Partido de Bolsonaro quer retirar mandato a deputada por recitar poema: "Sou p****, sou mulher"

Isa Penna declamou poema durante uma sessão na Alesp, Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

03 de outubro de 2019 às 17:51
Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil Foto: Reuters
Jair Bolsonaro Foto: EPA
Bolsonaro discursa na ONU Foto: EPA
Jair Bolsonaro Foto: Reuters

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A deputada regional paulista Isa Penna, do Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), de esquerda, pode perder o mandato para o qual foi eleita no ano passado por ter tentado declamar um poema intitulado "Sou p***, sou mulher", da poetisa Helena Ferreira, durante uma sessão na Alesp, Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Os deputados do Partido Social Liberal (PSL), de extrema-direita, pelo qual se elegeu o presidente Jair Bolsonaro, interromperam a colega aos gritos, não a deixaram continuar a declamação da poesia, e anunciaram que vão instaurar no Conselho de ética um processo para que Isa perca o mandato parlamentar.

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A confusão aconteceu na tarde desta quarta-feira, quando a Alesp discutia um polémico projecto que define o género das pessoas exclusivamente pelo critério biológico do nascimento, ignorando as pessoas que, em qualquer altura da vida, deixam de se identificar com o sexo biológico com que nasceram. Isa, que é contra o projecto, apresentado pelos deputados conservadores aliados de Bolsonaro. A deputada foi ao microfone criticar a iniciativa e a certa altura começou a declamar o poema, que fala de uma mulher que não aceita reprimir os seus desejos.

"Sou p***, quando uso a boca vermelha, o meu salto agulha, e o meu vestido preto. Sou p***, mordo no final do beijo, não fico reprimindo o meu desejo", pode-se ler nos primeiros versos do poema, os únicos que Isa conseguiu declamar.

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Valéria Bolsonaro, deputada do PSL, foi a primeira a insurgir-se contra Isa e interrompeu-a imediatamente, mandando-a parar de recitar o poema.

A deputada do PSOL tentou continuar, mas foi impedida por Valéria e por outro deputado do partido de Jair Bolsonaro, Douglas Garcia, que anunciou aos gritos que iria apresentar queixa da colega por suposta quebra de decoro parlamentar. Douglas afirmou que Isa, ao declamar aqueles versos, estava a desrespeitar e a envergonhar o parlamento de São Paulo.

Apesar da gritaria, a deputada de esquerda tentou continuar a usar o microfone, já não para recitar os versos mas para criticar a indignação que eles causaram, mas o sistema de som foi cortado para impedir que a sua voz se ouvisse. Depois da confusão, Isa Penna desabafou que o episódio é mais um exemplo do clima de ultra-conservadorismo e intolerância que se instalou no país desde as eleições que levaram Jair Bolsonaro ao poder.

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