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Carlos Anjos

Carlos Anjos

Presidente da Comissão de Proteção de Vítimas de Crimes

Quando o sentimento mata

17 de setembro de 2026 às 00:30

Aprendi na PJ, que o ser humano mata, essencialmente, por duas grandes razões: dinheiro e sentimentos. Na base de um homicídio está uma destas razões, ou as duas. Uns matam para obter algo, outros matam porque sentem. E, entre esses sentimentos, encontramos o amor, o ódio, a paixão, a posse e, tantas vezes, o ciúme. E é no interior da família e nas relações de intimidade que esta realidade assume uma dimensão trágica. Aquilo que deveria ser um espaço de afeto, proteção e confiança, transforma-se em determinadas circunstâncias, no cenário do crime mais brutal. O ciúme ocupa aqui um lugar particularmente perturbador. Quando deixa de ser uma manifestação passageira de insegurança e se transforma em sentimento de posse, controlo e domínio sobre o outro, pode alimentar comportamentos violentos e, em situações limite, conduzir ao homicídio. Como escreveu Rubem Alves, o ciúme pode nascer da ideia de que se ama aquilo que, na verdade, se pretende possuir. E talvez esteja aí uma das grandes contradições das relações humanas: confundir amor com propriedade, afeto com controlo e perda com direito à vingança. Compreender estas emoções não significa desculpar o crime. Significa procurar perceber como sentimentos humanos podem, quando associados à posse e à violência, transformar-se numa das suas expressões mais brutais.

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