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Foi o que fez. Pediu ao padrinho Telmo Correia que convocasse Ferro Rodrigues, preferiu a tranquilidade da TVI à efervescência do Parlamento e armou-se de armas poderosas, como a inteligência, o cinismo, a emoção e a insinuação, tudo temperado com um inegável talento político, para fazer a defesa da honra. É inquestionável que o fez de forma politicamente brilhante.

Paulo Portas, o demagogo, exibiu fotos do Presidente Jorge Sampaio e do ex-ministro da Justiça António Costa a apertarem a mão ao antigo reitor da Moderna. Ou seja, lembrou que muita gente na sociedade portuguesa, e não só ele, respirou o mesmo ar da famosa família Gonçalves nos tempos do fausto e do luxo que atrairia a investigação.

Paulo Portas, o político, penalizou-se pela ausência mais que previsível em estúdio do líder da Oposição. Ou seja, por muito que o convite fosse inaceitável para Ferro Rodrigues, fez notar que ele estava ali a dar a cara contra insinuações sem rosto.

Paulo Portas, o jornalista, não esqueceu nenhum dos capítulos do guião previamente ensaiado e até lembrou que tinha apenas 25 anos quando da fundação do "Independente", jornal tantas vezes agora citado a propósito para relembrar a evolução do pensamento ético-político do outrora aguerrido jornalista.

Ou seja, um jovem génio, por muito precoce, também comete erros próprios da idade. Aprende. Se calhar até se arrepende. Mas não ao ponto de evitar a mordedura que lhe está na natureza: alguns dos que agora o criticam eram "fontes" do "Independente" de todos os pecados. Para PS e não só.

Paulo Portas, tanto o filho como o profissional, deixou-se trair pela emoção.

Apesar de trabalhar "que nem um cão", precisou da ajuda da mãe para aceder a uma melhor qualidade de vida, por muito que tenha ganho bem durante o pouco mais de um ano em que trabalhou na Moderna. Ou seja, não enriqueceu em 40 anos de vida.

Paulo Portas, o jogador, terminou com um contra-ataque recheado de veneno e repetindo insinuações anteriores: como Ministro da Defesa, que vai continuar a ser porque acha ter condições para isso, rescindirá "os contratos que tiver de rescindir em nome do Estado português e dos nossos contribuintes". Ou seja, atrás desta maldita Oposição encarniçada contra um velho admirador de Sá Carneiro e leal seguidor de Durão Barroso, estão na verdade a força de "lobbies" ocultos, cujos advogados são conhecidos.Pelo meio ficaram respostas aos factos.

Paulo Portas, o Homem, esclareceu de forma convicta todas as velhas acusações, uma a uma, só se esquecendo de explicar a entrega de cerca de dois mil contos em dinheiro por parte do antigo motorista.

Tentou-o, mas o jovem entrevistador desviou a conversa e esqueceu-se depois de voltar ao tema. Ou seja, não evitou uma única acusação, mostrou fotocópias, de cheques e declarações de impostos, pareceu autêntico e devolvido à serenidade depois de semanas de algum evidente nervosismo.

Paulo Portas, o cidadão, frisou várias vezes a sua condição de testemunha neste processo da Moderna e explicou, com paciência, que o polémico relatório inicial da PJ - apreciado em pleno período governativo do PS, quando no entanto os orçamentos de Estado exalavam o odor do queijo Limiano - passou no crivo da competente apreciação do Ministério Público sem o conduzir à posição de réu e sem o alarido que motiva dois anos depois.

Ou seja, tudo isto é político, porque as respostas por ele dadas durante a investigação foram suficientes para esclarecer os magistrados sobre as dúvidas da polícia, mesmo quanto a expressões tão duras como "desvio de fundos".

Ou seja, Paulo Portas fez um intervalo na condição de homem de Estado para relembrar quanto é um político de talento. Ao mesmo tempo terá passado o teste da opinião pública. Depois disto, e até prova em contrário produzida no âmbito da Justiça, não parece que seja legítimo subsistir a dúvida sobre a sua honorabilidade.

E tal deveria ser suficiente, em consequência, para retirar à Oposição o argumento fundamental para continuar a exigir a demissão do ministro. Mas, se calhar, isso é pedir demasiado a esta vingativa política à portuguesa.

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