O ex porteiro de uma pequena agência bancária era, até 6ª feira passada, um quase septuagenário em liberdade, após cumprir 14 anos e meio de prisão, prisão da qual saiu em 2001, após uma dezena de precárias. Não há notícia de que tenha cometido mais crimes, desde então.
Na madrugada de 2 de março, de 1987, este cidadão assassinou uma amiga (ou amante, pelo menos fantasiada) e mais quatro outras pessoas (suas desconhecidas e com metade da sua idade) na praia do osso da baleia (Pombal), na sequência de uma festa de aniversário. Após este ato, dirigiu-se à casa onde viva, na pacata aldeia de Amieira (Marinha Grande), onde, após ter dito à mulher que tinha atropelado um homem, a convenceu a sair de casa para o ajudar. Matou-a num pinhal, à facada, perto de onde já alguns dos outros corpos jaziam. Repetiu a cena com a filha mais velha, que também assassinou. Finalmente, e da mesma forma, também tentou matar a filha mais nova; mas, perante as súplicas e fuga desta, desapareceu e só foi encontrado dois dias depois, dentro de um velho barracão. Ao todo, num espaço de algumas horas, munido de uma caçadeira e de uma faca de mato (e também de um pau), Vitor Jorge assassinou 7 pessoas, em que duas eram seus familiares diretos.
Este é o resumo dos trágicos acontecimentos relacionados com o primeiro e mais famoso mass killer português.
Mas, o que é um mass killer?
De acordo com o FBI, é classificado como mass killer quem assassina, pelo menos, 4 pessoas, num curto espaço de tempo e numa região geográfica restrita. De forma diferente, os serial killer podem também matar várias pessoas (pelo menos três), mas intervalam entre os crimes – designados, "períodos de arrefecimento" – e a zona geográfica não é necessariamente restrita. Os mass killers usam habitualmente armas de fogo e os seus alvos podem ser (e são frequentemente) a família. Em alguns destes crimes, o autor também se suicida.
Vitor Jorge pode ser, assim, classificado como um mass killer. Contudo, as armas que utilizou (não só de fogo, mas, também, de lâmina, com perseguição e luta corpo a corpo) e o facto de ter assassinado, sem critério e ligação aparente, uma amiga, quatro desconhecidos e dois familiares diretos, tornam o seu perfil pouco comum no âmbito das habituais classificações. Aliás, a própria "guerra" entre psiquiatras e psicólogos sobre a sua imputabilidade, na altura do julgamento, é, também, uma evidência da elevada complexidade do caso. Vitor Jorge ter-se-á tentado suicidar na altura e, depois de cumprir pena, houve notícias de cerca de 12 tentativas de suicídio e de alguns internamentos psiquiátricos. Resta a dúvida, que ficará para a História, se se tratava de um doente psicótico, inimputável e perigoso, ou de um psicopata frio e premeditado que teve consciência plena de tudo o que fez. A leitura do seu diário e o seu comportamento durante todos estes anos faz-me partidário da primeira hipótese: Vitor Jorge teria, efetivamente, uma doença mental grave (muito provavelmente, uma perturbação delirante crónica) e era socialmente perigoso.
Apesar de nos EUA as estatísticas mostrarem um incremento dos mass killers desde a década de 1970 (tendo quintuplicado até 2013, mas frequentemente enformados na classificação de terrorismo), em Portugal, este tipo de crime é raríssimo. Aliás, na história da criminalidade violenta portuguesa, Vitor Jorge é o primeiro mass killer (e único, pois Luis Miguel Militão, muitos vezes comparado, realizou o massacre de Fortaleza em cumplicidade com outros dois assassinos, e o "monstro de Beja só matou 3 familiares) e um dos mais célebres criminosos, talvez só ombreando com o serial killer Diogo Alves (o assassino do aqueduto das águas livres, um dos últimos cidadãos a cumprir pena por enforcamento em Portugal) e com o (des)conhecido Estripador de Lisboa.
Em meados dos anos de 1980, Portugal vivia ressacas de, sobretudo, dois crimes violentos: os das FP25 e os dos irmãos Cavaco. Foram crimes com uma natureza mediática até então pouco usual, dadas as suas características particularmente violentas e as dificuldades sentidas pelas autoridades para a detenção dos criminosos. Esta onda de crimes causou elevado alarme social à época, com um importante impacto no sentimento de insegurança das pessoas. Contudo, atualmente, estes crimes estão, praticamente, fora da memória coletiva.
Mas, acontecerá o mesmo com Vitor Jorge?
Vitor Jorge vivia num meio pequeno. Era conhecido e considerado. A surpresa pelos seus atos foi, na altura, muito impactante. Da incredulidade ao medo exasperante, toda uma gama de sentimentos era possível de ser descodificada na vox populi, durante o período de prisão preventiva e de julgamento. A nível nacional, abriu um debate importante sobre as relações entre a doença mental e o crime. Ao nível local, julgo que o impacto se tornou mais perene. A estrutura social das pequenas localidades confere uma memória mais ferida e traumática das suas tragédias, especialmente quando os seus nativos são os protagonistas. Estes casos crescem, habitualmente, como mitos, no que à memória diz respeito. Se hoje, em Portugal, poucos cidadãos com menos de 40 anos reagirão ao cognome de "mata sete", estou seguro que, como referia o mitógrafo Evémero, não há ninguém, na região da Marinha Grande, criança, adulto ou idoso, que não reaja à designação "mata sete" e não a identifique como um símbolo dessa mesma região. A saliência mediática da altura, mas, fundamentalmente, a proximidade territorial e social com o fenómeno e os seus atores, deixou e deixará uma marca indelével sob a forma do mito do "mata sete", tal como quem habitava em Nova Iorque, em setembro de 2001, nunca deixará de se lembrar do significado das "torres gémeas".
Ainda não se sabe ao certo de que morreu. Apenas se sabe que foi encontrado morto pela família, em sua casa, na Córsega. Sofreria de uma doença cancerosa (de acordo com alguns rumores), mas também tentou o suicídio por uma dúzia de vezes. Fica a dúvida que só a autópsia esclarecerá...
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