Santana Lopes pode não resolver problemas, mas não abandona as suas causas. Vejam o Parque Mayer. Ainda na campanha autárquica, ele prometeu resolver aquele descampado em nove meses. Já lá vão três anos e podíamos ser tentados a dizer que ele falhou. Mas, lá está, o que conta não são as realizações, é a persistência das intenções. Pedro Santana Lopes continua tão interessado no Parque Mayer que este fim-de-semana foi a Braga fazer de ‘compère’ de uma revista à portuguesa.
Os alicerces do humor revisteiro é uma atrasadice portuguesa. Ainda há 40 anos, Portugal era uma ditadura e acontecia o Governo obrigar à licença de uso de isqueiro, protegendo a fábrica de fósforos de um compadre. No Parque Mayer, um actor de revista mimava o acender um fósforo como se fosse um isqueiro. E a plateia ria. E Portugal ria.
Repare-se, não nos ríamos por causa dessa coisa risível que era um país europeu, no séc. XX, ter uma lei que obrigava à licença de uso isqueiro. Num país desempoeirado, um grande cómico diria: “O Governo decretou a licença de uso de isqueiro. A sério!” Teria piada, porque uma das características do humor universal é a expressão do inusitado, do extraordinário. Mas em Portugal o humor era dramático. O actor de revista não dizia uma piada. Piscava o olho, dizendo-nos: “Vocês sabem do que eu estou a falar, não sabem, seus malandrecos?” Ele sugeria, nós fazíamos de entendidos, rindo-nos, e no teatro ouviam-se palmas. Naquele tempo batia-se palmas à impotência.
Só que depois desses tempos aconteceu o 25 de Abril. O 25 de Abril levou muita coisa, trouxe muita coisa, mas se houver balanço justo e curto a fazer, diga-se: o 25 de Abril deu-nos o uso da palavra. Podemos dizer: “Eu posso dizer.” Eu posso dizer que o primeiro-ministro fez de ‘compère’ de uma revista à portuguesa rasca. Antes, eu só vos podia dizer isso piscando o olho. Hoje o que eu digo, digo, e quando não me percebem, eu explico.
Quem parece que não percebeu que estamos em tempos de falar livre e responsável é Santana Lopes. Em Braga, depois de todas as juras de não querer “fazer chicana política”, fê-la. Exigiu explicações aos adversários sobre a posição deles com os casamentos homossexuais. Ora nenhum, nem o PCP, nem o Bloco, nem o PS, nem o CDS, tem o assunto no seu programa eleitoral e nenhum discurso deles abordou a questão. Estando as coisas como estão, sem polémica, por que razão aquele que quer deixar as coisas como estão – como, logo sublinhou Santana Lopes que quer – trouxe a discussão para terreiro? Os risos malandrecos no Parque Mayer, perdão, no comício de Braga, explicam. Santana Lopes estava era a apertar um ou mais adversários sobre essa questão da homossexualidade. Portanto, o que ele disse, não disse. Piscou o olho, de cima do palco. Falar assim, antes do 25 de Abril, era de impotente. Hoje é rasca.
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