten-Windsor foi detido no dia em que fazia 66 anos. Arrisca prisão perpétua.

20 de fevereiro de 2026 às 09:14

André Mountbatten-Windsor, irmão do rei Carlos III de Inglaterra, foi detido, esta quinta-feira, pela polícia por suspeita de má conduta em cargo público, por partilhar informação confidencial do Governo com o amigo Jeffrey Epstein, o falecido bilionário norte-americano acusado de pedofilia e tráfico sexual de menores. O antigo príncipe André, que foi obrigado a abdicar do título e das regalias reais devido à sua ligação a Epstein, foi preso na sua residência na propriedade real de Sandringham, na região de Norfolk, às primeiras horas da manhã, no dia em que celebrava o seu 66.º aniversário. Saiu em liberdade ao final da tarde, após ser ouvidos pelas autoridades. A operação foi conduzida pela Polícia do Vale do Tamisa, que diz que a alegada partilha de informação confidencial terá ocorrido em 2010, quando André desempenhava o cargo de enviado especial do Governo britânico para o comércio externo. Segundo vários emails revelados pelos ficheiros do caso Epstein, André terá enviado ao bilionário os relatórios oficiais das suas visitas à China, Singapura e Vietname, bem como informações sobre oportunidades de investimento em minas de ouro e urânio no Afeganistão.

O primeiro-ministro Keir Starmer, que tem sido muito criticado por ter nomeado outro amigo de Epstein, Peter Mandelson, como embaixador nos EUA - críticas que levaram também à demissão do seu chefe de gabinete -, afirmou após a detenção que “ninguém está acima da Lei”. Mandelson também foi acusado de partilhar informações diplomáticas confidenciais com o bilionário.

O príncipe Andrew surge em público
Há 1800 referências a André nos ficheiros revelados pela justiça dos EUA FOTO: Kirsty Wigglesworth/AP

“Os nossos corações foram consolados. Ele nunca foi um príncipe”

O antigo príncipe André é uma das figuras mais comprometidas com Jeffrey Epstein nos milhões de ficheiros sobre o caso do milionário predador sexual libertados pelo Departamento de Justiça norte-americano (foram identificadas 1800 referências). Não só pelas ligações políticas e económicas, mas também por, ao que tudo indica, ter sido um dos principais beneficiários da rede de exploração e abuso sexual, que incluía menores de idade, montada por Epstein. Um simples email enviado em 2010 - “Tenho uma amiga com quem acho que você gostaria de jantar” - é hoje uma das peças que ajudam a reconstruir a ligação entre os dois. Os documentos reforçam a imagem de uma relação próxima e prolongada e dão ainda mais credibilidade ao testemunho de Virginia Giuffre, que afirmou ter sido traficada e forçada a manter relações sexuais com André quando tinha 17 anos. O ex-príncipe sempre negou as acusações e chegou a afirmar que uma fotografia sua com Giuffre era falsa - versão posteriormente posta em causa por novos documentos. Os arquivos divulgados incluem também imagens e mensagens que sugerem contactos continuados entre André e Epstein mesmo após a condenação do milionário em 2008, por aliciar uma criança para prostituição e por solicitar uma prostituta. Um email datado de 2011 contradiz a declaração do ex-duque de que teriam cortado relações em 2010.

A família de Virginia Giuffre, que se suicidou em abril de 2025, aos 41 anos, destacou ontem a importância simbólica da detenção. “Finalmente, os nossos corações partidos foram consolados com a notícia de que ninguém está acima da lei - nem mesmo a realeza. Em nome da nossa irmã, agradecemos à Polícia do Vale do Tamisa pela investigação e detenção de Andrew Mountbatten-Windsor. Ele nunca foi um príncipe. Para todas as sobreviventes, a Virginia fez isto por vocês.”

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"A história está apenas no início”

André é o 1.º membro da realeza a ser detido desde o rei Carlos I, julgado e decapitado em 1649 na sequência da guerra civil inglesa, que opôs as forças monárquicas às parlamentares de Cromwell. Mas as polémicas a envolver o 3.º filho de Isabel II (1926-2022) - que sempre foi apontado como o seu favorito - não são de agora. A queda pública de André começou em 2019, quando foi afastado das suas funções oficiais após uma entrevista controversa à BBC sobre as acusações sexuais de que era alvo. Em 2022, a mãe retirou-lhe os títulos militares honorários e o tratamento de ‘Sua Alteza Real’ (em 2025 foram retirados os restantes títulos e distinções), após ter sido acusado em tribunal nos EUA de abuso sexual quando a alegada vítima era menor. O caso terminou com um acordo extrajudicial multimilionário - que Isabel II terá ajudado a pagar -, sem admissão de culpa por parte do ex-príncipe.

Andrew Lownie, que escreveu uma das mais polémicas biografias de André, garante que a relação com Epstein começou antes do que se pensava. “Segundo André, começou no final dos anos 1990, mas na verdade começou no início.” O biógrafo acredita que “muitas acusações” podem ser feitas contra o ex-príncipe. “Ele selecionou raparigas a partir de catálogos. Várias mulheres que foram levadas até ele, suspeito que não voluntariamente. E também há motivos para acusá-lo de tentar influenciar um funcionário público e fazê-lo infringir a lei, quando fala com o agente de proteção para saber coisas comprometedores sobre Virginia Giuffre. Creio que teremos mais revelações. Ainda há 3 milhões de páginas por revelar. A história está apenas no início”, diz Lownie.

Rei Carlos garante cooperação total

Na sequência da detenção do irmão, Carlos III tornou público um comunicado, no qual diz ter recebido “com profunda preocupação as notícias sobre André Mountbatten-Windsor e a suspeita de má conduta em cargo público”. “O que se segue é o processo justo e adequado pelo qual esta questão será investigada de forma apropriada pelas autoridades competentes. Como já disse antes, têm o nosso apoio e cooperação total e incondicional”, reforçou. O monarca quis deixar claro que “a lei deve seguir o seu curso” e referiu que, por o processo estar “em andamento”, não é apropriado fazer mais comentários. “A minha família e eu continuaremos a cumprir o nosso dever e servir todos vocês”, concluiu. 

Pormenores

8.º na sucessão ao trono

Apesar de ter sido afastado da realeza, e não ter agora qualquer função ou título (abdicou do título de duque de York - a mais alta patente da nobreza britânica - em outubro passado), André ocupa o oitavo lugar na linha de sucessão ao trono, depois do príncipe William e dos filhos deste, George, Charlotte e Louis, e do príncipe Harry e filhos, Archie e Lilibet.

Prisão perpétua

O crime de má conduta em cargo público é descrito na Lei britânica como “grave abuso ou negligência de poder ou responsabilidade no desempenho de funções oficiais”. Pode ser punível com pena de prisão perpétua e só pode ser julgado por acusação formal.

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