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Um dia todos se encontraram. Eram 27 apóstolos. Uns viajaram do Sul mas o encontro deu-se, algures, no Norte. Reuniram-se à mesa lá para os lados de um local outrora conhecido por ‘O Calor da Noite’. Entre os que chegaram à hora combinada e os atrasados, a entrada em cena de um autocarro proveniente de Bragança provocou grande alarido. A D. Pureza, assim tratada com ironia por meter sexo em todas as conversas que iniciava, abundantemente interjeitadas, fosse ao pequeno-almoço, à passagem pela porta de uma igreja ou no seu lugar de culto preferido, saudou a turba apostólica com um palavrão mais sonoro do que aquele que é produzido pelos carrilhões de Mafra. E vociferou:

- Alguém já quer café com leite?!

Com os seus cabelos num desalinho, De Jesus teve de pôr ordem na mesa, enquanto pegava no cálice:

- Trabalho é trabalho, conhaque é conhaque. Estamos aqui para fazer a prova da nossa inocência.

De Jesus desmanchou o seu ar sério com uma abrupta gargalhada. E não parava:

– Não me façam rir. Ainda me mijo todo.

O Apóstolo 1 chegara de Lisboa numa espécie de cápsula espacial, equipada com pneus especiais. A sua franja mantinha-se tão hermética e lustrosa como o chão de granito da sede de um qualquer banco. Sobre ela, como se estivesse num varandim – mandado construir pelo Valentim – conseguiam andar, de um lado para o outro, uma boa dezena de árbitros.

- Estás porreiro, De Jesus?

- Agora estou. Já cumpri.

– Que pena!

– Eu sabia que um dia nos encontraríamos todos aqui. Afinal, comungámos sempre dos mesmos objectivos.

– Aqueles gajos de Lisboa são mesmo uns gandas parolos. Têm a mania que controlam tudo mas não controlam nada. Nós é que sempre controlámos tudo e eles não perceberam nada.

De facto, houve um tempo em que ‘seis milhões’ de portugueses, mais ou menos embasbacados pela obra produzida pela omnipotência, foram guiados pelo livro sagrado de De Jesus. Um livro tornado sagrado que resultou da combinação de muito trabalho com muita malandrice. Um dogma, uma doutrina, espalhados aos quatro ventos, provocaram aparentes dissensões a sul do Mondego.

O apóstolo 23 entrou na conversa, também com uma estridente gargalhada:

– O problema foi quando percebemos que não podíamos utilizar os telemóveis.

O apóstolo 4, agora com outras preocupações:

– Este cabrito está bom. Ainda diziam que só se comia bem no Batráquio. Grandes borregos! Que bela ceia!

O apóstolo 2, de barba e cabelos brancos, deu um murro na mesa, fazendo ecoar a sua voz tonitruante:

– Cala-te, estúpido.

Dirigindo-se a De Jesus, agora com um sorriso bem mais ameno nos lábios:

– Não podes ver um rabo de saias. Essa coisa de meteres gajas no meio da nossa guerra santa nem parece teu.

A D. Pureza, vindo de outra sala, donde tudo se ouvia, pela força brutal das vozes, tentou aproximar-se com os olhos a brilhar. O apóstolo 2 repudiou-a:

-- Vai de reto, Satanás!

E continuou, de novo contente como uma criança:

– Pedir um árbitro era como pedir um disco.

– Ou um bife – rosnou o apóstolo 4.

De Jesus pediu a atenção de todos os apóstolos, um pouco dispersos na recontagem das mil e uma estórias de tantos anos de distante proximidade:

– Meus amigos, queria agredecer-lhes tudo o que fizeram em nome do lema. Fizeram bem o vosso papel. Apesar de tudo, o nosso sistema triunfou. De que nos podemos, afinal, queixar? Promovemos e premiámos árbitros. Seduzimos quem se deixou seduzir. Manipulámos políticos, juízes e jornalistas. Tivemos empresários aos nossos pés. Dividimos e reinámos.

O apóstolo 5 deixou escapar:

– E agredimos...

– Isso não interessa nada, faz parte do lema – enfatizou De Jesus, pela primeira vez sem vontade de sorrir.

O apóstolo 2 acendeu um charuto e proclamou:

– Quem ganhou, ganhou; quem não ganhou que ganhasse!

De Jesus, satisfeito:

– O objectivo não era ganhar?

O apóstolo 2 propôs um brinde:

– A todos os vencedores!

De Jesus:

– A nós!

O apóstolo 3 chegara atrasado, mas a tempo da celebração.

De Jesus abriu os braços e deu-lhe uma beijoca:

– Tu foste o mais brilhante. Conseguiste ser sócio de quase todas as instituições. Sempre em nome da verdade e da família. Cá me saíste um bom mariolão! E quando foste fazer aquele número com os líderes partidários? Essa foi genial.

O apóstolo 3, humilde:

– Aprendi contigo. Tu foste o nosso grande mestre.

De Jesus interrompeu-o:

– Isso agora não interessa nada. Chama mas é a Pureza...

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