Paulo Portas demitiu-se de presidente do CDS, ao qual dera alma nova e outro desígnio. Apôs-lhe a sigla PP, abreviatura de Partido Popular e, estranhamente, a mesma do seu nome, derreteu o princípio de democracia-cristã, para que fora criado, e abandonou-se a um demo-liberalismo obsoleto e desacreditado.
Pelo caminho atropelou Manuel Monteiro e o pobre Luís Nobre Guedes (Nobre que, segundo o Marcelo, é excrescência para dar nas vistas, é só Luís Guedes), o qual chorou copiosamente com a desgraça; e intrigou-se com o próprio Marcelo, numa história sonâmbula que mete vichyssoise e umas sandices.
Dera ao CDS o tom e o estilo seus, pessoais e únicos, e arregimentou uma série de moços ambiciosos, pouco atinentes com a ideologia e muito propensos aos fascínios do dinheiro, do emprego e do poder. A época do vazio foi propícia a essa onda inescrupulosa. Os velhos fundadores do CDS afastaram-se, ou foram afastados com zelo e inclemência.
Mas o fim tinha de chegar. Chegou agora, com a assunção de um novo tipo de parlamento, e o fim de uma coligação oscilante com os humores e os caprichos de Portas. Este percebeu que um partido módico e pouco consistente, como o que fizera renascer, não se aguentaria na tempestade. Antes que a humilhação atingisse o desprezo, tomou a última precaução.
Por outro lado, Passos Coelho vivia momentos muito delicados, com o mal-estar dos seus ‘companheiros’, finalmente decepcionados com a deriva direitista do PSD, e inclinados a rever-se no ‘centro’. O verbo ‘recentrar’ entrou no vocabulário do partido, ao perceber que o novo Governo estava para durar, depois das mexeriquices políticas sobre a ‘legitimidade’ ou não de António Costa ser primeiro-ministro, e a seguir à decisão do dr. Cavaco ‘indicar’ e não ‘indigitar’.
O CDS está destinado a ser um sobressalente, um partido rémora, que viverá sempre a expensas de outro, maior e mais poderoso. Portas criou a ilusão do contrário, e tristes jornalistas, em carência de imaginística, sustentaram a ideia de que o CDS era um ‘partido de poder’. Só de braço dado com outro, e tal qualquer outro da sua dimensão. Viu-se.
A história recente demonstra que no xadrez político tudo é possível. Até as soluções aparentemente mais imponderáveis. O CDS estrebucha.
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