António acabara de fazer o check-in quando foi projectado pela explosão. Não via nada, por causa do fumo, mas distinguia os corpos espalhados. Começou a chorar. Um estranho dirigiu-se a ele. Não o conseguiu ouvir, ainda tinha os ouvidos a tinir. Fez um esforço. O estranho dizia: "A chorar, pá? Então e os mortos no atentado no Mali? Choraste? É o choras!" António soluçava: "Ajuda-me a encontrar o meu amigo Pedro! Olha, ali está! Não, afinal são só as pernas. Onde estará o resto?" Continuou o estranho: "Procuras meia vítima aqui com mais vontade do que uma vítima inteira na Nigéria!"
Este relato, caro leitor, não é verídico. Desta vez. Mas está quase, quase. Quando, 5 minutos depois de saber do atentado, fui à internet procurar informações, já havia posts recriminatórios: "Aposto que no atentado da Turquia demoraste mais tempo a vir aqui. Racista!"
Esta reacção pavloviana de comparar o caudal das lágrimas entre tragédias locais e no resto do mundo, é uma atitude que casa bem com a costumeira culpabilização do Ocidente. Tipo esta: "Tal como a pobreza, a fome (…), também o terrorismo é resultado da acção dos NOSSOS governos", publicada pelo deputado do PCP, Manuel Tiago, no seu Facebook.
Deixemos de parte a ideia de que só na vigência dos NOSSOS governos é que há pobreza, fome, etc. Foquemo-nos no Facebook. Exacto. No Facebook. MT condena o Ocidente, o capitalismo e a democracia liberal, justamente numa rede social online que só é possível ter sido criada no Ocidente capitalista e democrático. É como usar um berbequim para montar o palanque onde se vai discursar contra a Black&Decker. Faz lembrar aqueles rebeldes que são ocupas de 2ª a 5ª mas ao fim de semana vão a casa dos pais lavar a roupa, levantar a mesada e buscar tupperwares com papinha.
Estas duas críticas são parte da tese que culpa o eurocentrismo pelos males do mundo. Culpar o eurocentrismo pelos males do mundo que é, curiosamente, a posição mais eurocêntrica de todas. Para já, porque assenta no complexo de culpa judaico-cristão, raiz da cultura europeia. Depois, porque nega aos muçulmanos a responsabilidade de decidirem por eles, sem serem coagidos pelo Ocidente. São mini-pessoas, menos que nós.
O corolário é a afirmação: "Atenção, estes bombistas não são muçulmanos!" Ou seja, há europeus, brancos, comedores de bifanas, que decidem quem pode ou não ser islamita. Melhor definição de paternalismo só mesmo a que está no dicionário Priberam: "s.m. Benevolência condescendente no exercício da autoridade."
Se calhar devíamos mandar missionários para Meca, evangelizar bons muçulmanos. (Aproveitávamos e espalhávamos a informação dada por uma das sobreviventes de Bruxelas. Diz que, depois da bomba, ficou no ar um cheiro a porco tostado. Talvez isto dissuada futuros terroristas islâmicos.)
-----
Acabe-se com o discurso de pódio
"Discurso de ódio" é tudo o que sugira que "uma pessoa ou um grupo são superiores a outros". Ou seja, é "discurso de pódio". Dizer "os burocratas da UE são os melhores do mundo a restringir liberdades", discrimina outros burocratas castradores. A frase correcta é: "os burocratas da UE são tão bons quanto outros burocratas a restringir liberdades."
Será também o fim da imprensa desportiva, já que publicar classificações de equipas é afirmar que há grupos melhores que outros.
-----
O giro de limitar a liberdade
Entretanto, uma procuradora do DIAP do Porto abriu um inquérito ao comentador Pedro Arroja por, ao chamar "esganiçadas" às deputadas do BE, poder ter praticado "crime de discriminação sexual". Para efeitos legais, afirmo que o inquérito podia igualmente ter sido aberto por um procurador, que seria igualmente tolo.
Parece que ser mal-educado é crime. Um dia, ser bem-educado e, por exemplo, abrir a porta a uma mulher, também será.
-----
17 milhões em táxis: Dá para ir ao aeroporto ao Rossio, via Sintra
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
Não gostava do Generalíssimo como não gostava do dr. Salazar, o que várias vezes se apresentou ser um problema para a família
Um conjunto sistematizado de princípios e normas que prescrevem direitos e deveres recíprocos
Afinal de que adiantam dias de descanso se tivermos fome e sem casa para morar?
Sem intermediação religiosa
O mais urgente: remeter ao MJ as propostas da regulamentação em falta, para aprovação.
Olhamos para o lado e vemos o Governo espanhol a apoiar famílias e empresas