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Eduardo Cintra Torres

Eduardo Cintra Torres

Comentadores belenzáveis

22 de fevereiro de 2015 às 00:30

Quando Manuela Ferreira Leite "não negou" no comentário na TVI24 que possa candidatar-se a Belém, entrámos numa nova fase do surrealismo do nosso entorno político. A candidatura fora sugerida por um socialista da tendência Sócrates, a força política que destruiu a campanha legislativa de Ferreira Leite em 2009. O mesmo socratinista escrevia então que MFL não sabia "pensar bem". Ela escolheu agora a TV para posicionar a candidatura sugerida pelo socratinista.

Já são cinco políticos comentadores que se apresentam como putativos candidatos a Belém: só do PSD, três: Santana (SIC), Ferreira Leite (TVI24) e Marcelo (TVI); do PS, um: Vitorino (SICN); do PDR, um: Marinho Pinto (CMTV). O PS só não tem dois porque Sócrates recolheu a Évora. Do além-mar, Guterres aproveita o cargo internacional para criar suspense se volta para presidir ao pântano em que nos atolou em 2002. Se mais candidatos houver, dos ecrãs virão: a TV comanda o espaço público político de Portugal.

Nem mesmo são pré-candidatos: são D. Sebastião, ainda do outro lado do nevoeiro, ainda em Alcácer-Quibir, talvez sim talvez não, para terem lugar na linha de partida, como salvadores à saída do pântano que todos nos pintam. Isto está um desastre, agarrem-me senão eu candidato-me, depende do nevoeiro político lá para Outubro.

Dizer que o país assiste não é metáfora, porque assiste pela televisão, a barriga de aluguer de putativos presidenciáveis na função de comentadores. Neste jogo, em que ocupam espaço, os restantes sebastiões ficam em desvantagem, como Fernando Nobre ou António Nóvoa.

Só Guterres, por já ser "figura nacional", por já ter feito o luto do pântano em que nos deixou, por assumir-se como Desejado, não precisa de tanta TV se quiser vir. Enquanto ocupam espaço na corrida, os putativos candidatos inquinam os seus comentários. Não comentam como pensam, mas em função dos interesses políticos pessoais. Mantêm no ar candidaturas, mas não as comentam nos espaços em que são pagos para comentar, como Marcelo, Vitorino e agora Ferreira Leite. E comentam, não no sentido das suas convicções, mas para conquistar, já não apenas espectadores, mas possíveis votos: é ver Marcelo na TVI, sempre a agradar a gregos e troianos, para não ferir potenciais eleitores, e sempre com parabéns ao atleta de Alguidares de Baixo que ficou em 37º numa prova em Albaricoque el Niño, algures na Sierra de Gredos. Cada nota de parabéns, um voto em potência.

São comentadores? Não tanto. São políticos, e em pré-campanha.

Um pouco mais de mundo

A negociação grega na Europa do Euro teve a virtude de ocupar os ecrãs públicos com discussão pública, cívica, política, sobre outro país, com notícias internacionais sérias e debates mais ou menos sérios, mas, enfim, debates sobre outro país – para não ser sempre o nosso. O noticiário internacional na televisão generalista portuguesa é paupérrimo. Tomemos o exemplo da Austrália: à parte um ataque terrorista no passado mês de Dezembro e outras ameaças terroristas em janeiro, só aparece quando há cheias extremas, secas extremas, incêndios extremos ou uma visita da família real inglesa. É o mesmo que nada, num país que é quase um continente e onde vivem mais de cinquenta mil portugueses ou luso-descendentes.

A concorrência aos domingos

Não é grande alívio que ‘Got Talent Portugal’ tivesse no domingo mais audiência do que ‘Secret Story’. O reality show da RTP 1 nem é grande coisa nem se distingue de idênticos nos privados. A chanchada da TVI começou mais tarde e teve maior share do que o reality da RTP 1. Mas foi uma viragem nas escolhas dos espectadores. 

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