Pessoas e números. Quem viu as imagens da despedida dos trabalhadores da Clarks de Castelo de Paiva dificilmente terá ficado indiferente ao drama vivido por aquelas 588 pessoas. Mas estes 588 dramas são apenas uma pequena gota de água no flagelo que está a afectar o País: o crescimento impressionante do desemprego. Segundo o INE, entre Dezembro de 2001 e igual data de 2002 o número de desempregados aumentou quase 50%. São 110 mil pessoas, o que significa, em média, que cada dia 300 pessoas perderam o seu posto de trabalho. E o pior é que ninguém deverá ficar surpreendido se os números que as estatísticas revelarem para este ano sejam ainda piores. Jorge Sampaio viu as imagens, leu o relatório com os números, recebeu as trabalhadoras da Bawo que estão à beira de ficar sem emprego, devido a um encerramento ‘selvagem’ e não se conteve. Num discurso em que recupera um antigo slogan de Guterres, “as pessoas não são números”, criticou os empresários sem escrúpulos e deixou impor-tantes recados para o Governo. O Executivo não comentou o discurso de Belém, mas no dia seguinte aprovou um importante pacote social para minorar os efeitos da crise social.
Estatísticas escondidas. Os números do INE revelam ainda uma realidade mais negra. Os 331 mil desempregados contados em Dezembro passado não representam a totalidade do problema. Nesta lista só são contadas as pessoas que estando sem emprego, fizeram alguma diligência, no sentido de encontrar uma ocupação nas quatro semanas anteriores. Na cifra negra do desemprego há a incluir mais 88,3 mil inactivos disponíveis, que são pessoas que pretendem trabalhar, mas não fizeram qualquer diligência para encontrar trabalho nas últimas quatro semanas e 22,4 mil pessoas que já são considerados inactivos desencorajados. Finalmente há ainda o subemprego visível que é a situação de empregados com duração habitual de trabalho inferior à duração normal de posto de trabalho, que declaram pretender trabalhar mais horas. Feitas as contas, chega-se à conclusão que Portugal tem cerca de meio milhão de pessoas excluídas do mercado de trabalho.
Falência da escola. Se em termos europeus os números aparentes de Portugal não são dos piores, a insuficiente cobertura social do País e a inexistência de um forte ‘tecido’ produtivo torna a situação trágica. Os optimistas acreditam que a recuperação económica dos próximos anos inverterá a tendência, mas o facto de haver cerca de 30 mil pessoas com cursos superiores sem emprego e quase 50 mil jovens à procura do primeiro emprego confirma uma triste realidade que é a impotência do nosso sistema escolar em formar pessoas capazes de triunfar no mercado de trabalho.
Num mundo em que acabou o emprego para toda a vida, o único trunfo é uma formação sólida. Nesta matéria Guterres tinha razão. Foi pena que a paixão pela educação tivesse acabado numa enorme desilusão.
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Por Carlos Rodrigues
Ninguém pedia que a Europa marchasse com Israel e os EUA para o Irão.
Enquanto o COI impedia homens biológicos de baterem em mulheres, por cá a gente entreteve-se com uma pseudo-traição na ‘Secret Story’ e a bolha mediática acha mal José Luís Carneiro pressionar pela libertação de presos políticos.
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Hoje, o desafio não é reescrever o texto constitucional, mas cumprir o seu espírito.
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