Mas o tempo encarrega-se de tornar provisório o que parece definitivo: bastou, para isso, que Bruce Springsteen recuperasse a inspiração, mais íntima ou mais combativa, consoante nos referirmos a 'The Ghost Of Tom Joad' (um disco que poderia ser sequela directa de 'Nebraska') ou ao magnífico 'The Rising' (que leva a recuperar as glórias antigas de 'Born To Run', 'Darkness On The Edge Of Town' ou 'The River'). Pelo meio, o homem que se estreou em discos 'oficiais' em 1973 – ou seja: vale uns redondinhos 30 anos de carreira – começou a autorizar que se fizessem sumários do seu percurso de 'working class singer'. Em 1995, foi publicado um (estreito) 'Greatest Hits'; três anos depois, surgiu uma caixa (de quatro CD) chamada 'Tracks', em que se destacava sobretudo a história 'oculta', com canções e versões que tinham ficado 'na gaveta', com recurso a temas menos populares dos álbuns. Chegamos à actualidade, para prestar homenagem, com rendição incondicional, a 'The Essential' (ed. Sony Music), de que a edição a reter é mesmo a que comporta três discos (o terceiro ganha o corriqueiro qualificativo de 'bónus'), não a de dois.
A explicação é simples: os dois primeiros discos de 'The Essential' acompanham a evolução de uma carreira que precisou de descobrir uma personalidade, para depois construir um culto, seguindo-se as fases da popularidade planetária e da retracção criativa, para voltar a erguer-se à dimensão que Springsteen justifica. Se ele nunca foi o cantor do 'american dream' mas o arauto das realidades americanas, adoptando a electricidade e a batida 'rock' como amplificadores de descontentamentos e dúvidas, ninguém duvide de que é também o orgulho que o move. À sua maneira, Bruce é um patriota; 'limita-se' a não ceder à cegueira bélica, trucidante, de castas, que domina vastos sectores da sociedade – e dos poderes – do seu País. O seu pessoalíssimo cruzamento de públicos vem sempre de um fenómeno de identificação que não é fabricado, mas genuíno. E em dois CD, nada menos de 30 canções separadas por quase 30 anos, está uma história da América contada na perspectiva do homem comum. Sem fanfarras… No terceiro disco, juntam-se temas escritos para bandas sonoras (três), gravações de temas alheios (um de Jimmy Cliff, outro do património de Elvis Presley), registos caseiros (realizados sobretudo depois de 'Nebraska'), versões ao vivo. Mas, sobretudo, mora, entre esta dúzia de pérolas, um manifesto que, por si só, chega para definir uma atitude e uma cadência: 'None But The Brave', das sessões de 'Born In The U.S.A.'. Portentoso.
Para quem gostar de juntar a imagem ao som, outro registo indispensável: o DVD 'Live In Barcelona', do concerto gravado no Palau Sant Jordi, a 16 de Outubro de 2002. Duas horas e meia de adrenalina pura, com canções novas e velhas. Mais um documentário, chamado 'Drop The Needle and Pray: The Rising On Tour' que 'explica' como há verdades que não mudam com a 'maturidade'. Entrevistas e imagens raras, num todo que é, enfim, parte integrante do essencial. E muito do que fez Bruce Springsteen é mesmo essencial, ou não fosse ele o único 'boss' que pensa, age e se exprime como um operário…
Selo de garantia, sem margem de erro para uma reunião de pianistas que, por caminhos distintos, já conquistaram o reconhecimento pelo mérito. Agora merecem nota máxima pela iniciativa: um disco em que reina o piano. Ou, com mais rigor, dois pianos que aqui se afagam para logo a seguir se lançarem para estimulantes 'duelos'. 'MÁRIO LAGINHA/BERNARDO SASSETTI' (ed. Onc) é nome de disco e de protagonistas. Arrumá-lo no 'jazz' talvez seja restritivo. Mais vale chamar-lhe grande música. Infinita.
Ganhou estatuto de primeira figura depois de ter sido comparada a Kate Bush ou vista como a herdeira de Joni Mitchell. Antes de mudar de editora, passeou classe por meia dúzia de álbuns, com momentos memoráveis. Agora, é essa selecção de enormes canções, femininas e singulares, que se recorda em 'Tales Of A Librarian' (ed. Warner), para o qual TORI AMOS garante quatro novas gravações. A edição bónus com o DVD pouco acrescenta, que a grandeza está na voz e nos arranjos de uma mulher de alma.
Para quem anda por aqui a 'pregar' em defesa da música francesa, faz doer a alma ter que classificar como falhadas as propostas de ETIENNE DAHO para este ano de 2003. Mas o seu nono álbum de estúdio, 'Réevolution' (ed. EMI-VC), aproxima-se de mais da monotonia, longe dos esplendores de 'Paris Ailleurs' e 'Eden'. Três excepções: a abertura com 'Retour À Toi', o dueto com Charlotte Gainsbourg em 'If' e a presença magnética de Marianne Faithfull, a ler!, em 'Les Liens d'Eros'. Mas é tão pouco…
Deve ser uma competição privada, a de ENRIQUE IGLESIAS com Ricky Martin para apurar qual dos dois latinos consegue, num disco, coleccionar maior número de 'clichés'. Confesso que, depois de ouvir várias vezes '7' (ed. Sony Music), a 'luta' desagua num empate que é uma derrota para quem ouve. 'Pop' banal, compostinha, sem chama, com o jovem a alternar o grito com o gemido, à caça de 'teenagers'. E nem sequer há um single orelhudo como 'Hero'. Esquece-se no preciso momento em que acaba, juro.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
Por Carlos Rodrigues
A humanidade evoluiu, mas há quem nunca tenha saído da idade do gelo.
Portugal está presente em cada cidade onde a portugalidade e os portugueses estejam.
Montenegro concluiu que chegou a hora de "reabilitar" Ventura
No consultório, havia sempre dois temas: o Sporting e a guerra
Presidente do FC Porto não é o que parecia, para desilusão de muitos e espanto de quase todos