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Como o conflito no Irão pode afetar os preços da energia em Portugal

As perguntas e respostas que o vão ajudar a entender o tema.

06 de março de 2026 às 12:50

A tensão no Médio Oriente voltou a colocar o mercado energético em alerta depois de o Irão declarar controlo sobre o Estreito de Ormuz, uma das principais rotas mundiais de transporte de petróleo e gás.

Esta rota é fundamental para a circulação de crude e gás natural liquefeito, e qualquer perturbação pode ter repercussões globais.

Portugal não importa grande parte do petróleo diretamente dos países do Golfo Pérsico, mas o preço do crude é definido em mercados internacionais. Alterações na oferta ou perceções de risco podem refletir-se nos preços dos combustíveis, do gás e da eletricidade no país.

Eis algumas perguntas e respostas sobre o que está em causa e como isso pode chegar aos bolsos dos consumidores portugueses:

O que é o Estreito de Ormuz e porque é importante?

O Estreito de Ormuz é uma passagem marítima entre o Golfo Pérsico e o Golfo de Omã por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial transportado por via marítima e uma parte significativa do gás natural liquefeito.

Países como Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait, Iraque ou Qatar utilizam esta rota para exportar energia para os mercados internacionais.

Qualquer perturbação no tráfego marítimo nesta zona pode afetar o abastecimento global de energia.

Porque é que o conflito com o Irão pode fazer subir os preços da energia?

Os preços do petróleo e do gás são definidos em mercados globais. Se existir risco de interrupção no fornecimento, os mercados tendem a antecipar escassez e os preços sobem.

Mesmo que a produção mundial não diminua imediatamente, a simples ameaça de bloqueio da rota pode levar a uma subida dos preços nos mercados internacionais, como aconteceu após os Estados Unidos e Israel terem lançado a 28 de fevereiro um ataque militar contra o Irão.

Portugal depende do petróleo do Médio Oriente?

Portugal importa petróleo de vários países e não depende diretamente dos produtores do Médio Oriente para o abastecimento.

Segundo dados de 2024 da Direção-Geral de Energia e Geologia (DGEG), uma parte significativa do crude que chega às refinarias portuguesas tem origem em países do continente americano e de África.

No petróleo, o Brasil assegurou cerca de 44% das importações portuguesas, seguido da Argélia (18%), dos Estados Unidos (11%) e do Azerbaijão (9%).

Já no caso do gás natural, Portugal tem sido abastecido sobretudo pela Nigéria (51%) e pelos Estados Unidos (40%), tendo o país deixado de comprar gás ao Qatar há mais de três anos.

Ainda assim, o petróleo é negociado num mercado global. Por isso, qualquer perturbação numa rota estratégica como o Estreito de Ormuz --- por onde passa uma parte significativa do petróleo transportado no mundo --- pode provocar subidas no preço internacional do crude e acabar por refletir-se no custo dos combustíveis em Portugal.

Quando é que os preços dos combustíveis podem subir?

Apesar de não estar diretamente dependente de produtores do Médio Oriente, os preços dos combustíveis em Portugal são fixados internacionalmente, pelo que a evolução das cotações globais do crude se reflete no preço de venda ao público.

As variações do preço do petróleo podem demorar alguns dias a refletirem-se nos postos de abastecimento. Isso acontece porque as empresas distribuidoras compram combustível antecipadamente e os preços incluem também custos de refinação, transporte, impostos e margens comerciais.

O mecanismo de fixação dos preços em Portugal segue, em regra, a média das cotações da semana anterior, pelo que qualquer manutenção da tendência de alta deve refletir-se nos preços de venda ao público nesse período.

Como tinha explicado à Lusa o secretário-geral da associação que representa as Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes (EPCOL), António Comprido, o impacto será "significativo" já a partir da próxima semana. Fonte do mercado confirmou que estão previstos aumentos em torno dos 25 cêntimos no gasóleo simples e de sete cêntimos na gasolina já a partir de segunda-feira, 09 de março.

O primeiro-ministro, Luís Montenegro, admitiu esta semana que o Governo poderá avançar com um desconto extraordinário e temporário do ISP para compensar uma eventual subida dos combustíveis caso se verifique um aumento superior a 10 cêntimos face ao valor da semana. Segundo Montenegro, esta medida visa devolver às famílias e empresas o adicional de receita do IVA, mitigando o impacto direto na carteira.

O gás natural também pode ser afetado?

Sim. O Estreito de Ormuz é também uma rota importante para o transporte de gás natural liquefeito (GNL), especialmente proveniente do Qatar, um dos maiores exportadores mundiais. Se o tráfego de navios for perturbado, pode haver menos oferta no mercado global, o que tende a pressionar os preços.

Qualquer redução no fornecimento global pressiona os preços do gás, que afetam não só os contratos de gás industrial, mas também a produção de eletricidade em centrais a gás.

Isso pode afetar o preço da eletricidade?

Sim, sobretudo de forma indireta. Em muitos países europeus, incluindo Portugal, o gás natural continua a ser utilizado para produzir eletricidade.

O preço da eletricidade é formado no mercado grossista ibérico (MIBEL), de acordo com a oferta e a procura horárias. O preço final corresponde, geralmente, ao custo da última central necessária para satisfazer a procura, normalmente a gás natural.

Quando o gás fica mais caro, o custo de produção de eletricidade também pode aumentar, o que pode ter impacto nas tarifas no mercado grossista.

A indústria, sobretudo os setores com maior consumo de gás, geralmente sente os efeitos primeiro, devido à ligação direta aos preços do mercado grossista.

Para consumidores domésticos, o impacto depende do tipo de contrato: tarifas reguladas ou indexadas ao mercado podem refletir subidas em semanas a meses, enquanto contratos fixos podem não sofrer alteração imediata, pois o preço só muda na renovação ou se a empresa aplicar uma cláusula de revisão extraordinária com aviso prévio.

Pode haver uma nova crise energética como em 2022?

A crise energética de 2022, após a invasão da Ucrânia pela Rússia, levou a fortes subidas dos preços do gás e da eletricidade na Europa. O impacto atual dependerá sobretudo da duração e da intensidade da tensão no Médio Oriente e de eventuais interrupções no transporte de energia.

Embora o aumento dos preços do petróleo possa pressionar os custos dos combustíveis e da eletricidade, Portugal apresenta algumas vantagens estruturais: cerca de 70% da eletricidade consumida provém de fontes renováveis, tornando o setor menos dependente do petróleo.

Se a situação se prolongar, os consumidores e a indústria poderão sentir pressões adicionais nos preços de energia, mas ainda será cedo para saber se o cenário se assemelhará ao da crise energética de 2022.

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