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Eduardo Cintra Torres

Eduardo Cintra Torres

Lobbying no comentário político

06 de novembro de 2016 às 00:30

A TVI estreou no seu principal telejornal um comentário semanal do advogado José Miguel Júdice chamado ‘Porquê?’ É uma boa pergunta: porquê este comentador de sempre de novo em antena? Júdice começou como ultra da extrema-direita quando jovem e andou anos pelo PSD até se centrar no seu escritório de advogados com êxito, fazendo dele um dos maiores intermediários legais do sistema que nos governa. Isso implica uma cumplicidade com o poder, que, no seu caso, passou pelo encosto ao socratismo. Dado que a governação de Sócrates foi a que levou mais longe a opacidade dos negócios privados da coisa pública, os grandes escritórios de advogados farejaram ali o fruto sumarento da árvore das patacas. Não admira, por isso, que a TVI, controlada por ‘amigos’ de Sócrates, entregasse a Júdice um espaço de comentário privilegiado.

No primeiro comentário, percebeu-se logo ao que Júdice vem. O tema foi a ocultação do património pessoal dos administradores da CGD. Júdice conseguiu não falar disso mesmo, do cerne da questão: devem ou não os administradores do banco público tornar público, conforme lei de 1983, o seu património? Num comentário chamado ‘Porquê?’ evitou responder à pergunta ‘Porquê?’. Desviou para a crítica aos partidos e deputados que julgam em causa própria, etc., e depois, malandros, atrapalham os milionários bons que se sacrificam ao interesse público indo para a CGD e a política. Ele, tão independente no comentário, nem conhece o presidente da CGD! Nem precisa. Por omissão, defendeu a ocultação, defendeu o decreto-lei que António Costa fez à medida dos gestores da CGD. Enfim, defendeu a opacidade do sistema que nos esmaga, desta ou daquela maneira.

Não é o único. O telecomentário político está muito entregue a outros como ele: também Marques Mendes, António Vitorino, Lobo Xavier e, quando aparece, Morais Sarmento representam, em empresas ou escritórios de advogados, interesses ou interessados em negócios com o Estado. Francisco Sarsfield Cabral escreveu há dias, sobre outros casos concretos, que "pessoas nessa situação raramente resistem à tentação de prosseguir, através dos seus comentários, uma agenda própria, o que é incompatível com opiniões independentes." E sem contraditório. Que ganhem a vida nesses negócios, é lá com eles. Até se aceita que comentem — desde que não ocultassem os seus interesses pessoais e empresariais nas matérias que comentam, e não são poucas. Mas ocultam. E os canais que os abrigam conhecem essas tratações opacas, dão-lhes oportunidade para ampliarem esse lobbying escondido e, assim, desprezam os espectadores e a causa pública.

Diário da República, a nova Paródia

O homem lá terá o 12º ano, mas foi tão grande a vontade de tirar o canudo que até se inscreveu na universidade! Isto não é currículo de vida, é currículo de morte. Já não chegava a licenciatura ao domingo, o adjunto do primeiro-ministro que inventa uma licenciatura e o chefe de gabinete que inventa duas. E publica o Diário da República estas misérias morais do jornalismo, da política e dos dois à mistura. 

Pedro Dias: quem é show, quem é reality 

Disse a ministra das polícias: a perseguição a Pedro Dias não é um reality show. Discordo. Um reality show é um programa que se arrasta por muitas semanas, com peripécias dramáticas e ridículas — como esta operação. Os media mostram a reality da coisa; a ministra acusa-os de fazer show. Esta ministra é um show que não está ligado à reality.

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