Em França, como repórter para a revista ‘Sábado’, cobrindo o referendo francês sobre a Constituição Europeia, fiquei surpreendido com a atenção que o jornal ‘Libération’ deu ontem à final do festival da Eurovisão. O ‘Libération’ foi fundado pela geração que, em Maio de 1968, pôs em causa tudo. Foi uma época cheia de exageros mas não se pode acusá-la de falta de jeito para slogans. Dizia-se, então: “O que queremos: tudo!”. Raramente um programa político foi tão claro. Daí que eu não esperasse o interesse daquele jornal pela final da Eurovisão, acontecimento sempre conservador e calmo.
Acontece, porém, que os anos, quando não matam, dão patine: a Eurovisão faz 50 anos, o que num programa equivale aos mil de uma catedral. E acresce que este aniversário redondo coincide com a razão que me trouxe de novo a França, o referendo europeu. Se o leitor reparar, com Eurovisão e Constituição Europeia há um fio comum, Europa. O ‘Liberátion’ reparou e por isso saltou sobre o assunto. Escrevo ainda sem saber os resultados da final, mas é claro que a França tem poucas chances de ter na Eurovisão um ‘sim’ massivo. Aliás, daqui a oito dias, também o referendo dificilmente o terá, já que as sondagens inclinam-se para o ‘não’. Em 1974, a Itália referendava o divórcio pela mesma altura que se realizava o festival. Azar para a cantora italiana que não viu a sua canção transmitida para o seu país porque o título da canção ‘Sí’, parecia um apelo a um sentido de voto.
Estando provada a relação referendo/festival, o ‘Libération’ faz uma classificação da Eurovisão através da dicotomia (sim/não) dos referendos. A Eurovisão merece um ‘não’ porque não tem sentido de humor. Os locutores não podem gozar com o parolo grupo moldavo Zdob Si Zdub (!) porque um artigo da Eurovisão proíbe “qualquer alusão discriminatória em relação aos concorrentes”. Mas merece um ‘sim’ porque a Eurovisão foi precursora nos direitos dos emigrados. É-se candidato do país que se queira: já em 1965, a francesa France Gall (’Poupée de cire, poupée de son’) ganhou o prémio para o Luxemburgo. Assim a Europa se forja, se não constitucionalmente, mas pelas canções. Já para não falar no avanço que a Eurovisão deu à Europa de Bruxelas, metendo a Turquia cá dentro (já em 1975!).
Mais, um candidato não têm de cantar na língua do país que representa: como, agora, aconteceu com os nossos 2B, que não é “dois bê”, mas “tú bi”, como se sabe, tanto em Mangualde como em Oslo. A vontade integradora é, aliás, a principal vantagem do festival. E antiga: em 1957, a canção belga era ‘Tralala’; em 1962, a finlandesa, ‘Tipii-ti’, em 1968, a espanhola Massiel cantou ‘La, la, la’... E assim por diante: ‘Boum-Bang a Bang’ (1969), ‘Ding, Dinge Dongen’ (1975), ‘A-ba-ni-bi’ (1978)... Não se veja nisto facilitismo, mas vontade de nos percebermos uns aos outros. Mesmo quando não há nada para dizer. Afinal, Bruxelas, pode dizer-se, é uma filhota da Eurovisão.
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