Nos últimos tempos, porém, floresceram trupes de humoristas que desopilaram o nosso fígado, modernizando a comicidade muito para além das fórmulas caquécticas do tipo ‘Malucos do Riso’ (meras anedotas encenadas). Os Gato Fedorento são o exemplo óbvio, mas não o único. Com a deserção dos bichanos para a SIC, a RTP 1 fez-lhes fez um manguito com luva de pelica, criando ‘Os Contemporâneos’, também no filão "jovens iconoclastas". Ainda a calibrar uma identidade, o programa alterna bons e maus momentos.
Plasticamente, é mais ousado e inovador do que a concorrência felina: reparem no genérico de abertura e na recorrente (e irónica) metalinguagem – falam e picam-se a si próprios como se fossem mais famosos do que realmente são. Sustenta-se sobre três pilares e o primeiro é o mais proeminente: Bruno Nogueira (quem tem um apelido assim tem tudo). Os outros: Nuno Lopes e Maria Rueff (que felizmente desbastou o excesso de histrionismo aprendido com Herman José). O único momento antológico foi o da rábula de Nogueira sobre Fátima: um texto impagável (das Produções Fictícias) aviado num cadinho magistral de entonação, gesticulação e expressão facial. Já o recurso desmedido ao non sense (o executivo de uma construtora cuja limusina é uma betoneira, os instrumentistas no quarto do casal, Bruno Nogueira confundido com José Carlos Malato) parece-me duvidoso – é fácil ser-se absurdo, mas difícil ser-se engraçado.
OK, o non sense é útil, até porque a vida não é lógica (como pode ser lógica uma coisa que não tem sentido?). Mas em doses homeopáticas. E há personagens (a ministra da Defesa grávida, o taxista zen) que necessitam de provar se têm fôlego ou se cansarão em mais uma ou duas emissões. Em contrapartida, a sátira à TV vingou, pois absteve-se da batida caricatura de telenovelas ou concursos. Tratou-se de ridicularizar as inépcias televisivas, como os repórteres que, nos directos, se limitam a repetir o que o entrevistado acabou de dizer. Por fim, a estricnina da incorrecção política foi judiciosamente polvilhada – com um atrasado mental a insultar uma velhinha.
Em suma, o saldo é positivo e promissor. Portanto, toca a rir. Até porque a vida é curta (mas ainda há notícias piores: aquilo que dela resta fica cada dia mais curto).
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