Impacto mais visível do conflito será nos preços dos combustíveis e também eletricidade.
Os conflitos na região do Golfo terão impacto na economia portuguesa principalmente através dos preços, sendo que poderão também colocar pressão sobre as contas públicas, nomeadamente após o choque causado pelas tempestades, apontam economistas à Lusa.
"O impacto mais visível do conflito será nos preços dos combustíveis e também eletricidade", indicou à Lusa Ricardo Amaro, lead economist para a Zona Euro da Oxford Economics, acrescentando que ainda há "vários cenários em cima da mesa neste momento".
A estimativa para o barril do petróleo situa-se perto dos 80 dólares no próximo trimestre, mas com um regresso para os níveis de janeiro no verão, notou, "com a média anual ficando-se pelos 68 dólares por barril, apenas ligeiramente acima dos 65 dólares previstos pelo governo no Orçamento do Estado".
Ainda assim, há riscos que poderão aumentar os efeitos, dependendo da duração do conflito ou da possibilidade de um impacto mais agressivo no curto prazo, "particularmente se o Irão conseguir suspender a circulação no estreito de Ormuz de forma prolongada", alertou.
Além dos preços energéticos e possíveis perturbações nas cadeias de abastecimento, "há também a considerar possíveis impactos nos mercados financeiros e/ou confiança dos consumidores e empresas que podem intensificar o impacto económico do conflito", admitiu o economista, ainda que ressalvando que a economia portuguesa "reduziu a sua dependência no petróleo ao longo do tempo e está hoje menos vulnerável a eventuais subidas no seu preço".
O economista Ricardo Ferraz, professor no ISEG e na Lusófona, também destacou, à Lusa, que "há riscos elevados de podermos vir a ser penalizados por esta guerra, mas tudo dependerá da sua duração", sendo que um conflito prolongado levaria a acelerações nas taxas de inflação.
"Se essa inflação se revelar persistente, tal conduzirá as autoridades monetárias a aumentarem novamente as taxas de juro, com um impacto recessivo na economia e no emprego (numa altura em que a zona euro permanece frágil e em que os principais motores teimam em não arrancar)", notou, o que pesaria sobre a economia portuguesa, quando ainda está a "tentar recuperar do choque das tempestades, que afetou gravemente parte das nossas empresas, em especial na zona de Leiria, altamente exportadora".
O coordenador do NECEP -- Católica Lisbon Forecasting Lab, João Borges de Assunção, apontou à Lusa que o efeito na economia portuguesa é "sobretudo via saldos comerciais com o exterior, já que a curto prazo não parece colocar problemas a nível de entregas físicas".
Numa análise ao conflito, a Xtb salientou igualmente que o impacto macroeconómico mais imediato é na inflação, começando pela energia --- combustíveis e eletricidade mais caros --- e propagando-se rapidamente aos alimentos e, posteriormente, aos serviços".
"Se a escalada se mantiver por vários meses, esta pressão sobre os preços pode ancorar expectativas inflacionistas mais elevadas, levando o Banco Central Europeu (BCE) a adotar uma política monetária mais restritiva, ou seja, mantendo ou aumentando taxas de juro", lê-se na análise.
Já no que diz respeito às contas públicas, Ricardo Amaro apontou que existem efeitos contraditórios, sendo que a "subida de preços penaliza atividade económica, mas em parte isto é compensado pelo efeito da inflação que aumenta as receitas de IVA e ISP, por exemplo".
Ainda assim, assume que é "provável que se regresse aos défices em 2026, mas mais pelo efeito do pacote anunciado após as tempestades por volta de 1% do PIB". "Mas esperamos um défice ligeiro, já que o melhor ponto de partida para 2026 após o melhor desempenho que esperado em 2025 irá compensar parcialmente esse aumento da despesa", disse, referindo que deve, mesmo assim, verificar-se uma nova descida no rácio da dívida pública, que ficará abaixo da média europeia em 2026 pela primeira vez desde 2004.
Já Ricardo Ferraz também assumiu que manter um excedente orçamental em 2026 "tornou-se muito mais desafiante devido às tempestades, nomeadamente aos seus efeitos económicos negativos e aos apoios concedidos".
"Esta guerra vem agora acrescentar ainda mais incerteza a esse resultado, embora não se saiba como nem quando irá terminar. De qualquer forma, não me parece possível afirmar que um cenário de excedente orçamental esteja totalmente descartado", concluiu.
João Borges de Assunção sinalizou, por sua vez, que o impacto no saldo orçamental "será apenas indireto via atividade económica e seria necessário um período prolongado de preços elevados para começar a ter um efeito material direto".
O economista considerou que ainda é possível terminar o ano com um excedente orçamental, ainda que salientando que é "normal que haja um ligeiro défice, o que não coloca em causa a sustentabilidade das finanças públicas".
Falta ainda clarificação do Governo sobre a dimensão concreta do esforço de reconstrução após as tempestades, para avaliar o impacto final no saldo orçamental deste ano.
A Xtb dava também conta de um efeito no "aumento dos custos do Estado em termos de defesa e segurança, à medida que crescem os gastos militares ou o financiamento de operações externas".
"Para a economia portuguesa, isso poderia traduzir-se numa ligeira pressão sobre as contas públicas e numa eventual necessidade de reorientar prioridades orçamentais, ainda que o impacto direto seja limitado face à dimensão da economia", lê-se na análise.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.