Três pessoas morreram em menos de 48 horas por atrasos no socorro.
O candidato presidencial Henrique Gouveia e Melo considerou, esta quinta-feira, estranhos investimentos anunciados em cima de acontecimentos trágicos e remeteu para o chefe do Governo a avaliação sobre as condições políticas para a ministra da Saúde continuar em funções.
Gouveia e Melo falava antes de visitar o Hospital Misericórdia de Valpaços, no distrito de Vila Real, depois de confrontado pelos jornalistas com os investimentos anunciados pelo primeiro-ministro, Luís Montenegro, no parlamento, para o setor da saúde.
No parlamento, logo no início do debate quinzenal, Luís Montenegro lamentou as mortes de pessoas que não obtiveram socorro atempado e revelou que o Governo aprovou na quarta-feira a aquisição de 275 novas viaturas para o INEM, num investimento de 16,8 milhões de euros.
Interrogado sobre o conjunto de investimentos anunciado pelo executivo PSD/CDS-PP, o ex-chefe do Estado-Maior da Armada reagiu: "Anúncios destes, feitos em cima de acontecimentos que são trágicos - e mais uma vez quero dar os meus pêsames às pessoas e às famílias que sofreram a perda de entes queridos -- são sempre estranhos".
"Até podem ser feitos com a melhor das intenções e sendo a melhor das propostas, mas parece sempre uma medida que tem a ver com a parte comunicacional, ou com a gestão comunicacional de crises, e não uma verdadeira resolução de um problema. Um problema que nos afeta há muito tempo", respondeu o almirante.
Interrogado sobre as condições políticas para a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, manter as suas funções, Gouveia e Melo remeteu essa resposta para o chefe do executivo.
"A única pessoa que pode avaliar o desempenho dos seus ministros, até porque é a pessoa mais afetada pelo desempenho dos seus ministros, é o senhor primeiro-ministro. E isso está na consciência dele e na liberdade política que tem enquanto ator político, enquanto primeiro-ministro", sustentou.
Perante os jornalistas, Henrique Gouveia e Melo começou por manifestar "satisfação com o investimento em equipamentos e em soluções" anunciado por Luís Montenegro.
No entanto, disse esperar que "se passe de vez das declarações de intenções à concretização".
"Muitas vezes, quando fazemos investimentos, esquecemos que depois há todo um custo operacional com esses equipamentos -- custo em seres humanos, que precisam de trabalhar com os equipamentos e precisam de existir no sistema. Mas também um custo operacional diário para manter esses equipamentos", apontou.
A questão que se levanta, segundo Gouveia e Melo, "é o problema de falta de organização, de falta de liderança e de falta de gestão".
"De facto, estamos perante uma situação curiosa na zona de Aveiro, em que temos viaturas, mas corre-se o risco, durante nove dias, de não termos essas viaturas operacionais, porque temos problemas com o pessoal. Muitas vezes o investimento não é só de ordem material. Tem que se investir nas organizações, na liderança profissional, verdadeiramente profissional, no conhecimento e na capacidade", contrapôs.
Segundo o almirante, nos últimos anos, diz-se aos portugueses "que tem sido feito o maior investimento sempre em saúde, mas nada disso resultou até agora".
"Como tal, não se pode andar a despejar dinheiro em cima de um problema, sobretudo se a natureza do problema não for de investimento material", advertiu, antes de deixar uma farpa a propósito de uma das principais propostas preconizadas pelo seu adversário António José Seguro.
"Os problemas não podem ser resolvidos com uma atitude quase majestática no sentido de se dizer que temos que fazer um grande pacto para a saúde, porque esse pacto na realidade já existe. Todos os governos dos últimos anos têm investido na saúde. Portanto, o problema não é investir na saúde, o problema está na organização da saúde", insistiu.
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