Um dos principais entraves ao voto continua a ser a dispersão territorial.
A afluência às urnas para a segunda volta das eleições presidenciais no Consulado-Geral de Portugal em Toronto supera largamente os números da primeira volta, apesar das dificuldades associadas à distância, dispersão geográfica e condições climatéricas adversas.
A cônsul-geral Ana Luísa Riquito disse à Lusa que a votação tem decorrido com normalidade e grande civismo.
"Ontem [sábado] tivemos 527 votantes e este domingo, ainda antes do meio-dia, já contávamos com cerca de 400. Esperamos ultrapassar os mil até ao final do dia", afirmou.
A votação encerra às 15:00 (hora local), coincidindo com o fecho da última urna em território nacional, no Arquipélago dos Açores.
Na primeira volta, a taxa de participação na área de Toronto foi de 2,15%, num universo de aproximadamente 46 mil eleitores recenseados.
"É certo que vamos ultrapassar essa percentagem nesta segunda volta", sublinhou Ana Luísa Riquito.
Um dos principais entraves ao voto continua a ser a dispersão territorial.
Embora cerca de 62% dos eleitores portugueses no Canadá residam na área metropolitana de Toronto, muitos vivem a centenas de quilómetros do consulado, o que dificulta a deslocação.
"O Ontário é uma província enorme. Temos eleitores em Leamington, Thunder Bay, Sault Ste. Marie e outras localidades muito distantes", explicou a diplomata.
Entre os que fizeram questão de votar está José Carlos Sousa, de 81 anos, natural da Nazaré, emigrado no Canadá desde 1968 e residente próximo do consulado.
"Sim, voto sempre. É um privilégio e uma forma fundamental de contribuir para a democracia", afirmou.
José Carlos defende que o sistema eleitoral deve evoluir para se adaptar à realidade dos emigrantes: "Talvez, no futuro, se possa votar online, usando as tecnologias avançadas que agora temos. Este é um país muito grande, entre três oceanos --- o Atlântico, o Pacífico e o Ártico. Há portugueses que querem participar. Se conseguirmos ter um sistema seguro e transparente, podemos usar o voto através da internet".
Outros eleitores partilharam opiniões semelhantes. António Pereira, de 64 anos, residente em Innisfil, a cerca de 70 quilómetros a norte de Toronto, votou pela primeira vez numa eleição presidencial.
"Como cidadão português, acho que tenho o dever de votar. Mas é complicado para muita gente. Nas legislativas, mandam o boletim de voto por correio. Para as presidenciais, deveria ser igual", lamentou.
Luís Marques, natural de Coimbra e há 16 anos no Canadá, foi direto: "Hoje em dia, com a tecnologia que temos, não entendo porque é que o voto não pode ser online. Toda a gente poderia votar".
A questão do recenseamento eleitoral também gerou frustração entre alguns eleitores que compareceram no consulado mas não puderam votar por estarem inscritos noutra circunscrição ou ainda em território nacional.
"É fundamental verificar previamente onde se está recenseado", alertou Ana Luísa Riquito. "Temos feito esse apelo e, felizmente, cada vez mais pessoas estão conscientes disso", salientou.
A cônsul reconhece que o afastamento político de parte da comunidade emigrante tem raízes profundas, mas vê sinais positivos: "Apesar da percentagem ainda ser baixa, estas eleições estão a ter uma taxa de participação histórica um pouco por todo o mundo. Isso pode dever-se a uma maior ligação à comunidade, ao trabalho desenvolvido pelo atual Presidente da República junto dos portugueses no estrangeiro e também ao renovado interesse das segundas e terceiras gerações em restabelecer os seus laços com Portugal".
O aumento da participação no Canadá reflete uma tendência observada noutras comunidades portuguesas no estrangeiro, onde os laços com o país de origem continuam a manifestar-se, mesmo à distância, e por vezes contra as intempéries do rigoroso inverno canadiano.
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