Na autópsia a uma derrota exasperante num estádio do Dragão cheio de esperança, fica óbvia a causa de morte da euforia nacional. O onze que Scolari teimou em manter, apesar de todos os maus ensaios na fase de preparação – apenas Maniche furou a barreira do imobilismo –, não pareceu mais que um conglomerado de jogadores. Sem capacidade de desdobramento agressivo na recuperação de bola, sem ‘sprints’ curtos para criação de linhas de passe, sem rupturas inesperadas na zona de ataque.
A primeira pergunta que surge perante o que ficou visto frente à Grécia é: exactamente para que tem servido o trabalho colectivo no estágio da selecção? Os lances de bola parada resolvem-se de forma incipiente, com Figo sempre no papel de dono da bola. As passagens para o ataque são muito telegrafadas, na velocidade de cruzeiro que sempre agradou a Rui Costa, e que agora é mesmo a única que este excelente executante ainda tem disponível. Com essa velocidade reduzida, raros foram os momentos em que a selecção portuguesa conseguiu, na primeira parte, ocupar convenientemente os espaços no último terço do terreno grego. Significa isto que as acções colectivas ficaram sempre votadas ao insucesso que só o génio individual poderia apagar. Quando esse génio não surge, como nunca surgiu, e a bola se perde, como tantas vezes se perdeu, não há pedras suficientes para se poder tentar uma linha de pressão que permita recuperar bolas na zona crítica do adversário.
Resumindo, Scolari apresentou uma equipa sem saúde, ânimo ou disponibilidade para interpretar o único futebol que pode permitir a Portugal ser ganhador – um futebol à imagem do praticado pelo FC Porto de Mourinho. Quanto a Rui Costa, já ficou claro que está a anos-luz do rendimento prometido por Deco. No contraste com Simão, Cristiano Ronaldo provou, apesar do desatino do penálti, que, com ele em campo, Portugal ganha velocidade, técnica, encantamento e... centímetros no jogo aéreo. Mas, terá Scolari capacidade para dar a volta ao texto?
A imagem que transpareceu neste jogo inaugural é a de um Scolari de churrasquinho – às confrangedoras falta de trabalho colectivo e ausência de coragem nas grandes decisões, juntou-se uma aparente impreparação na abordagem do jogo, na sua vertente mais importante: a psicológica. Só assim se explica que um jogador como Paulo Ferreira, que no FC Porto nunca claudicou, mesmo nos ambientes mais quentes, tenha entrado a tremer no jogo e assim tenha continuado por longos 15 minutos, enquanto queimava solitário a adrenalina acumulada nos minutos que antecederam esta estreia em jogos a doer com a camisola mais pesada. O excelente defesa-direito merece segunda oportunidade apesar dos três passes falhados, um deles com resultados desastrosos depois de Fernando Couto ter ficado muito composto nas fotos numa elegante chicuelina ao remate com que Karagonis fez o 1-0.
Nesta selecção, o futuro urge. É já quarta-feira.
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Por Carlos Rodrigues
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