O socialista Jaime Gama, contrariando a posição, mais ou menos oficial do PS deixou saber que está contra a realização de um referendo à Constituição Europeia em gestação. Gama sustenta a sua posição com o esclarecedor argumento de que o referendo seria uma "paródia democrática, um total ludibrio à democracia". Porque, segundo ele, um referendo não seria mais do que uma ilusão de participação popular. Estranha e tardia revelação! Gama parece não entender que esta consulta não tem nada de diferente nem de novo em relação a qualquer das muitas já feitas. Incluindo actos eleitorais.
E que nunca neste País , onde todos os programas eleitorais são uma mentira e os eleitos estão dispensados de os cumprir, a chamada ao voto foi, alguma vez, mais do que uma ilusão de participação popular ou o foi mais ou menos do que seria agora. Gama prevê o desinteresse dos Portugueses e a vitória dos antiEuropeus. Esquece , mais uma vez , que o comboio já vai em movimento há muito tempo e se torna impossível pará-lo com esta consulta.
E que a questão da existência, ou não de uma Constituição Europeia, é para os pequenos países uma falsa questão. A estes basta-lhes um espaço de livre circulação e a moeda única. Porque tudo o resto é a fingir.
Não faz sentido exibir preocupação com o que se chama " o desinteresse dos Portugueses" e o resultado formal da consulta, mas mostrar um olímpico desinteresse pelas consequências de qualquer das opções que nos atirem para cima, por mais gravosas que elas sejam.
Por outro lado não sabe, Gama, nem deve ser fácil fazer-lho entender, que quando os Portugueses recusam o exercício do direito de voto, indo ou não, para a praia, estão também, objectivamente a manifestar uma expressão da sua vontade tão significante e (e democrática....) como qualquer outra. E, porventura, com maior clareza e veemência do que se tivessem engrossado as estatisticas dos votantes. Esta é a doença infantil dos nossos "democratas", que se esmeram em tirar proveito do sistema, mas não receiam questioná-lo e recusá-lo quando as coisas se complicam ou lhes cheiram a esturro. Então a consulta popular passa a não servir. Mete-se na gaveta e avançam os sábios para decidir pela "populaça inculta e ignorante". É a face negra da épica Lusitana , versão post 25 de Abril.
Mas o pior é que Gama não está só. Muita gente gagueja e muda de registo quando lhes falam de referendo ao texto constitucional europeu. Até o próprio PR nos brinda com um estranho discurso onde tudo pode ler-se e que tudo permite esperar. Teme "precipitações" ( ?! ) e receia o tal "desastre nas urnas" , que, felizmente só atingirá os que só se servem do sistema, e (imagine-se o desastre!) poderia levar a repensar todo o sistema. Sampaio deixa a impressão de que , pessoalmente, apoia Gama, mas institucionalmente, segue a cartilha e diz o que julga que dele se espera.
E Durão também nada diz de conclusivo. E assim se manterá o grande mistério da nossa adesão à Europa. Que continua sem explicar porque é que os Portugueses nunca tiveram uma palavra a dizer. É pena que em questão de tão grande importância as vozes mais preocupadas venham de monárquicos e de partidos com reduzida ou nenhuma expressão parlamentar. Toda a gente pela Europa fora discute o texto Constitucional. Os pequenos países fazem sentir os seus receios e a sua indignação face aos desejos hegemónicos dos mais poderosos. Batem o pé. Reivindicam.
Infelizmente entre nós continua-se a exibir esta pobreza de espirito que (des)inspira os nossos responsáveis. Por razões bem diversas, é claro, nem o Vaticano deixa de querer entrar na festa. Mas os Portugueses com uma história e fronteiras de muitos séculos, com uma notável identidade cultural e um raro sentido de coesão nacional, face a perigos reais, não têm uma única palavra a dizer. Há quem se prepare para nos "entregar" por mais uns poucos tostões cedendo à chantagem da retaliação dos prevaricadores quando chegar o momento da redistribuição dos fundos estruturais.
Entende-se. Eles foram sempre o melhor antídoto para a incapacidade dos governos e o "motor" das suas melhores realizações.
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