Do primeiro ao último dia de cada ano podemos esperar as coisas do costume: catástrofes naturais, repentinas alterações do equilíbrio das almas que nos rodeiam (geralmente na direcção do abismo, comprovando o que há muito se sabe sobre a natureza humana) e, além de súbitas mudanças de meteorologia, a morte. Tenho falado com abundância de duas destas matérias e poupado os meus benevolentes leitores a conversas sobre o último tema, de que não sei falar senão para repetir o aviso do velho Doutor Homem, meu pai, acerca da velhice: que é um termo de identidade e residência para que o destino venha colher-nos quando entender. Passados vinte anos, recordo agora as minhas primeiras crónicas, escritas com a timidez de um aventureiro que não sabe que o é. Primeiro, a substituição do lápis Viarco pela caneta Parker que pertenceu ao velho Doutor Homem, meu pai; depois, a substituição do correio normal pelo fax; depois, a intromissão da minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, que, uma vez por outra, tenta explicar-me como funciona o email. Para simplificar as coisas e reduzir as demoras, é ela própria que, ao domingo, depois de almoço, enquanto a tarde cai, passa estas memórias para o computador. Ao longo do último ano (já não sei em que mês) desistiu, finalmente, de me sentar em frente a esse computador. Seria um esforço inútil: no século da inteligência artificial sou um sobrevivente do tempo em que ainda duvidávamos da inteligência humana. Continuo a escrever devagar, à mão, com a compenetração de um contabilista do século passado que utiliza canetas de três cores diferentes para desenhar os seus balancetes – com a diferença de que, agora, a tinta vem de uma papelaria de Braga que tenta seduzir-me, à distância, enviando-me catálogos de canetas que já não precisam de mata-borrão.
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