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Correio da Manhã

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Governo Bolsonaro é denunciado à ONU por direcionar investigação sobre as mortes de pesquisador e jornalista na Amazónia

Denúncia foi feita por organizações de Direitos Humanos e movimentos de indígenas.
Domingos Grilo Serrinha e correspondente no Brasil 22 de Junho de 2022 às 17:30
Jair Bolsonaro
Jair Bolsonaro

 O governo do presidente Jair Bolsonaro foi denunciado esta quarta-feira ao Conselho de Direitos Humanos da ONU, Organização das Nações Unidas, em Genebra, na Suíça, por, segundo os autores da denúncia, estar a direcionar a investigação sobre as mortes do pesquisador brasileiro Bruno Araújo Pereira e do jornalista inglês do The Guardian Dom Philips, assassinados a tiro no passado dia 5 no Vale do Javari, uma região remota da Amazónia. A denúncia, lida presencialmente em Genebra pelo advogado de uma das entidades, foi feita por organizações de Direitos Humanos e movimentos de indígenas.

 De acordo com a denúncia, há uma clara orquestação das autoridades brasileiras para que a Polícia Federal, diretamente subordinada ao Ministério da Justiça e na qual o presidente Jair Bolsonaro tem uma influência pessoal directa, conduza a investigação de forma a isentar o presidente, o governo e os órgãos federais ligados ao Ambiente e às questões indígenas. Para essas entidades, da mesma forma que para boa parte da imprensa brasileira, há uma preocupação muito grande do governo em tentar fazer parecer que as mortes do maior especialista brasileiro em povos isolados e do jornalista inglês, que há muito denunciava a devastação na floresta, foi uma mera rixa entre os dois e alguns pescadores ilegais locais irritados com as críticas deles às suas actividades.

  Uma prova desse direcionamento indicada pelas entidades que fizeram a denúncia foi a precipitação da cúpula da Polícia Federal de emitir um comunicado somente dois dias depois de os corpos terem sido localizados e de os assassinos terem confessado os crimes, rejeitando a hipótese de ter havido um mandante ou de as mortes terem sido um crime político ou consequência do trabalho e das denúncias públicas de Bruno e de Dom. Ante o clamor de repúdio a essa conclusão, feita mesmo antes de peritagem médica aos corpos e de ter sido feita uma investigação aprofundada, a Polícia Federal teve de recuar e vir a público de novo, agora para informar que, afinal, a apuração dos casos ia continuar.

  Esta semana, outra fonte do governo federal, o vice-presidente da República, general Hamilton Mourão, também veio a público minimizar as brutais mortes e tentar reduzi-las a uma desavença ocasional entre Bruno e os pescadores, que, avançou o presidente, provavelmente estavam bêbados pois aos domingos (os crimes foram praticados num domingo) eles não trabalham e costumam beber muito. Mourão ignorou completamente o facto de os assassínios terem ocorrido pouco depois das sete da manhã, horário pouco provável para alguém já estar embriagado, e ainda o facto de o principal suspeito das mortes, o pescador Amarildo Costa Oliveira, já preso, há muito ameaçar matar Bruno por este denunciar a actividade predatória que praticava.

  Bruno e Dom foram executados com tiros de caçadeira por Amarildo e por outro pescador, Jeferson Silva Lima, que já confessaram os homicídios, e, segundo a Polícia Federal, por um irmão de Amarildo, Oseney Costa Oliveira, também já preso mas que nega tudo, e ainda outros cinco suspeitos em liberdade. As duas vítimas, cujos restos mortais foram localizados dia 15 enterrados numa margem do Rio Itaquari, perto de onde foram mortas, e identificadas no Instituto Nacional de Criminalística, em Brasília, tinham ido ao Vale do Javari ouvir indígenas que queriam denunciar invasores armados que actuam na região e devastam a floresta procurando ouro, derrubando árvores e pescando os grandes e valiosos peixes da região de forma predatória e em áreas de preservação.
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