País nórdico abateu cerca de 15 milhões destes animais como precaução para evitar a propagação da doença.
A mutação do vírus SARS-CoV-2 detetada em visons e em mais de 200 pessoas na Dinamarca neste mês apresenta um risco pouco significativo no contexto da atual pandemia de covid-19, adiantaram à Lusa dois cientistas portugueses.
Apesar de a informação ter levado ao anúncio de medidas drásticas no país nórdico, nomeadamente com o abate de cerca de 15 milhões destes animais, e de Organização Mundial de Saúde (OMS) e Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC, na sigla em inglês) se terem também pronunciado, a virologista Maria João Amorim, investigadora principal no Instituto Gulbenkian de Ciência (IGC), rejeitou eventuais alarmismos.
"Não há doença mais severa e a transmissibilidade nem sequer foi [uma questão] levantada. Não me parece, para já, preocupante", disse a cientista, que se apoiou nos dados conhecidos para refutar um grande impacto na alteração da proteína Spike, que permite a ligação às células: "A imunidade é muito mais complexa. Além de impedir a entrada, há outros mecanismos que podem não impedir a entrada, mas resultam numa infeção menos severa".
Por sua vez, o imunologista Luís Graça, professor na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, reconheceu que "as diferenças entre o animal e o ser humano dão um estímulo evolutivo para o vírus se adaptar e se tornar diferente" e que essa "pressão evolutiva" em hospedeiros animais pode dar azo a crescentes mutações, mas sustentou que esse é um processo comum entre vírus e não acarretam necessariamente um maior risco.
"Com os dados que temos disponíveis, não é uma variante que seja particularmente mais perigosa. Não se transmite mais do que outra variante - o que faz com que não haja uma pressão seletiva para que esta se vá espalhar mais depressa no mundo do que outra - e não causa doença mais grave do que as outras variantes que estão na comunidade", sublinhou.
De acordo com o também investigador no Instituto de Medicina Molecular (iMM), a principal diferença na variante identificada nos visons na Dinamarca e que chegou aos seres humanos está na "redução moderada na capacidade dos anticorpos neutralizantes". Como consequência, pessoas anteriormente infetadas com o novo coronavírus teriam maior probabilidade de poderem contrair nova infeção por esta variante.
"Pode fazer com que os anticorpos que são muito bons a neutralizar o vírus que evoluiu para infetar as nossas células já não sejam tão eficazes para neutralizar o vírus que evoluiu para infetar as células do animal", referiu Luís Graça, sem deixar de citar um "risco potencial" desta situação sobre as vacinas atualmente em desenvolvimento: "As vacinas que estão a ser testadas induzem um tipo de anticorpos que é muito eficaz para o vírus que está em circulação na nossa comunidade, mas que poderia ser ligeiramente menos eficaz para esta variante".
Maria João Amorim admitiu igualmente um efeito teórico sobre as futuras vacinas - como as já anunciadas pela empresa de biotecnologia Moderna (cujos dados provisórios indicam uma eficácia de 94,5%) ou pela farmacêutica Pfizer (90% de eficácia) -, mas vincou que o impacto ao nível dos anticorpos é muito distinto entre doentes recuperados, com uma correlação significativa com a gravidade da covid-19 desenvolvida.
"Não sabemos a quantidade de anticorpos neutralizantes que são necessários para bloquear a entrada do vírus. Poderia constituir um problema, mas a diminuição [de anticorpos] é mesmo muito pequena em termos de capacidade de neutralização. Nas pessoas com um elevado número de anticorpos não se observaram diferenças, mas nas pessoas que têm números intermédios ou baixos observaram-se diferenças de cerca de metade", notou.
Considerando que "até ao momento ainda não apareceu nenhuma mutação que parecesse muito preocupante ou prejudicasse as vacinas", a virologista do IGC disse ainda que a opção dinamarquesa de abater milhões de visons - também conhecidos como martas e criados em cativeiro para a indústria de peles - não passou de "uma medida de precaução".
Já Luís Graça - que assinalou que o SARS-CoV-2 tem uma aquisição de mutações a um ritmo mais lento do que outros vírus, como o VIH, e que isso justifica por que razão é tão difícil uma vacina para o VIH, enquanto uma vacina para o SARS-CoV-2 é mais fácil de desenvolver -, defendeu que as "medidas radicais" do governo dinamarquês terão a virtude de "travar o processo de aquisição de mutações adicionais" sobre o novo coronavírus.
"Havendo mais circulação do vírus dentro dos visons, poderia divergir mais, acumular mutações maiores e fazer com que a eficácia [de futuras vacinas] se perdesse mais significativamente. Estes animais são muito suscetíveis a estes vírus respiratórios, que neles não causam doenças e se adaptam a esse organismo, acumulando, por isso, mutações de uma forma mais rápida do que aquilo que acontece entre os seres humanos", concluiu.
A pandemia de covid-19 provocou pelo menos 1.328.048 mortos resultantes de mais de 55 milhões de casos de infeção em todo o mundo, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.
Em Portugal, morreram 3.472 pessoas dos 225.672 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.
A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro de 2019, em Wuhan, uma cidade do centro da China.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.