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A vingança de Armando Vara é coisa da política. Da baixa política, deve dizer-se para maior precisão, mas, ainda assim, da política, com aquilo que ela tem de mais mesquinho ou desprezível: a vingança. O ex-ministro da tolerância zero, cuja demissão foi em tempos aconselhada por Jorge Sampaio, não foi o primeiro nem será o último da classe a utilizar um facto, puro e duro mas completamente descontextualizado, para agredir e insultar. O insólito é que isto tenha acontecido dentro da mesma família política no preciso momento em que esta atravessa um período particularmente difícil, sublinhado por uma legenda tão forte quanto insultuosa para o Presidente da República: “cobardia política”. A defesa da honra do Parlamento, como é óbvio, voltou a constituir simples artimanha nesta réplica menor do terramoto Casa Pia e ligada a um indulto que assinalou os 25 anos de Abril. Perante a evidente menoridade da acusação, Jorge Sampaio exagerou no tom da resposta. Indignação, sim, claro. Irritação, não, por favor. Os portugueses são capazes de perceber quando a política desce abaixo do nível zero.

A semana do PS não se deseja nem ao pior inimigo. Para além da mina pisada por Vara, António Costa é chamado a testemunhar no processo Casa Pia, Fátima Felgueiras ataca desde o Brasil colocando o caso dela na alçada do financiamento partidário, Edite Estrela ouve insinuações e até João Soares foi prestar depoimento no Tribunal da Moderna, ao fim e ao cabo na mesma condição de Paulo Portas. É toda esta fragilidade que agora dá liberdade política ao ministro da Defesa. O PS calou-se e o amigo de Rumsfeld já sorri. A resistência é uma arma.

A intervenção do ministro Morais Sarmento criticando a entrevista de Fátima Felgueiras na RTP é preocupante. Em primeiro lugar, coloca em causa a necessária independência da televisão – o Governo, ou um ministro, só deveriam manifestar pública discordância quanto a questões do foro estritamente jornalístico em caso de notório e repetido atentado ao estatuto de serviço público, o que não serve, manifestamente, para caracterizar a opção da entrevista (conduzida por Judite de Sousa). Segundo, dá má imagem do próprio Governo – afinal, os ministros são como a maior parte dos presidentes do futebol, gostam sempre de “ajudar” o treinador a escolher a equipa. Terceiro, e como consequência, volta a abrir a discussão nesse terreno pantanoso do serviço público, de onde nunca se sairá com teses unânimes por muitas comissões que o pouco diplomático ministro venha a nomear. Se queria criticar, Morais Sarmento até tinha, em privado, um bom pretexto: o da “birra” que levou a RTP a não mostrar no canal internacional as marchas de Lisboa, à última hora oferecidas por Santana a Moniz...

Fátima Felgueiras em directo nas três televisões, inclusive apelando aos camaradas de armas da política para mudarem o ordenamento jurídico nacional, é, segundo ainda outras opiniões, um sensacionalismo perigoso para a Democracia. Rosa Casaco entrevistado em exclusivo pelo “Expresso”, longe do horário nobre e protegido do nauseabundo cheiro do crime pela inexorável passagem do tempo, pode ser visto como um trabalho de investigação e um contributo para a História. Deixemos a demagogia barata: ao português despido de preconceitos, inocente quanto a estar possuído pela diabólica vontade de mudar o mundo, as duas decisões jornalísticas parecem aceitáveis, cada uma delas balizada por algumas nuances ligadas ao estado do processo e uma diferença de fundo: sendo ambos foragidos, Fátima Felgueiras ainda nem sequer está acusada e nunca matou. Haja calma, portanto, no mundo do jornalismo – que bem precisa.

O Euro-2004 está a um ano de distância. É o momento de começarmos a encarar este autêntico projecto nacional com alegria e deixar cair a ladaínha das derrapagens orçamentais, sempre tão do agrado do populismo fácil, certos de que o Governo, até prova em contrário, tem lidado bem com os dinheiros públicos. Aliás, em abono da verdade, deve dizer-se que desde o tempo de José Sócrates, patrono da ideia e grande responsável pelo êxito da iniciativa, os sucessivos responsáveis têm cumprido com o rigor devido aos cofres do Estado. Este já não é o tempo de se discutir o número dos Estádios nem o custo de uma mobília nova a suportar pelo promotor. Este é o exacto momento de preparar a festa. E isto significa, a par de trabalhar uma equipa, sobretudo direccionar o País para ganhar com ela e amenizar os tempos de crise.

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