Não tenho posição definida nem definitiva sobre a eutanásia, mas admito que, em situações terminais e de sofrimento intolerável, exista a possibilidade de interromper tratamentos médicos que mantêm a vida de forma artificial e para lá daquilo que é o limite da dignidade de existir. Por isso é importante ouvir a reportagem de João Francisco Guerreiro, correspondente da TSF em Bruxelas, transmitida ontem à tarde naquela estação de rádio; e, nela, escutar (não apenas ouvir) Verónica Rocha, enfermeira portuguesa a trabalhar na capital belga. A sua descrição da eutanásia de uma mulher saudável de 70 anos impressionou-me. As despedidas. As lágrimas da filha, que pede para voltar atrás. A frieza do médico. As lágrimas de Verónica, que nunca mais quer preparar uma eutanásia. A solidão da mulher que enfrenta o vazio e quer morrer. "Despeça-se da sua mãe", diz o médico, cumprindo o preceito legal.
Corri a telefonar aos meus pais. Aos meus filhos. A ver o mar. Uma pessoa saudável decide morrer: as pessoas despedem-se como se fechassem a porta a uma espécie de vento.
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Citação do dia
"A arrogância de Draghi já é a de quem quer arrumar a casa dos outros"
Eduardo Dâmaso ontem, no CM
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Sugestão do dia
Arte - Quase no final de ‘Um Postal de Detroit’ (D. Quixote), João Ricardo Pedro escreve: "Hoje é o dia em que um pássaro entrou cá em casa". Há momentos assim neste livro – é por eles que se fala em arte.
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