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Já não viste, meu querido Vítor Hugo*, as cenas rascas protagonizadas no dealbar de 2006. Aqui, neste cantinho ermo do globo terráqueo, que não precisas de avistar através do Google, nem quase tivemos tempo de acabar a frase clássica e tradicional, em forma de desejo... ‘Um Bom Ano No...’ (também para o futebol português). O rasquismo ou o raquitismo intelectual, que são afinal uma e a mesma coisa, borbulharam em champanhês. Não, não estava em causa a aquisição de um jogador de matrecos na taberna do Amílcar.

Eu sei, meu querido Vítor, que aí onde estás, confortado com a presença do teu homónimo de eleição, com quem passaste, estou certo, a sempre ansiada meia-noite de transição, a ‘comer umas merdas’ e a recontar estórias de outras meias-noites, vês tudo agora com maior clareza. Já não tens a fazer obstrução o tráfego de truques humanos que, às vezes, põem à prova a lucidez. Já não tens o incómodo de algumas das sanguessugas que te sugaram o sangue e que, como sempre fazem no auge da sua hipócrita idiossincrasia, marcaram presença na tua partida. Tu, o teu filho Dídio e eu sabemos e aqueles que fazem de conta e aqueles que arranjaram forma de empequenecer a tua vontade, a tua determinação, o teu saber, porque era mais importante a filha que era aluna da professora que tinha um filho encestador, também sabem.

Os homens rascas, escamosos, que até fora da quadra natalícia pingam a neve, não estão só no futebol. Alguns, com manias ecléticas, até estavam bem mais perto do andebol e só sabiam ‘dar uns toques’ com as mãos. Já dizia Goncourt: ‘Há invejosos que parecem de tal forma acabrunhados pela nossa felicidade que até quase nos suscitam a veleidade de os lamentar’. Lamentemo-los com a convicção camoniana de que a inveja é mais irreconciliável do que o ódio. Eu sei, queridoVítor, que o teu amor ao Benfica era tão grande como a tua paixão pelo basquetebol.

Eu sei, querido Vítor, que ganhavas uma nova alma quando buscavas junto de mim uma palavra de elogio às diversas peripécias que envolviam o Glorioso. Tu sabes que nunca fui de elogios fáceis. Sabes que nunca fui de encomendas nesta tão encomendada comunicação social desportiva, subjugada até ao tutano, com a qual temos muito pouca identificação. Eles quiseram assim e quando aí chegar talvez possa ser um pouco diferente. Mas não te prometo. Isto está muito mau. Anda tudo de farda. Que fardo! Não há mais capacidade de admiração.

Vencem a maledicência, a intolerância e os esquemáticos – os homens dos esquemas. Há pouca margem para a verdade, para o mérito e ninguém tem pachorra para ouvir alguém. Depois, os que estão no poleiro andam sempre a ver fantasmas e sentem-se ameaçados. Acham-se espertos e fazem jogos duplos, triplos, quádruplos e por aí adiante enganando-se a eles próprios. Apenas insegurança. Os medíocres apoiam-se nos medíocres e assim sobrevivem. Tu sabes que prefiro morrer a sobreviver. E sei que tu sabes que outros sabem que não és de um Benfica qualquer. Quando falavas de Borges Coutinho as tuas palavras soavam a música.

Nunca defendeste a arruaça mas sabes, como eu sei, que a ética não dá campeonatos, muito menos num país futebolístico em que a cultura do engano, do frete, da mentira está enraízada há longos decénios. O Moretto pode ser bom aqui para o burgo, na conjuntura actual, mas não valia aquilo tudo. Não valia que Pinto da Costa se interessasse subitamente por um guarda-redes que tem de sobra. Não valia que ‘o presidente do Benfica’ fosse, ele próprio, resgatá-lo a São Paulo. Não valia que ‘o primo do Veiga’ levantasse a mão para ajustar contas com um serventuário da panificação nas barbas de uma polícia caciqueira. A menos que toda esta charada tivesse servido apenas para demonstrar que, no campeonato dos guarda-costas, o Benfica também tem equipa para o FC Porto. Mesmo nos suores da campanha, o Jerónimo de Sousa viu, provavelmente, como todos nós vimos. Mas porque comunismo não se confunde com comodismo quis ir lá ver para ter a certeza. E ainda levou um ‘kit’ de brinde. É Portugal no seu melhor! Com licença da Iberdrola.

*A minha singela homenagem ao jornalista Vítor Hugo, um dos últimos grandes cabouqueiros de ‘A Bola’

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