Eliminaram-se os controlos na passagem fronteiriça terrestre, que passam a ser feitos, tanto por Espanha como pelas autoridades de Gibraltar, no aeroporto e, em alguns casos, também no porto da colónia inglesa.
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Milhares de pessoas do enclave britânico de Gibraltar e da cidade espanhola de La Línea fizeram esta quarta-feira história minutos após a meia-noite (23h00 em Lisboa) ao cruzarem livremente a fronteira entre os dois territórios.
Foi com gritos como "aqui não há fronteira", braços no ar, aplausos, sorrisos e lágrimas que milhares de pessoas dos dois lados se cruzaram naquele que até hoje foi um posto fronteiriço entre as duas cidades e que para ser cruzado nas últimas décadas obrigava a duplo controlo de identidade, perante polícia espanhola e de Gibraltar.
"É a história a acontecer, inimaginável, ninguém queria perder", sintetizou Soraia Dominguez, nascida em La Línea de la Concepción em 1977, em declarações à Lusa poucos minutos antes de ser permitida a passagem livre entre Gibraltar e a cidade espanhola.
O controlo fronteiriço, assim como a vedação que desde 1909 existia nos 1,2 quilómetros desta fronteira, considerado "o último muro da Europa continental", acabaram hoje, por ter entrado em vigor à meia-noite local o acordo alcançado pelo Reino Unido e pela União Europeia para regular as relações de Gibraltar com o bloco comunitário na sequência do Brexit, aprovado em referendo há 10 anos.
A vedação - conhecida como "La verja" foi sendo desmantelada nos últimos meses e também as infraestruturas dos postos fronteiriços estão já parcialmente desmontadas e retiradas.
Após 117 anos de vedação e períodos em que a fronteira chegou a estar totalmente encerrada por conflitos entre Espanha e o Reino Unido ou, mais recentemente, a covid-19, "assistir a este momento histórico é obviamente muito emocionante" para as pessoas dos dois lados, como explicou Soraia Domínguez, que se lembra quando a pandemia a fez estar separada do marido três meses porque ele trabalha em Gibraltar e ficou retido do outro lado de "la verja".
Quem também não perdeu "a história a fazer-se" foi Isabel, de 37 anos, uma das 15 mil pessoas que vive em La Línea e trabalha em Gibraltar, tendo de cruzar diariamente a fronteira, até hoje, por vezes, com longas filas de espera.
"Penso que o dia a dia vai ser mais fácil, mais fluido. E há muita emoção, sim. Há gente que se lembra de quando a fronteira não era tão fechada como era agora. E outros de quando foi encerrada totalmente e famílias ficaram separadas", acrescentou, antes de sublinhar que daquilo que já ninguém tinha memória era de uma fronteira totalmente livre.
O tratado sobre Gibraltar entre a UE e o Reino Unido, o último protocolo pendente na sequência da saída britânica do bloco europeu (‘Brexit’) em 2020, foi assinado terça-feira em Bruxelas. O acordo entrou hoje em vigor a título provisório, uma vez que necessita da ratificação do Parlamento Europeu para ser definitivo.
O acordo prevê a livre circulação de pessoas e bens entre o território britânico e Espanha e a eliminação total da barreira física (“a vedação”) em redor de Gibraltar.
Eliminam-se os controlos na passagem fronteiriça terrestre, que passam a ser feitos, tanto por Espanha como pelas autoridades de Gibraltar, no aeroporto e, em alguns casos, também no porto da colónia inglesa.
Segundo o tratado, aplicar-se-ão as regras do espaço europeu de livre circulação Schengen, que Londres não integra, para permitir a entrada em Gibraltar.
A vedação que separa Gibraltar de La Línea de la Concepción, no sul de Espanha, foi levantada em 1909 pelos britânicos e chegou a estar totalmente fechada entre junho de 1969 e 1982 (para passagem de peões) e 1985 (para mercadorias e outras viaturas), na sequência de uma decisão do ditador espanhol Francisco Franco que ditou um bloqueio de 15 anos do território britânico e uma crise social e económica para a comarca espanhola Campo de Gibraltar, onde dezenas de milhares de pessoas se viram sem trabalho e empresas sem clientes repentinamente.
O fim da vedação e do controlo da fronteira tem o valor simbólico de acabar com uma separação física entre milhares de pessoas que partilham o dia a dia e também de fechar o processo do ‘Brexit’.
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