Fundadora de uma das maiores agências de modelos manteve uma relação próxima com o pedófilo, que lhe terá rendido pelo menos cinco milhões de euros.
Durante anos, Faith Kates foi uma figura influente no universo da moda internacional. Fundadora da Next Management, uma das mais reconhecidas agências de modelos e talentos, esteve ligada à carreira de nomes sonantes e ocupou uma posição de poder num setor onde juventude, ambição e vulnerabilidade frequentemente se cruzam. Uma investigação recente veio expor um lado menos conhecido da sua trajetória: uma relação prolongada e íntima com Jeffrey Epstein, o predador sexual cuja rede de contactos continua a levantar novas questões.
De acordo com os documentos analisados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, a ligação entre Faith Kates e Epstein foi muito mais profunda do que anteriormente se sabia. Não se tratava apenas de um conhecimento social distante, uma vez que existem e-mails que revelam amizade, apoio pessoal, aconselhamento empresarial e até discussões sobre empréstimos multimilionários, de acordo com o jornal The Guardian.
Um dos aspetos dos documentos divulgados é o tom afetuoso e leal das mensagens trocadas entre ambos, mesmo depois da primeira condenação de Epstein por solicitação de prostituição de uma menor, em 2009. Num e-mail enviado quando Epstein estava preso, Kates escreveu:
18 de Julho de 2009, 10h18
Faith Kates: "Sou e serei sempre tua amiga… Incondicionalmente… Estarei sempre ao teu lado. Beijos e abraços"
Pouco depois da sua libertação, Kates reiterou esse apoio:
5 de Setembro de 2009, 19h47
Faith Kates: "Estou a pensar muito em ti e espero que estejas finalmente a desfrutar de algum descanso e tranquilidade... Sabes que estás sempre nos meus pensamentos e nas minhas orações. És uma bom amigo, meu querido... Adoro-te. Beijos e abraços"
Jeffrey Epstein: "Obrigado... vamos voltar ao trabalho."
Estas mensagens mostram que, longe de se afastar após a condenação, Faith Kates manteve-se presente e disponível, num registo de intimidade com Epstein. Ao longo de quase quatro décadas de relação, Kates terá apresentado várias modelos da sua agência a Epstein. Não há, segundo o material analisado, provas de que Kates conhecesse os abusos antes da condenação de 2009.
Na década de 1990, a prática de aproximar modelos de empresários ricos era já conhecida em certos círculos da indústria. Faith Kates, segundo testemunhos recolhidos, organizava jantares em que homens influentes conviviam com jovens mulheres representadas pela agência. Foi num desses eventos, em 1992, que a antiga modelo Stacey Williams diz ter sido apresentada a Epstein.
Mais tarde, outras ex-modelos relataram encontros com Epstein alegadamente facilitados por Faith Kates. Barbara Stoyanoff afirmou ter sido incentivada a conhecê-lo, com a ideia de que ele poderia ajudá-la com a sua carreira. Já Sena Cech recorda ter sido enviada à casa de Epstein, em Nova Iorque, para discutir a possibilidade de viajar no seu jato privado para trabalhos de moda. Nenhuma das mulheres entrevistadas afirmou ter sido abusada por Epstein nesses encontros, mas os relatos descrevem situações desconfortáveis.
Os contactos entre Faith Kates e Epstein não terminaram em 2009. Pelo contrário, os e-mails sugerem que Kates continuou a intermediar ligações entre mulheres e Epstein já na década de 2010, depois de ter sido condenado. Em 2011, Epstein enviou-lhe uma lista numerada com três nomes de mulheres. Horas depois, Kates respondeu:
7 de Fevereiro de 2011, 21h18
Faith Kates: "Consigo arranjar duas, foi isso que me pediste. Fica à espera."
Noutra troca de mensagens, Epstein pede nomes de raparigas para um evento de gala e pergunta se Kates tinha "aspirantes a atrizes" para um jantar com o realizador Woody Allen. Em 2017, os dois chegaram mesmo a discutir uma antiga modelo da Next Management, já então conhecida online, com Kates a descrever a mulher como "deslumbrante" e a enviar-lhe medidas físicas e fotografias, segundo os ficheiros analisados.
Faith Kates continou a defender Epstein mesmo quando começaram a surgir publicamente acusações mais graves de abuso. Kates sugeriu que as mulheres que avançavam com alegações o faziam por dinheiro. Numa das mensagens, escreveu: "O dinheiro motiva as pessoas". Também aconselhou Epstein a manter-ser discreto e a fazer doações para melhorar a sua imagem pública: "Mantém-te bem discreto" e apoia projetos que "façam o bem pelos outros".
Em Julho de 2010, Epstein falou na hipótese de comprarem em conjunto uma propriedade de 5 milhões de dólares para Kates e a sua família. Nas mensagens seguintes, a executiva mostra ansiedade para que o negócio avance:
17 de Setembro de 2010, 15h24
Faith Kates: "Estás a evitar-me? Era isto que eu não queria que acontecesse... Preciso de falar contigo hoje, porque não quero perder este apartamento; é perfeito para mim e para a minha família... e os meus filhos estão entusiasmados!!! Beijos e abraços"
Epstein respondeu de Paris:
27 de Setembro de 2010, 10h33
Jeffrey Epstein: "Estou em Paris, não digas ao corretor até onde estás disposta a ir. Vai custar mais meio milhão se não tivermos cuidado"
Mais tarde, Kates insistiu:
2 de Novembro de 2010, 15h42
Faith Kates: "Não posso perder este apartamento, não por mim, mas pelos meus filhos."
20 de Fevereiro de 2011, 17h15
Faith Kates: "Jeffrey, por favor, sê sincero comigo. Compreendo que, neste momento, não tenhas condições financeiras para o fazer, mas, por favor, responde às minhas chamadas. Nunca deixaria que algo assim se interpusesse entre 30 anos de amizade. Beijos e abraços"
Mais tarde, em 2015, Epstein terá proposto um empréstimo secreto de 6 milhões de dólares (5.2 milhões de euros) para que Kates pudesse comprar a participação de um dos co-proprietários da agência Next Management:
25 de Fevereiro de 2015, 11h32
Jeffrey Epstein: "Vou emprestar-te, só a ti, os 6 milhões. Oferece-te para comprar a Golden Gate por 5 milhões, para começar. O meu nome não pode ser mencionado. Claro."
Perante as revelações, a agência Next Management procurou distanciar-se publicamente da sua fundadora. A empresa afirmou que a relação de Faith Kates com Epstein era “completamente e absolutamente desconhecida” da administração e dos principais executivos. A agência declarou ainda lamentar profundamente qualquer impacto que as ações independentes de Faith Kates possam ter tido em modelos e colaboradores.
Já a porta-voz de Kates sustentou que esta "nunca colocou uma modelo em perigo" e descreveu Epstein como "um mestre manipulador", alegando que as pessoas à sua volta apenas sabiam o que ele queria que soubessem. Também negou que os empréstimos ou investimentos sugeridos nos e-mails se tenham concretizado.
O caso Faith Kates não é apenas mais um capítulo na longa cronologia de Jeffrey Epstein. É também um espelho de uma cultura da indústria da moda e do entretenimento, onde o acesso, a influência e a promessa de ascensão social muitas vezes se sobrepõem à proteção das jovens mulheres.
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