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Rui Pereira

Rui Pereira

Professor universitário

Dignidade Nacional

31 de outubro de 2013 às 01:00

Nunca foram fáceis as relações entre ex-colonizadores e colonizados. A colonização é um processo traumático que deixa sempre feridas. Por vezes, esse processo revela seres humanos excecionais. No século XX, é obrigatório destacar Mahatma Gandhi, que reagiu a medidas tão absurdas como a proibição de os indianos extraírem sal da sua própria terra, decretada pelos ingleses, com uma campanha de desobediência pacífica que levou cerca de cinquenta mil pessoas para a prisão por gestos tão "inocentes" como retirar do mar um punhado de sal.

Gandhi ou Mandela representam o que há de mais nobre na raça humana. Nem sempre os processos de colonização geram pessoas dessa craveira. Há um complexo de Édipo que explica episódios tão caricatos como a autoproclamação como rei da Escócia de Idi Amin, o ex-ditador do Uganda que servira como ajudante de cozinha no exército britânico.

Pequenos tiranos como Idi Amin (ou Robert Mugabe) replicam os piores tiques dos colonizadores, tal como certas vítimas de abusos ou maus tratos repercutem, em adultos, o mal que sofreram em crianças. Pela nossa parte, sempre desconfiei de que os sentimentos ambivalentes que nos dedicam os nossos queridos irmãos brasileiros se devem a reconhecerem em nós – como se fôssemos um espelho baço – alguns dos seus próprios defeitos, como a tendência para o sonho e a melancolia. A triste "novela" das nossas relações com Angola também denuncia, para pior, a dificuldade de ambos os povos assumirem, sem complexos, uma relação digna, fraterna e adulta. Pelas declarações mais recentes perpassam velhos ressentimentos, prontos a ressuscitar a todo o tempo.

Alguns dos nossos compatriotas olham hoje para Angola como um novo ‘El Dorado’. Há quem alterne hostilidade com subserviência à espera de um negócio ou investimento salvífico desse – ou nesse – quase BRIC da África Ocidental. Mas a atitude que honra uma Pátria com novecentos anos de existência não é essa. Devemos valorizar os traços identitários que nos unem aos angolanos (língua comum e história partilhada) e, como antiga potência colonizadora, temos de dar o exemplo de bom funcionamento dos órgãos de poder. Incluindo, claro está, os tribunais.

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