Francisco José Viegas
EscritorHá uma luz estranha, negra e brilhante, a cair sobre a calçada de basalto da cidade da Horta quando Januário Garcia, solicitador e administrador de fortunas e negócios de família, leva consigo uma pasta que ditará praticamente o fim da família Dulmo, executando propriedades e dívidas. Raramente, no romance português, há uma descrição tão tensa e visual captando aquelas primeiras bátegas de água, uma chuva que atravessa o canal com a lentidão da tragédia. Januário – que é um personagem cheio de acrimónia, ressentimento, envolto na aura grave da viuvez – vai satisfeito consigo próprio, vingando o passado e o futuro das duas famílias da “ilha azul”. Com ele, nesse instante em que a ilha defronte, o Pico, se ergue como uma ameaça distante, do outro lado do canal, seguem as aspirações de todos os desavindos e cúmplices. É sua uma parte da história.
Porém, ao que poderia ser uma espécie de ‘Romeu e Julieta’ faialense naquele final da década de 1930, Vitorino Nemésio empresta a grandiosidade de um fresco social, amoroso, geográfico, meteorológico, cheio de tensões e subentendidos. Há um misto de graciosidade e tragédia, afastando-se sempre do melodrama; a história de Margarida Clark Dulmo e João Garcia estava condenada desde o início, à medida que Nemésio traça a genealogia das famílias, a propensão de umas para a decadência e de outras para a vingança ou o desejo de reparação. Numa ilha, essas tensões nem sempre são visíveis, nem sempre são invisíveis; têm de contornar conveniências (a homossexualidade de Ângelo, por exemplo) e pequenos rituais de província (a chegada dos barcos, as novidades de retrosaria, a visita à botica), sob aquele fundo de beleza fornecido pelo areal de Porto Pim, um piquenique no Monte da Guia, o alto da Espalamaca, a praia do Almoxarife – mas também a ameaça omnipresente da peste, do isolamento e da vida dos baleeiros e do seu idioma.
Mas Vitorino Nemésio, que não esquece os quadros etnográficos dos Açores (Faial, Pico, São Jorge, Terceira), é também um ironista – a começar pelos títulos dos capítulos do romance (uma espécie de organização sinfónica em andamentos sucessivos e microtons de uma canção de despedida) e a concluir no diálogo do barão da Urzelina, em São Jorge. O seu óculo capta a minúcia da vida das ilhas e, à primeira pincelada, o perfume de tragédia que há de ensombrar a chegada de Roberto Clark (e os laços que hão de revelar-se com Margarida) ou a existência de Diogo Dulmo, o pai decadente. Margarida é uma heroína discreta naquela multidão de espectros que sobrevivem até às sete da manhã de 21 de Fevereiro de 1944, momento em que Nemésio conclui o romance; os seus olhos sobreviverão como um “lume evasivo, de esperança que serve a sua hora”; tem uma poderosa dimensão romântica que a coloca sempre acima dos seus pretendentes que não conseguem surpreender-lhe a grandeza; é um dos grandes momentos de dedicação amorosa de um autor a uma personagem. E ‘Mau Tempo no Canal’ é certamente o nosso derradeiro romance clássico, novecentista (embora publicado em 1944), completo, ambicioso, escrito por um dos nossos grandes poetas.
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