Vivo um tempo em que quase nada me espanta, mas no qual ainda muita coisa me choca. Uma época em que qualquer iletrado é influenciador e condutor de manadas de seguidores, em que vociferadores sem noção de harmonia são considerados cantores, em que os mais desengonçados e desemparelhados figurantes chegam a estrelas de elencos e em que um ajuntamento de frases que terminam (por vezes) com um ponto de interrogação é considerado uma entrevista.
Nelma Serpa Pinto já mereceu os meus maiores elogios em janeiro do ano passado quando teve a missão de ser peça central das emissões da SIC Notícias no Congresso do PS e na Convenção do Chega. Parecia estar a nascer uma pivô com um futuro radioso à sua frente. Apercebo-me agora de que fui demasiado generosa ou precipitada na apreciação das suas capacidades e talento. Há dois meses, quando lhe ouvi a “pergunta mais estúpida do ano”, ainda lhe dei o benefício da dúvida (recordo que num debate sobre a necessidade de reforço dos investimentos em defesa por parte dos Estados europeus ela se lembrou de perguntar: “E depois desse investimento todo: se não há guerra?”), mas depois de ver a sua inquirição a Pedro Nuno Santos morreu em mim o que via de diferenciado na Nelma.
Nada tenho contra uma pose mais aguerrida perante os entrevistados. Sobretudo quando eles são candidatos a serem nossos governantes, creio que quanto mais perguntas difíceis lhes forem colocadas melhor ficamos todos em termos de conhecimento de pessoas e ideias. Mas o pressuposto é existir inteligência nas perguntas e capacidade de ouvir as respostas antes de as procurar infirmar ou de articular uma nova ideia na pergunta seguinte. Nelma entrou no diálogo com Pedro Nuno Santos para confirmar uma tese que era a sua. Ora, quem quer validar uma sua tese pode escrever um editorial se tiver responsabilidades que o facultem, assinar um artigo de opinião caso sinta que o seu pensamento tem o mínimo de densidade, ou discutir em tertúlia com os amigos para o caso do mesmo pensamento ser mais fluido... mas não deve usar uma entrevista para o ostentar. É curioso como se vê no episódio de Zelensky na Casa Branca uma emboscada e não se vislumbra neste tipo de interrogatórios televisivos uma tentativa similar.
Todo o questionário foi penoso: a jornalista perdida na sua tentativa de fazer sangue e o entrevistado a procurar manter a serenidade, mas claramente a dar o seu tempo por mal gasto. A incapacidade de Nelma dar substância às suas questões ou de transparecer um raciocínio que denotasse alguma coerência fez com que a entrevistadora parecesse estar à procura de ser, ela mesma, a protagonista de um qualquer ‘soundbite’, ao passo que para Pedro Nuno Santos estava reservado o papel de incrédulo espectador desse quadro de miséria.
No final, Nelma estava visivelmente descompensada, quem sabe por ter tido a noção de ter assinado a sua sentença de autocondenação ao estatuto perpétuo de mera carinha laroca, e rematou, entre dentes, com a frase: “Deu-me várias lições!”
Reza a história que Galileu, no final do julgamento que o condenou, terá murmurado “E pur si muove!”, ou “e, no entanto, ela move-se”, como forma de não se resignar ao que tinha acabado de lhe suceder. Ocorreu-me essa memória quando ouvi a Nelma Serpa Pinto a encerrar a entrevista a Pedro Nuno Santos. Só que em Galileu a frase mostrava a ousadia da inteligência de um homem sábio a contestar perante a força bruta e em Nelma não notei senão o atrevimento da ignorância de uma miúda pespineta a resmungar ao serviço da força bruta.
Liga Idália
A grande novidade da semana passada foi a de que a SIC foi líder nos serviços noticiosos dos canais generalistas em todos os dias e nos dois horários: almoço e jantar. É de facto uma proeza assinalável e uma prova do progressivo declínio da TVI, que está a começar a pagar o preço da saturação de reality shows que, assim, deixam de ter capacidade para alicerçar bons números. Na Liga Idália, em si, o ‘Telejornal’ relegou o ‘Jornal Nacional’ para a última posição em dois dias e foi ultrapassado pelas notícias de Queluz de Baixo noutros três.
Esta cara não me é estranha
Estava a ver a SIC Notícias e apareceu este comentador de futebol e eu fiquei
a matutar que o conhecia de qualquer lado. A cara não me era estranha, mas não estava a conseguir associar de onde o conhecia. Depois fui ao Google e descobri que ele era o mesmo Pedro Henriques que costumava falar de futebol na Sport TV. Agora, com a passagem para a SIC, olho para ele e fico com a ideia de que vai inaugurar uma nova modalidade de comentário: o ‘futebotox’.
A virtude do erro
Um perfeito anormal que faz vídeos nos quais glorifica os seus amigos que se gabam de abusos e enaltecem consumo de drogas teve o seu tempo de antena na TVI e na CNN Queluz de Baixo. O meu aplauso vai para quem fez o grafismo com um erro ortográfico que me permite usar esta imagem e, a partir desse pretexto, desancar o ‘influenciador’ que agora anda choroso nas notícias, mas que se ria de uma forma tão grotesca quanto o seu ar de idiota das alarvidades bolsadas pelos cobardes da sua laia.
Os números da RTP
As sondagens da RTP são como as tarifas de Trump: ninguém as percebe, mas toda a gente vê que estão erradas. Eis aqui uma sobre as Presidenciais em que a soma de quatro candidatos totaliza 166%! Se calhar sou eu que estou desatualizada e os boletins de voto das Presidenciais vão ser de escolha múltipla, no sentido de permitirem votar em diversos candidatos. Para já retenho a facilidade com que João Adelino Faria debita uma informação que não faz qualquer sentido sem pestanejar.
Rir para não chorar
Não dá mesmo para levar a sério esta CNN Queluz de Baixo. Chegámos agora ao ponto de que até o Quaresma que apresenta as notícias já merece maior credibilidade do que a informação gráfica que ilustra as mesmas. “Manifestações no sémen” serão exatamente o quê? Espermatozoides revoltados? Ou outras excitações que eu, como mulher, não consigo alcançar?
Mais um quadro para a galeria
Vejo as entrevistas deste moço e não consigo evitar que elas me transportem para o universo das artes plásticas. As conversas são uma treta, apesar de viverem muito da tensão criada quando se juntam suspeitos a condenados, mas os quadros que elas compõem são francamente inspiradores. Como este de hoje, que se podia chamar ‘O aprendiz e o mestre’ e que deixaria no observador a incógnita sobre quem seria quem...
Mais uma da “Culta e Adulta”
O ‘Cantinho da Paixão’, também conhecido como RTP 2, continua a dar uso ao dinheiro dos nossos impostos com ideias fabulosas. Numa das mais recentes, foi criado um programa que vai pela madrugada afora a fazer companhia aos incautos que frequentem as suas emissões. A coisa estreou a 1 de abril e durante duas horas e 50 minutos da sua exibição teve zero (leu bem, zero!) telespectadores. Nos restantes dez minutos contou com cerca de 500 pessoas a assistir. Uma delas fui eu, e trouxe esta pérola: no quiz de cultura geral é assegurado que Norman Foster foi o arquiteto da Casa da Música. Está errado! Mas ninguém leva a mal à Paixão e sua equipa de iluminados que confundam um pepino com a Casa da Música. Até porque, possivelmente, são mais especialistas em pepinos do que em televisão.
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