Segundo a direita, ganhou porque manteve a austeridade combinada com a troika. Limitou-se a camuflá-la, como um cozinheiro disfarça a carne estragada em croquetes, para ser menos indigesta aos parceiros de Governo. A eleição de Centeno é uma validação das políticas europeias. E, de qualquer maneira, presidir ao Eurogrupo até é uma despromoção, porque basicamente é só um secretário que tem de passar a folha de presenças e redigir actas.
Já para o PS, a eleição de Centeno é a prova de que a Europa admite que há outra alternativa, a inventada por este Governo, que é superior às outras soluções. Presidir ao Eurogrupo é prestígio e, em menos de nada, Centeno vai ensinar os outros países o que fazer para alcançarem os resultados espantosos que Portugal alcançou. Centeno obrigá-los-á com o seu bastão mágico de Presidente do Eurogrupo. Ou com estereótipos étnicos ofensivos.
Qual das duas hipóteses é a correcta? Antes de responder, cabe-me informar que, por uma estranha coincidência (daquelas que dão imenso jeito para escrever crónicas), no mesmo dia da eleição de Centeno faleceu Christine Keeler.
No início da década de 60, Keeler foi amante de John Profumo, secretário de Estado de Guerra inglês, e de Yevgeny Ivanov, adido soviético em Londres. No auge da Guerra Fria não era bem visto que um membro de um Governo ocidental partilhasse namorada com um espião russo. À conta da polémica, o Governo britânico acabou por cair.
Keeler é uma espécie de Centeno com melhores pernas, mas sorriso não tão enfeitiçante. Tal como Centeno, a sua chegada ao estrelato levanta questões. A que se deveu o protagonismo de Keeler? Seria uma informante ao serviço de um governo conservador? Ou uma agente dupla a soldo dos comunistas?
Para mim, a hipótese mais provável é outra. Keeler chegou onde chegou porque tinha estupendas mamas. Ou seja, Keeler não foi instrumentalizada por ninguém, usou os seus atributos em proveito próprio. Como, julgo, Centeno terá feito. Não com os seus seios (sofríveis, pelo que é dado a ver), mas com o seu brilhantismo.
No fundo, a eleição de Centeno não é uma vitória da esquerda, nem da direita. É uma vitória dele. Mas em Portugal temos grande dificuldade em aceitar que um de nós foi escolhido pelo mérito, porque é quem faz as melhores contas no meio daqueles super-contabilistas. Aceitá-lo é admitir que não teve nada que ver com o acaso de ter nascido no mesmo espaço geográfico que nós.
As reacções à eleição de Centeno provam uma característica nossa que o seu antecessor tentou captar, sem sucesso. Nós não gastamos o dinheiro todo em copos e mulheres. Sucede que somos um povo em que basta um de nós beber copos ou passar uma noite com mulheres para todos nos sentirmos como se tivesse sido connosco. Temos ressaca por noitada alheia.
Já agora
Veneno
Consumir de preferência antes da sentença
Escabrosa, a morte de Slobodan Praljak, o criminoso de guerra bósnio que se suicidou no Tribunal Internacional de Haia. Depois de lida a sentença que o condenava, gulp, gulp, gulp, emborcou um frasco de veneno.
Felizmente, este é o género de incidente sinistro que nunca aconteceria em Portugal. Com o tempo que demoram os processos judiciais, quando o condenado quisesse beber, o veneno já teria passado de prazo e não faria efeito. Se, por acaso, José Sócrates estiver a pensar nisso, é melhor escolher outro método.
E mais
O que se pode dizer sobre Jerusalém? Nada, parece.
Quando Trump anunciou a mudança da embaixada dos EUA para Jerusalém indignei-me com a sua ignorância. Depois descobri que Jerusalém é mesmo a capital de Israel e indignei-me com a minha ignorância. Felizmente para o meu amor-próprio, este ano não fui o primeiro português enganado por Jerusalém. Em Janeiro, recém-eleito, António Guterres caiu no erro de dizer que o Monte do Templo é de origem judaica. É verdade, mas a verdade irrita fanáticos e dá-lhes aquela vontade incontrolável de atear bandeiras.
Só para terminar
Israel
Para o ano não há Jerusalém
N'A Relíquia, Teodorico Raposo confirma que Jerusalém é pior que Braga: "Nem um passeio, nem um bilhar, nem um teatro! Nada! Olha que cidade para viver Nosso Senhor!" Cheira-me que, ao nível de baderna, vai ficar mais ao gosto do Raposão.
Como foi em Jerusalém que construíram o Templo, com a arca das tábuas de pedra escritas a fogo pelo seu Deus, os judeus consideram-na uma cidade sagrada. Já os cristãos consideram-na sagrada porque o filho do seu Deus morreu lá. Os muçulmanos é porque o seu profeta a visitou num sonho.
Parece um concurso entre adeptos para ver quem gosta mais do Futre. Os do Sporting, por ter começado lá? Os do Porto, por aí ter ganho mais? Ou os do Benfica, por ter acabado lá? O importante é que todos usem aquele medicamento a que Futre faz o reclame.
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Afinal de que adiantam dias de descanso se tivermos fome e sem casa para morar?
Não gostava do Generalíssimo como não gostava do dr. Salazar, o que várias vezes se apresentou ser um problema para a família
Olhamos para o lado e vemos o Governo espanhol a apoiar famílias e empresas
Em Portugal, nada é mais difícil do que o humor. A realidade vem sempre coberta por uma mortalha absurda que derrota qualquer concorrência.
O mais urgente: remeter ao MJ as propostas da regulamentação em falta, para aprovação.
Sem intermediação religiosa