Comentando os últimos atentados terroristas de Londres – em boa hora detectados pelos Serviços e Forças de Segurança – Marcelo Rebelo de Sousa disse algo que pode ser tomado como um lugar comum: nós, a geração dos nossos filhos e a geração dos nossos netos “temos de nos habituar à ideia de que vamos conviver com o terrorismo”. No entanto, para além do seu significado óbvio – não é de esperar que o terrorismo de inspiração fundamentalista acabe tão depressa –, esta afirmação suscita uma reflexão um pouco mais profunda.
Habituarmo-nos ao terrorismo significa continuar a viver e a exercer os nossos direitos, liberdades e garantias fundamentais, mesmo sabendo que ninguém poderá garantir que já amanhã um atentado terrorista não irá pôr em causa a nossa vida ou a vida dos nossos familiares, amigos ou compatriotas. O terrorismo só alcançará a vitória se renunciarmos ao nosso modo de vida, à nossa cultura e à nossa civilização. Lidar com o terrorismo exige uma atitude idêntica à que os médicos recomendam a quem sofre de uma doença prolongada: é proibido desistir, é obrigatório resistir.
Falando de coisas aparentemente triviais, não podemos permitir que o terrorismo nos impeça de viajar, dando expressão ao primeiro dos corolários da liberdade humana. Ainda antes da liberdade de expressão, de reunião ou de associação, é a liberdade de deslocação que distingue, em rigor, o cidadão do escravo. Ora, os aviões vieram dar um novo significado à liberdade de deslocação, permitindo que distâncias outrora invencíveis fossem superadas em apenas algumas horas. Apesar das constantes ameaças, que no caso mais recente se dirigiam contra dez voos simultâneos, devemos continuar a usufruir do progresso e a viajar de avião, mesmo que tenhamos de abdicar de pequenas liberdades individuais (como transportar bagagem pessoal ou não ser revistado), em nome da segurança colectiva.
Porém, habituarmo-nos a conviver com o terrorismo jamais poderá significar que o passemos a considerar um fenómeno banal ou, menos ainda, que nos prontifiquemos a desculpá-lo. O terrorismo constitui a expressão mais aguda do relativismo moral consequencialista. Corresponde a uma recusa radical e violenta da herança humanista e da essencial dignidade da pessoa, ou seja, da dignidade que reconhecemos a cada ser humano, independentemente do seu credo, ideologia, origem social, nacionalidade, sexo, idade ou etnia. O sacrifício de vidas inocentes e a utilização do terror como meio de prossecução de determinados fins, sejam eles quais forem, é algo a que nunca, mas mesmo nunca, nos deveremos habituar.
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