Carlos Anjos
Presidente da Comissão de Proteção de Vítimas de CrimesTeve lugar ontem em Almeirim, uma importante Corrida de Toiros, onde se assinalou a tomada de alternativa de João Salgueiro da Costa, que passava nesse dia a Cavaleiro Profissional, num cartel onde se previa o confronto de duas importantes famílias de toureiros, as famílias Ribeiro Teles e Salgueiro. Duas autênticas dinastias, talvez as mais importantes e as mais antigas dinastias em Portugal.
Prometia pois o cartel. Infelizmente o público não correspondeu ao chamamento e ao esforço do empresário Paulo Pessoa de Carvalho, que fez um enorme esforço para montar esta corrida e este cartel. E nada fazia esperar este afastamento do Público. Um bom dia, ameno, numa zona de aficionados, no coração do Ribatejo, perto das sedes destas duas dinastias, Valada do Ribatejo e Coruche, uma das primeiras corridas de toiros que se realizava naquela zona, um bom curro de toiros, ou seja, todos os condimentos para uma boa casa. Infelizmente não foi isso que aconteceu e a organização não o merecia.
Mas vamos à corrida.
João Salgueiro da Costa tomou alternativa das mãos do seu pai, o cavaleiro João Salgueiro, e na presença do seu primo, o também cavaleiro de alternativa, António Lopes Aleixo, afastado das arenas há muitos anos, mas que se fardou a rigor para testemunhar presencialmente a alternativa do seu primo. A testemunhar este ato, encontrava-se na barreira, o seu avô, Fernando Andrade Salgueiro, também ele cavaleiro de alternativa. Foram ainda testemunhas os cavaleiros António Ribeiro Teles e o seu sobrinho João Teles Júnior. António Ribeiro Teles, o cavaleiro mais antigo e por isso o Diretor de Lide, cedeu então a sua posição de abrir a corrida, permitindo que o novo cavaleiro de alternativa abrisse praça.
E João Salgueiro da Costa abriu praça. Nesta sua primeira atuação como cavaleiro profissional, saiu-lhe o Toiro "Pataco" com 4 anos de idade e 500 kg de peso. Uma lide de mais a menos. Colocou três ferros compridos de boa nota, principalmente os dois primeiros. Depois com os curtos e com o toiro mais reservado, começaram os problemas, principalmente com os cavalos que se negavam a fazer o que o cavaleiro queria. Abriam o quarteio demasiado cedo, mostravam o caminho ao toiro e este adiantava-se criando problemas ao cavaleiro. Mesmo assim, esteve valente, a colocar aquilo que os seus cavalos não tinham. Um último ferro de boa nota, a entrar pelo toiro dentro, a mandar literalmente o cavalo para cima do toiro. A vontade de estar bem era grande, mas os seus pares (cavalos) não têm nem a sua qualidade, nem a sua coragem.
Para a pega deste 1.º da tarde, saiu o futuro cabo dos Amadores de Santarém, o forcado João Grave. Entrou mal na cara do toiro, mas a sua experiência e qualidade permitiu-lhe corrigir, e fechar-se na cara do toiro, resolvendo o problema à 1.ª tentativa. Volta para cavaleiro e forcado.
O segundo da tarde, um Grave de 580 kg, o mais pesado da corrida, saiu a António Ribeiro Teles. O toiro apesar do peso, saiu com pata e com codícia atrás do cavalo. Inexplicavelmente, um dos bandarilheiros da quadrilha de António, correu desenfreadamente pela praça de capote na mão procurando parar o toiro, ouvindo-se os primeiros assobios, de um público que queria ver o António a tourear e não o seu bandarilheiro a dar capotaços. E o público tinha razão; ao segundo capotaço o toiro saiu solto e colheu violentamente António junto à porta dos cavalos. António acusou o toque, num toiro sério e a pedir contas. Andou razoável nos compridos, tendo conseguido libertar-se daquele toque nos curtos. Aqui cravou três ferros curtos, todos com a marca da torrinha, com a sua marca. Uma lide razoável, sem nada de fora do normal.
Para a pega deste 2.º da tarde, saiu o forcado João Romão. Forcado experiente, mandou na sorte, toureou o toiro e fez parecer fácil, aquilo que era difícil. Uma boa pega à primeira tentativa. Volta para cavaleiro e forcado.
E por fim, João Salgueiro. Todos queriam que corrige o que se havia passado no Campo Pequeno e que demonstrasse que o génio estava de volta. E a coisa volta a começar mal. O toiro que lhe estava destinado, um bonito grave com 510 kg, saiu inferiorizado dos curros, tendo de ser substituído. Foi decidido manter a mesma ordem, e assim saiu o 2.º toiro destinado a João Salgueiro, um Grave com 505 kg. João esteve francamente melhor que no Campo Pequeno. Voltou a ver-se um querer enorme, uma vontade, viu-se um Salgueiro a rir. Cravou dois compridos de boa nota e mudou de cavalo. Os dois primeiros curtos são de boa nota, a entrar bem pela cara do toiro. Depois um problema; um festival de toureio a capote do seu bandarilheiro J. Oliveira. Uma coisa inexplicável. Tantos lances de capote entre ferros, retiraram investida ao toiro, e obrigou o cavaleiro a ter que tourear mais em curto. E aqui começou o problema de João Salgueiro. Os seus cavalos não conseguem tourear em curto. Começou a abrir o quarteio muito cedo e o toiro começou a adiantar-se. Os dois últimos ferros curtos são já em esforço e João, experiente, viu o problema e negou o pedido de mais um ferro do público e retirou-se.
Para a pega deste 3.º da tarde, novamente os forcados de Santarém, tendo sido chamado à cara Lourenço Ribeiro. Um grande forcado a atravessar um grande momento. À primeira tentativa fechou-se na cara do toiro, mas este com um derrote violento, conseguiu retirar o forcado. À segunda tentativa, Lourenço Ribeiro fechou-se com braços e mãos de ferro, de nada valendo os esforços do toiro para o tirar da sua cara. Uma dura pega de um grande forcado. Volta para cavaleiro e forcado.
A João Teles Júnior saiu o 4.º, da tarde, um Grave com 555 kg. E Teles Júnior mostrou que naquele cartel, ele era de outro campeonato, falava uma língua diferente. Ele e os seus cavalos, diga-se. Começou com dois bons compridos. Pelo meio, falhou a colocação de um ferro comprido, naquele que foi o seu único erro. Depois, foi buscar o cavalo "Ojeda", e o recital começou. Teles Júnior e o Ojeda formam um único ser, uma unidade. Parece que o cavaleiro sabe o que pensa o cavalo e este advinha o que o seu dono quer. Foram seis ferros de excelente qualidade, sendo os dois últimos soberbos. Triunfo absoluto. Na atuação de Teles Júnior houve o que o público quer e gosta; temple, tourear devagar, reuniões cingidas, remates, em suma, houve muita classe de cavaleiro e cavalo.
Para a pega deste 4.ª da tarde, saiu o forcado Francisco Borges dos Amadores de Montemor. Francisco Borges é hoje um dos melhores forcados nacionais, e habituado a ser uma espécie de forcado das "bombas" daquele que vai para a cara dos toiros que mais ninguém quer, até deve ter achado este uma pérola. Citou muito bem, mandou na sorte, e fechou-se com ganas, consumando uma excelente pega, de um grande forcado. Volta merecida para Teles Júnior e para Francisco Borges, que mereciam ter sido chamados aos médios no final.
Depois do intervalo, a corrida recomeçou com 0 5.º da tarde. António Ribeiro Teles recebeu o Grave de 505 kg, naquele que foi talvez o toiro mais reservado da tarde. Cravou dois compridos razoáveis, e mudou de cavalo. Nos curtos e com um toiro reservado, bregou bem, tendo conseguido trazer sempre o toiro na garupa do cavalo. Cravou três curtos de boa nota, mas em reuniões muito rápidas tirando emoção à sorte. António arrimou-se, foi verdadeiro, toureou como deve ser, mas falta emoção, falta temple, falta remate. António demonstrou claramente que é de facto um enorme toureiro, mas nesta fase da sua carreira, consegue com a sua garra, a sua arte, a sua coragem e a sua enorme experiência esconder que de facto, a sua quadra de cavalos já teve melhores dias. Falta-lhe aquele cavalo, o cavalo dos êxitos.
Para a pega deste 5.º da tarde, saiu o forcado Luís Sepúlveda dos Amadores de Santarém. Anunciava-se uma pega difícil, ao Grave mais reservado e que no capote metia sempre a cabeça por cima. Confirmou-se esses receios. Um toiro duro, que assim que sentia o forcado na cara, derrotava violentamente e sempre muito alto. Luís Sepúlveda consumou a pega à 3.ª tentativa, já com as ajudas muito carregadas, para não deixar o toiro derrotar por cima. Volta para o cavaleiro. Apesar de autorizado, o forcado recusou-se a dar a volta. Novamente uma demonstração de enorme dignidade da rapaziada da jaqueta.
O 6.º da corrida, um Grave de 500 kg, saiu para João Salgueiro. E infelizmente tivemos um João Salgueiro próximo daquilo que havíamos visto no Campo Pequeno. E isso viu-se assim que ele saiu à arena, de cara muito séria, sem aquele sorriso traquina e marota que lhe costumávamos ver nos momentos de génio. Dois ferros compridos banais, sendo que aquando da cravagem do 2.º ferro comprido, sofre um forte toque na montada, o que ainda o condicionou mais. Bom, depois assistimos a um festival de capote dos bandarilheiros J. Oliveira e J. Alegria. Uma coisa nunca vista. Salgueiro mudou de cavalo, e desde cedo se viu que o cavalo não queria nada com o toiro. Com tantos lances de capote, o toiro foi perdendo a investida e logicamente, foi-se fechando e dificultando a vida ao cavaleiro, que para cravar os ferros tinha de se chegar mais e mais ao toiro, algo que nunca foi a vontade do cavalo. Salgueiro despachou a ferragem da ordem, sem qualquer tipo de glória ou sequer história. Vê-se que o génio está lá. A vontade está lá, mas sem companheiros de lide, qualquer triunfo é impossível. João Salgueiro quer pelo seu valor, quer pelo seu génio, não pode tourear com aquela quadra. Não há milagres. Para a pega, saiu o forcado Manuel Dentinho dos Amadores de Montemor. À primeira não esteve bem e o toiro atirou-a para fora. À Segunda tentativa, toureou o toiro, trouxe-o á voz e consumou uma grande pega. João Salgueiro apesar de autorizado pelo Diretor de Corrida, não quis dar a volta. Novamente um grande gesto do forcado e de enorme dignidade. Sem o cavaleiro agradeceu nos médios e saiu.
Para João Teles Jr., saiu o 7.º da tarde, um Grave com 510 Kg. E Teles Júnior voltou a armar o taco. Voltou a dizer que a figura era ele, e que estava ali para arrasar. E arrasou. Depois de dois compridos regulares, trocou de cavalo e a coisa voltou a mudar de figura. Uma lide em grande. Teles Júnior sabe tudo de toiro e de cavalo, bem como de toureiro. Toureia com temple, com calma. Acelera apenas quando tem de acelerar. Entre os ferros, deixa quer o seu cavalo, quer o toiro respirar e descansar. Dois curtos de grande qualidade com batida ao piton contrário. Depois e porque o toureio não pode nem deve ser sempre igual, cravou mais dois curtos, dando todas as vantagens ao toiro, a abrir o quarteio muito em cima do touro e reunindo com temple, com calma e muito cingido ao toiro. Retirava-se como triunfador absoluto a léguas de distância de todos os outros. Mas o público não deixou; queria mais um ferro. Teles Júnior muda de cavalo, e crava um bom violino, ferro que fez levantar a Praça. Triunfo absoluto. Para a pega deste 7.º da tarde, saiu pelos Amadores de Santarém o forcado António Goes. Citou com estilo, mandou na sorte e efetuou uma pega tremenda, daquelas que ficam de recordação. Uma grande pega em qualquer lado. Volta para cavaleiro e forcado.
A Salgueiro da Costa saiu o 8.º da tarde, já a corrida ia longa e o público estava a ficar impaciente. Um Grava com 510 kg, que não facilitou, já que pedia messas ao toureiro. Salgueiro da Costa também não demonstrou ter na sua quadra de cavalos alternativa para fazer face a estes toiros. Cravou a ferragem da ordem, sem que tenha ficado algo para recordar. Para a pega saiu o forcado João da Câmara pelos Amadores de Montemor. Dedicou a pega ao seu avô Vicente da Câmara, recentemente falecido e que horas antes havia sido sepultado em Lisboa. Um dia difícil para o forcado. Inspirado por qualquer arte divina, João da Câmara, arranca uma pega fabulosa, talvez a melhor da tarde. Uma pega onde se notou que o forcado queria ficar fosse de que forma fosse. Esteve Grande João da Câmara. João Salgueiro da Costa recusa a volta, volta dada apenas pelo forcado João da Câmara.
Desta enorme tarde de toiros fica a confirmação de João Ribeiro Teles Júnior como uma das primeiras figuras do toureio a cavalo em Portugal, toureio que pode ombrear com qualquer outro cavaleiro em qualquer praça por esse mundo fora. Fica ainda a excelência do curro de toiros apresentado pelo Eng.º Joaquim Grave. Oito excelentes exemplares, com cara e com trapio, a pedir peças aos toureiros. Fica ainda a certeza que João Salgueiro da Costa tem valor e génio, mas para se afirmar como figura de relevo na tauromaquia lusa, tem obrigatoriamente de reforçar e renovar toda a sua quadra de cavalos. Dois grandes grupos de forcados e um esforço do empresário em montar uma corrida de toiros interessante e que chamasse público.
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