Do primeiro ao último dia de cada ano podemos esperar as coisas do costume: catástrofes naturais, repentinas alterações do equilíbrio das almas que nos rodeiam (geralmente na direcção do abismo, comprovando o que há muito se sabe sobre a natureza humana) e, além de súbitas mudanças de meteorologia, a morte. Tenho falado com abundância de duas destas matérias e poupado os meus benevolentes leitores a conversas sobre o último tema, de que não sei falar senão para repetir o aviso do velho Doutor Homem, meu pai, acerca da velhice: que é um termo de identidade e residência para que o destino venha colher-nos quando entender. Passados vinte anos, recordo agora as minhas primeiras crónicas, escritas com a timidez de um aventureiro que não sabe que o é. Primeiro, a substituição do lápis Viarco pela caneta Parker que pertenceu ao velho Doutor Homem, meu pai; depois, a substituição do correio normal pelo fax; depois, a intromissão da minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, que, uma vez por outra, tenta explicar-me como funciona o email. Para simplificar as coisas e reduzir as demoras, é ela própria que, ao domingo, depois de almoço, enquanto a tarde cai, passa estas memórias para o computador. Ao longo do último ano (já não sei em que mês) desistiu, finalmente, de me sentar em frente a esse computador. Seria um esforço inútil: no século da inteligência artificial sou um sobrevivente do tempo em que ainda duvidávamos da inteligência humana. Continuo a escrever devagar, à mão, com a compenetração de um contabilista do século passado que utiliza canetas de três cores diferentes para desenhar os seus balancetes – com a diferença de que, agora, a tinta vem de uma papelaria de Braga que tenta seduzir-me, à distância, enviando-me catálogos de canetas que já não precisam de mata-borrão.
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No século da inteligência artificial sou um sobrevivente do tempo em que ainda duvidávamos da inteligência humana
O Tio Alberto gostava de café “con unas gotitas” e tomava-o nessas peregrinações plebeias pela Galiza.
Achava que os rios eram interessantes consoante a temporada da lampreia ou da truta
Por sermos leais ao passado, não há escolha quando se trata de boa educação.
Era bom para peregrinos de Castro Laboreiro ou frades eremitas de Rendufe.
Não gostava de nêsperas e tinha um certo desprezo por legumes no prato, tratando-os como um apenso decorativo.
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