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Recordista de indicações ao Emmy (mais de 120), granjeou prestígio suficiente para atrair convidados VIP, como Susan Sarandon ou Quentin Tarantino (que realizou o penúltimo episódio da primeira temporada, em 1995). Mas a erosão era óbvia: no ano passado, ‘ER’ ocupava o 48º lugar entre os folhetins americanos. E já não restava nenhum médico "original" do fictício Chicago County Hospital. Aliás, George Clooney fez uma aparição-tributo há duas semanas, no mesmo papel do Dr. Doug Ross, que o projectou para a fama. Criticada e louvada por sua verosimilhança ou implausibilidade (médicos a operarem sem máscara, tagarelando sobre a sua intimidade), ‘ER’ renovou a ficção televisiva.

Já nos anos 60, os doutores Kildare ou Marcus Welby revelavam, além do poder de salvar vidas, o de expor as entranhas da sociedade (raramente sadias). Nos 70, foi a vez do escárnio, com os cirurgiões debochados de ‘MASH’, derivada do filme de Robert Altman contra a guerra no Vietname. Nos 80, a desilusão contaminou a amargura do hospital de ‘St. Elsewhere’, prenunciando o impacto sísmico de ‘ER’. Com esta, o médico – este semideus do nosso quotidiano – perdeu a sua auréola de paladino virtuoso e inquebrantável, encarnando vulnerabilidades diante do bem e do mal e, sobretudo, da vida e da morte.

Os corredores das Urgências do Chicago County fervilharam de histórias de perdas e lutos. E reflectiram com audácia a dor das mutações sociais e das crises morais, numa época saturada de rupturas e traumas – tudo narrado num ritmo taquicárdico. Pilotada pela memorável tríade Michael Crichton, Spielberg e John Wells, ‘ER’ revitalizou – com a potência de um desfibrilador – a ficção na TV, despachando ‘Chicago Hope’ (a sua concorrente directa) para um longo coma na UCI. Mas o sucesso de ‘ER’ explica-se, acima de tudo, pela sua astúcia em captar e expressar a medicalização da existência, cujo advento é sua contemporânea.

Por detrás da obsessiva preocupação com os nossos corpos, a febre de ‘ER’ exprime um sintoma, depois amplificado pela entrada triunfal do doutor House. Ou seja: hoje sofremos de uma epidemia que, dantes, recebia o implacável diagnóstico de hipocondria.

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