Ok, talvez eu não seja a pessoa mais indicada para falar em saúde. Os meus reflexos, por exemplo, não são lá grande coisa: uma vez fui atropelado por um carro que tinha um furo e estava a ser empurrado numa subida. E depois? A RTPN tem uma rubrica sobre saúde cuja apresentadora parece um cangalheiro (só falta a fita métrica) e a vivacidade do programa lembra o rigor mortis. Haja naftalina.
Mas a TV é, por natureza, hipocondríaca. Os programas foleiros das manhãs (e mesmo os telejornais) adoram enfermos com desgraças de fazer chorar as pedras da calçada – se forem criancinhas, então, até lambem os beiços. E as séries em hospitais – de ‘ER’ à ‘Anatomia de Grey’ – são epidémicas. Mas nenhuma tem pedigree para beijar o chão que ‘House’ pisa. Tomem lá esta: por incrível que pareça, ‘House’ é uma série policial! Só que o protagonista troca o cachimbo de ‘Holmes’ pelo estetoscópio – aliás, como o ‘Sherlock’, também é viciado em drogas. O ‘Dr. House’ investiga os sintomas como um detective analisa as pistas de um crime (a agressão contra o doente), para desmascarar o criminoso (a doença homicida). A identificação do culpado corresponde ao diagnóstico – e a sua detenção, à cura.
O protagonista (o actor Hugh Laurie) é o Rei Sol da série: ofusca todos os outros médicos-cortesãos. Sarcástico e irascível, a personagem é tão arrogante que, ao pé dele, José Mourinho parece São Francisco de Assis. Porquê tão rabugento? Por perceber que a diferença entre a genialidade e a estupidez é que a genialidade tem limites. Em Portugal, diga--se de passagem, morre-se muito de médico. Mas os pais ainda se pelam por que os filhos tirem o canudo e sejam senhores doutores. Pudera: o negócio é chorudo (hoje em dia, o sujeito que ainda conserva as amígdalas e o apêndice só pode ser um médico). De médico e de louco toda a gente tem um pouco? Ou muito: dos oito terroristas islâmicos presos pela polícia inglesa por envolvimento num atentado frustrado seis eram médicos em Inglaterra, país cujos cidadãos pretendiam esquartejar – em vez de salvar vidas, estes clínicos urdiam uma chacina. Aliás, foi um médico que inventou a guilhotina (o dr. Guillotin) e o número 2 da al-Qaeda, Ayman Zawariri, é cirurgião.
Não, o ‘Dr. House’ não é carrancudo. Ele apenas sabe que a Humanidade não é flor que se cheire – daí que, por vezes, o único remédio seja uma mola no nariz.
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Por Carlos Rodrigues
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