Havia alturas em que bastava carregar no play para que o mundo, que parecia ter perdido a cor desde o início da vida adulta, ganhasse outra vez tons para além do cinza. Acontecia-me com algumas músicas e com alguns artistas, sobretudo aqueles em quem eu mais me revia. Parecia que cantavam para mim, como se soubessem exatamente o que eu precisava de ouvir. Foi esse mix de emoções que senti da primeira vez que ouvi The College Dropout. Apesar de o hip hop nunca ter sido bem a minha praia, percebia que ali não era apenas boa música. Era uma espécie de chamamento ao meu melhor lado. Mesmo nos álbuns que se seguiram, ouvir Kanye West, nessa época, era acreditar que, independentemente do resultado, já éramos vencedores na vida só por tentar fazer diferente. O álbum ‘Graduation’ reforçou-me essa convicção. Havia ali uma energia contagiante, que nos fazia sentir maiores do que as nossas circunstâncias. Não terminávamos em nós próprios, mas sim na nossa crença. Eram músicas ideais para pessoas como eu, que sempre gostaram de sonhar com os pés ligeiramente acima do chão. Como já tive oportunidade de escrever num artigo anterior, houve um ponto em que a genialidade começou a confundir-se com a loucura. As polémicas sucederam-se, os comentários antissemitas chocaram o mundo e a imagem do artista foi-se deteriorando a cada declaração fora de tom. Kanye levou ao limite a velha questão de separar a arte do artista, apesar de, já em janeiro deste ano, ter publicado um pedido de desculpas no ‘Wall Street Journal’. Foi nesta amálgama de sentimentos que, no passado dia 28 de março, chegou ‘Bully’, o seu décimo segundo álbum. Confesso que o disco, com dezoito faixas, me surpreendeu pela positiva, talvez por parecer recuperar aquilo que marcou os seus melhores trabalhos - como os samples de soul. Há quem diga que consegue ouvir ecos de álbuns como o ‘808s & Heartbreak’ e o icónico ‘My Beautiful Dark Twisted Fantasy’. De todas as faixas, para mim, merece destaque ‘Father’, com Travis Scott. O videoclipe, dirigido pela sua mulher, Bianca Censori, decorre numa igreja, filmado num único plano. Há várias referências ao longo do vídeo. Entre elas, Kanye surge sentado no primeiro banco, imóvel, de olhar vazio, até lhe ser removida a face, revelando que é um alien - naquilo que entendo ser um simbolismo de que o cantor não pertence a este planeta. Um padre entra de forma teatral, enquanto a polícia irrompe para levar uma freira adormecida. Aparece também uma criança, ao lado da sua mãe - o que eu julgo ser Kanye em jovem. O caos desenrola-se enquanto o padre celebra a missa, sem que ninguém na congregação se espante. Na última fila, um sósia de Michael Jackson limita-se a observar tudo, sozinho. O vídeo termina com quase todos a abandonarem a igreja, enquanto um homem sereno, humildemente vestido, entra a carregar a cruz de Cristo. Esta foi a minha interpretação, mas há vários detalhes que não menciono e cujo sentido fica à mercê da leitura de cada um. Mesmo a letra é enigmática. Kanye despede-se do que chama o seu “velho eu” e apresenta uma versão renovada de si próprio. Porém, quem o acompanha sabe que as vezes consegue ser um génio e autodestrutivo em simultâneo. Por isso, se em ‘Bully’ nos diz que um deles partiu, fica no ar saber qual dos Kanye é que se foi embora e qual é que ficou.
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