A justiça brasileira decretou a libertação dos donos e músicos da discoteca 'Kiss', Rio Grande do Sul, onde morreram 242 pessoas em Janeiro deste ano.
A justiça do estado brasileiro do Rio Grande do Sul decretou a libertação dos dois sócios da discoteca 'Kiss', em Santa Maria, onde um incêndio ocorrido no dia 27 de Janeiro deste ano provocou a morte de 242 jovens que participavam numa festa universitária, libertando também os dois músicos que momentos antes da tragédia acenderam uma tocha no palco. Logo após a divulgação da notícia da libertação destes quatro arguidos, que estavam presos preventivamente desde a ocorrência do incêndio, familiares de várias vítimas foram para as ruas de Santa Maria protestar.
Dezenas de pessoas começaram a percorrer as principais artérias da cidade universitária, no centro do estado, no final da noite de quarta-feira, e a manifestação de repúdio continuou pela madrugada desta quinta-feira, ganhando cada vez mais participantes. Elissandro Spohr e Mauro Hoffmann, os dois donos da discoteca 'Kiss', e Marcelo dos Santos e Luciano Bonilha Leão, respectivamente vocalista e produtor da banda Gurizada Fandangueira, saíram da penitenciária estadual ao início da noite.
“Eles não têm ideia do que é chegar a casa e ver a casa vazia, sem os filhos”, afirmou, emocionada e revoltada, Helena Maria Rosa da Cruz, uma das manifestantes, que na tragédia da discoteca perdeu os filhos Mirela, de 21 anos, e José, de 18. "Sinto-me revoltada e indignada com a justiça. Em que Brasil é que nós vivemos? Em que mundo é que nós vivemos? Eu vou lutar até ao fim da minha vida pela justiça aos meus filhos e aos outros 240.”
A tragédia na discoteca 'Kiss' aconteceu cerca das duas e meia da madrugada de 27 de Janeiro, quando no local, que tem capacidade para pouco mais de 600 pessoas mas onde estavam mais de 1.000, decorria uma festa de estudantes de vários cursos da Universidade de Santa Maria. Segundos depois de o vocalista da banda acender e erguer uma tocha, a espuma que revestia o teto da discoteca incendiou-se e em pouco tempo todo o recinto foi tomado por uma densa camada de fumo negro, matando a maior parte das vítimas por intoxicação e outras queimadas.
A polícia incriminou diretamente 16 pessoas e responsabilizou outras 18 pela tragédia. Para a polícia e o Ministério Público, toda a casa noturna funcionava de forma irregular, pois havia apenas uma entrada e saída, sem alternativa de emergência. Além disso, a espuma, colocada irregularmente no teto, não era apropriada pois, ao incendiar-se, libertava cianeto, substância venenosa. Entre várias outras ilegalidades, os extintores também não funcionavam.
Para piorar a tragédia, os seguranças da discoteca fecharam a única saída do recinto, para impedirem as pessoas de sair sem pagarem a conta. Altos funcionários da câmara local e até os bombeiros foram acusados de receberem subornos para não exigirem a compra dos equipamentos mínimos de segurança para o local nem fazerem fiscalizações de rotina.
Na madrugada do desastre e nas horas subsequentes morreram 237 jovens, tendo os restantes cinco morrido ao longo dos últimos quatro meses no hospital, o último dos quais, uma jovem, na semana passada. Mais de quatro meses depois do incêndio, quatro dos mais de 300 feridos ainda estão internados.
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