Marcelo Rebelo de Sousa tem confiado, excessivamente, em si próprio. Não fosse ele um excessivo gesticulante e um ilusionista no tratamento das palavras, enfim: um atabalhoado nas ideias. Aliás, destas, pouco se lhe conhece, a não ser as do habitual receituário. Converge-se-lhe a simpatia inapagável e essa espécie de campeão da convivência que o faz querido dos que gostam do género, em especial as senhoras de meia-idade. Toda essa estudada empatia foi estilhaçada nos debates com Sampaio da Nóvoa, que o reduziu a um desajeitado defensor de coisa alguma; e com Maria de Belém, que disse do oponente coisas terríveis. A delicadeza da senhora, o sorriso cortês e levemente zombeteiro, transformaram o que parecia um diálogo gentil numa penosa cena de enxovalho.
Maria de Belém não perdeu uma para reduzir Marcelo a subnitrato, colocando-o como triste defensor de nada a defender. A dimensão política e cultural do professor ficou a nu: o homem, afinal, não vale tanto quanto se pensa e se diz. Afirmar-se que ele é o anti-Cavaco, só por paródia. Ele é um produto do ‘sistema’, e não há borracha que apague as cartas denunciatórias a Salazar, e as esquivas a questões bem graves da democracia.
Sampaio da Nóvoa, cuja compleição intelectual, cívica e humana supera, de longe, o que por aí há, desmontou a fragilidade do antagonista, com a paciente perseverança de um mestre, ante um traquinas incipiente. Nada de pessoal. Simplesmente a grandeza de quem sabe não ter necessidade de fazer disso soberba. A diferença entre o prof. Sampaio da Nóvoa e o dr. Cavaco, por exemplo, é galáctica. E a que decorre entre ele e o Marcelo, abissal.
Ao contrário do que, cá e lá, tem debitado um preopinante de maus fígados e frase manhosa, quando não infame, os debates têm suscitado interesse, pelo menos como reveladores dos caracteres dos intervenientes.
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